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Ex-diretores: projeto de demissão no BC pelo Congresso não tem boa intenção

Antigos servidores da autoridade monetária temem que projeto afete trabalho de regulação do sistema financeiro pela autarquia

João Nakamura, da CNN, São Paulo
Fachada do prédio do Banco Central do Brasil
Ex-quadros também ressaltam que projeto é contraditório à recém aprovada autonomia do BC  • Ilustração feita com inteligência artificial
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Ex-diretores do Banco Central ouvidos pela CNN foram enfáticos na defesa à instituição onde serviram e criticaram a ofensiva do Congresso Nacional contra a autoridade monetária.

Na quarta-feira (3), lideranças de seis legendas da Câmara dos Deputados assinaram um pedido de urgência para um projeto de lei que permite o Legislativo pedir a demissão de integrantes da diretoria a autarquia quando tomarem atitude que “for incompatível com os interesses nacionais”.

"[Os parlamentares] estão interessados por alguma razão, e boa não é com certeza", disse Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do BC e presidente do conselho de administração da Jive Mauá.

Figueiredo pontuou como o projeto é contraditório em comparação a outro processo que vem sendo desenvolvido nos últimos anos: a autonomia do Banco Central.

Desde 2021, a autarquia tem autonomia operacional garantida em lei, tendo independência para operar a política monetária. Além disso, os cargos da diretoria e da presidência passaram a ter mandatos com duração de quatro anos, sendo que o presidente do BC é indicado no segundo ano após as eleições gerais, fazendo com que um chefe de Estado tenha de conviver metade de seu mandato com o indicado anterior.

"A gente acabou de transformar esse lado da política monetária brasileira comparável a de um país arrumado e [com esse projeto] vai voltar atrás", enfatizou o ex-BC.

Hoje, tramita no Congresso uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que consolida a autonomia do Banco Central, além de garantir também sua independência financeira e administrativa - algo que é um empecilho para a autarquia atualmente, uma vez que seu orçamento é atrelado ao do governo federal.

A avaliação é de que a definição trazida no texto do Congresso é ampla e, consequentemente, preocupante. Demissões a pedido, por doença incapacitante, condenação criminal ou desempenho insuficiente no cargo já são processos previstos na legislação atual.

Quanto à definição proposta pelo projeto dos parlamentares, Alexandre Schwartsman, ex-diretor para Assuntos Internacionais do BC, questiona que é vago quem define os interesses nacionais e quais são os interesses em particular.

"Isso é '007': licença para matar", ironizou, em referência ao longa metragem de 1989.

"Me parece ter motivações não exatamente republicanas e de curto prazo. São tantas dimensões em que [esse projeto] está errado, é dos piores que a gente poderia ter. É uma discussão que não precisava estar tendo", pontuou Schwartsman.

O economista sublinhou que, do seu ponto de vista, o projeto não soa como uma pressão direta à política monetária, mas que o risco está em como ele pode afetar o trabalho de gestão do sistema financeiro pelo BC.

Este seria um preceito "muito perigoso", uma vez que a agenda regulatória deveria ser "totalmente técnica", ressaltou Tony Volpon, ex-diretor para Assuntos Internacionais do BC, professor-adjunto na Georgetown University e colunista do CNN Money.

"[A autonomia foi um] grande avanço institucional, [o projeto do Congresso] vai mudar para pior a atuação da instituição. As pessoas convidadas para o cargo vão pensar 20 vezes antes pelo risco financeiro e profissional que implica", ponderou.

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