Setores da indústria no Brasil alertam para impactos de tarifas de Trump

USTR propôs imposição de tarifas de 25% sobre todas as importações do Brasil na noite de segunda-feira (1°)

Manuela Miniguini, colaboração para a CNN Brasil, São Paulo
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Com a publicação da proposta do USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos) de impor tarifas de 25% sobre importações brasileiras na noite de segunda-feira (1°), organizações do setor industrial demonstraram suas preocupações sobre uma eventual aprovação da medida pelo governo do presidente americano Donald Trump. 

Em comunicado oficial divulgado na manhã desta terça-feira (2), a CNI (Confederação Nacional da Indústria) salientou que "medidas tarifárias dessa natureza não contribuem para o fortalecimento da relação econômica bilateral", além de poderem provocar impactos negativos nas cadeias produtivas.

Para a federação, o momento exige diálogo e análise técnica, tendo em vista que a relação econômica entre ambos os países é sólida, fruto da construção ao longo das últimas décadas. "De nossa parte, estamos prontos para contribuir com as negociações", diz o presidente da CNI, Ricardo Alban.

 

 

A FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) também se posicionou. Sua avaliação segue a linha da CNI de que a proposta pode impactar substancialmente a economia brasileira.

"A imposição de tarifas adicionais, mesmo que parcial, tende a reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, ampliar o ambiente de incerteza para as empresas exportadoras e afetar investimentos, empregos e negócios ligados ao comércio exterior", avalia a federação mineira.

A entidade ainda defende que o governo brasileiro mantenha sua atuação firme, porém diplomática, às autoridades americanas.

Nesta tarde, a ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) afirmou que, embora a medida represente um fator adicional de preocupação, o setor já trabalhava com a possibilidade de tarifas entre 20% e 30%.

A associação acrescenta que fará parte do processo de consulta pública e audiência antes da definição das medidas, prevista para 15 de julho, para defender "condições que favoreçam a previsibilidade, a segurança jurídica e o desenvolvimento do comércio internacional".

A Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) se manifestou e reitera a importância do diálogo técnico entre governos, com participação do setor empresarial, para a retomada das negociações e estabilidade no relacionamento bilateral.

A federação também afirma que se habilitou junto ao USTR como parte na investigação em curso em conjunto com a CNI e demais representantes setoriais.

“Apesar de não ter efeito imediato, esta nova decisão contribui para o agravamento do cenário de imprevisibilidade e incerteza no relacionamento entre Brasil e EUA, impactando na geração de investimentos, empregos e renda em ambos os países”, afirma o presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano.

Mais cedo, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) demonstrou sua "profunda preocupação" em relação à proposta publicada, e apoiou uma atuação rápida e firme do governo brasileiro, a fim de evitar prejuízos graves às exportações do país.

Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio), por sua vez, acredita que, se confirmada, a medida aumentará custos, reduzirá competitividade e criará obstáculos bilaterais.

"O setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem seus esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as questões em discussão", afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

O que diz a proposta

proposta de taxação dos EUA considera como motivação atos, políticas e práticas do governo brasileiro relevantes e "passíveis de medidas legais", suscetíveis de serem investigados por meio da Seção 301, da Lei do Comércio de 1974.

Entre elas, o USTR aponta o favorecimento do Pix, acordos de comércio preferenciais, etanol, desmatamento, entre outras questões como motivos para investigação. A audiência sobre a ação proposta pela USTR está marcada para 6 de julho deste ano, com prazo para aplicação da "medida corretiva" em 15 de julho.

Se vigorar, a aplicação de novas tarifas de 25% acontece por todas as importações brasileiras, exceto alguns produtos considerados estratégicos ao mercado americano, como café, minérios e commodities energéticas.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não observa uma queda significativa na competitividade brasileira caso as taxas sejam aprovadas, tendo em vista que outros 59 países também devem ser sancionados por investigações envolvendo "trabalhos forçados" na economia local.

A lista contempla União Europeia e China, rivais comerciais dos Estados Unidos, mas também países cujos líderes têm boas relações com Trump, como Argentina e Japão.

Segundo o Itamaraty,  ainda há espaço para negociações com os EUA antes da aplicação de tarifas de 25%, marcada para o mês que vem. Para pessoas diretamente envolvidas nas conversas com Washington, o relatório preliminar do USTR funciona como uma espécie de "corda no pescoço" na reta final de negociações e uma sinalização de que tarifas podem realmente ser impostas.

No entanto, depois de quase um ano de experiência negociando o "tarifaço" com a gestão Donald Trump, o Palácio do Planalto e o Itamaraty ainda acreditam na possibilidade de reversão ou flexibilização das alíquotas recomendadas de 25%.

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