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    Varejistas parcelam ovo de chocolate a bacalhau em até 10 vezes na Páscoa

    Pagamentos neste período podem ser quitados até depois do Natal

    A condição é para as compras nas lojas físicas e prevê que o valor mínimo dos itens adquiridos some R$ 199
    A condição é para as compras nas lojas físicas e prevê que o valor mínimo dos itens adquiridos some R$ 199 Pexels

    Márcia De Chiara, do Estadão Conteúdo

    A Páscoa deste ano será a prestação. Grandes redes de varejo estão parcelando o pagamento de itens típicos da data, como ovo de chocolate, bacalhau, azeites, bolos, espumantes, vinhos, chocolates e brinquedos. Tudo pode ser dividido no cartão de crédito e sem juros, com prazos vão até dez vezes.

    Isso significa que quem optar por essa forma de pagamento vai quitar a última parcela do ovo de Páscoa só depois do Natal.

    Endividamento e inadimplência elevados do consumidor e preços dos alimentos ainda em alta, por conta dos aumentos registrados nos últimos anos, apesar do arrefecimento recente da inflação em geral, explicam a investida das lojas em prazos mais longos para impulsionar as vendas na data.

    A Americanas, por exemplo, que antes do pedido de recuperação judicial no início de 2023 se posicionava no mercado como a responsável pela maior Páscoa do mundo, está parcelando em dez vezes, sem acréscimo, as compras de ovos de Páscoa, chocolates e brinquedos importados, como coelhinhos de pelúcia.

    A condição é para as compras nas lojas físicas e prevê que o valor mínimo dos itens adquiridos some R$ 199. O parcelamento pode ser em todos os cartões de crédito, informa a empresa.

    O Carrefour, a maior rede de supermercados do país em vendas, também divide em até dez vezes sem juros, no cartão próprio, os ovos de chocolate.

    A condição é que a parcela mínima seja de R$ 9,90. No entanto, para produtos como azeite e bacalhau, o prazo de parcelamento oferecido é menor, de até seis vezes sem juros e no cartão da própria loja.

    Segundo a empresa, o parcelamento não é novidade. “Há mais de cinco anos o Carrefour oferece a possibilidade de parcelamento de compras para Páscoa”, diz a nota.

    O GPA, controlador das redes Pão de Açúcar e Extra Mercado, informa que incluiu no parcelamento chocolates, ovos de Páscoa, bolos, sobremesas geladas, azeites, vinhos, bacalhau e o menu de almoços de Páscoa prontos, disponíveis na rotisserie das duas redes.

    Ao dividir o pagamento das compras nas lojas em São Paulo, o grupo espera crescer 20% as vendas de chocolates e pescados, informa em nota.

    Na bandeira Pão de Açúcar, é possível dividir o pagamento em até quatro vezes sem juros, com parcela mínima de R$ 100, no cartão Pão de Açúcar. Já no Extra, o parcelamento vai até seis vezes sem juros no cartão da bandeira e em três vezes nos demais cartões. A parcela mínima é de R$ 100.

    A estratégia do comércio de parcelar o pagamento por prazos longos para itens de Páscoa atende o desejo do consumidor.

    Pesquisa nacional feita no mês passado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em parceria com SPC Brasil, revela que o brasileiro quer mais prazo para ir às compras na Páscoa deste ano.

    Segundo a enquete online que consultou quase mil consumidores, aumentou de três para quatro o número médio de parcelas para pagamento demandado pelos consumidores para as compras de Páscoa, entre 2023 e 2024.

    De acordo com a pesquisa, o maior aumento por parcelamento está nos prazos mais longos.

     

     

    Na pesquisa de 2023, por exemplo, 9,3% dos entrevistados informaram que optariam por dividir o pagamento em cinco vezes. Neste ano, essa fatia subiu para 12,6%, com alta de 3,3 pontos porcentuais.

    Já o parcelamento em seis vezes ou mais era a opção de parcelamento de 13,9% dos entrevistados no ano passado. Neste ano, essa faixa subiu para 15,7%.

    Efeito El Niño

    Apesar de a inflação geral do país ter perdido fôlego nos últimos meses, o nível elevado de preços dos itens de Páscoa, como chocolate e azeite, por exemplo, são alguns dos fatores que explicam, segundo Daniel Sakamoto, gerente executivo da CNDL, a maior procura por prazos mais longos de pagamento.

    Segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)-15, a prévia da inflação oficial do país, em 12 meses até março o preço do azeite subiu quase 50% (46,43%), aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Levantamento da Fundação Procon na cidade de São Paulo revela que o preço médio do quilo dos bombons subiu 8,30% na Páscoa deste ano em relação ao ano passado. No caso dos tabletes, a alta foi 8,30% no mesmo período. Já o quilo dos ovos de chocolate está 15,52% mais barato.

    Segundo análise da plataforma de mercados financeiros Investing.com, os ovos de Páscoa foram provavelmente produzidos quando a cotação do cacau para os contratos com vencimento em novembro e dezembro variavam entre US$ 3.500 e US$ 3.800 por tonelada na Bolsa de Nova York.

    A plataforma aponta que há um ano, o contrato futuro de cacau era negociado em torno de US$ 2.900 por tonelada. Mas, na última segunda-feira (25) o contrato futuro de cacau com entrega prevista para maio fechou a US$ 9.649 por tonelada.

    A disparada de preços do azeite e do cacau é reflexo das adversidades climáticas provocadas nas regiões produtoras devido ao fenômeno do El Niño.

    Costa do Marfim e Gana são os maiores produtores globais de cacau, com aproximadamente 60% da oferta, escrevem em relatório os analistas da plataforma. Seca seguida de excesso de chuvas prejudicaram a produção da commodity.

    Parcelar comida?

    Para Sakamoto, da CNDL, existe uma dicotomia entre o cenário macroeconômico e as finanças pessoais dos brasileiros. Isso explica a maior procura por parcelamento de prazos mais longos, chegando até aos alimentos.

    “Do ponto de vista macroeconômico, o cenário hoje está melhor do que no ano passado, os juros estão mais baixos, a inflação está sob controle, o desemprego está caindo”, observa. No entanto, as finanças das famílias continuam apertadas, pondera o gerente da CNDL.

    Segundo a entidade, há hoje no país 66,64 milhões de brasileiros inadimplentes — ou 40% da população adulta do país. “Estamos há quase um ano num patamar acima de 60 milhões de inadimplentes, com variações sazonais bem pequenas”, diz Sakamoto.

    Também o endividamento das famílias está elevado: é maior em relação ao ano passado e subiu 0,5% de fevereiro para março deste ano, de acordo com pesquisas da CNDL.

    É exatamente nesse contexto que o parcelamento com prazos longos traz um alívio para as famílias. No entanto, na opinião de Sakamoto, isso acaba sendo uma armadilha para o consumidor a médio prazo.

    “Sabemos que grande parcela da população não tem boa educação financeira”, diz ele, lembrando que boa parte faz apenas a conta se o valor da prestação cabe no bolso, mas não considera o acréscimo dos juros no valor total.

    Ele afirma acreditar que isso pode gerar uma roda negativa na economia. Como há pessoas com pouco dinheiro no bolso e que não querem deixar de comprar nas datas comemorativas, elas acabam se endividando cada vez mais.

    “Certamente tem muita gente ainda pagando as compras do Natal que daqui a pouco estará fazendo a compra do presente do Dia das Mães também parcelada”, diz ele.