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    Xi Jinping terá desafios para alavancar economia da China, dizem especialistas

    Presidente chinês eleito por mais cinco anos deseja manter uma política mais nacionalista, mas que consiga impulsionar o crescimento econômico do país, apesar de receios do mercado

    Presidente da China, Xi Jinping, em Pequim
    Presidente da China, Xi Jinping, em Pequim Florence Lo/Reuters (08.abr.2022)

    Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business em São Paulo

    O presidente Xi Jinping comandará a China pelo terceiro mandato consecutivo, após decisão do Partido Comunista Chinês no 20º Congresso da legenda, e deve enfrentar desafios econômicos à frente do país asiático nos próximos cinco anos, segundo especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business.

    Um dos principais desafios é a manutenção de um crescimento chinês robusto. Nesta segunda-feira (24) foi divulgado que o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 3,9% no terceiro trimestre do ano, acima da previsão de mercado, que era de alta de 3,4%, mas abaixo dos dados de anos anteriores para o período.

    Para Evandro Menezes de Carvalho, coordenador do núcleo de estudos Brasil-China da FGV, o resultado revela uma recuperação da economia chinesa devido à retomada da dinâmica do comércio internacional com os principais parceiros comerciais, mas ainda não é o percentual desejado para manter a taxa de emprego, entre outros objetivos.

    “As previsões, que antes da pandemia eram de crescimentos em torno de 6% ao ano, começaram a se tornar mais difíceis por uma série de motivos. Muita coisa mudou de 2019 para cá e, agora, estimativas de crescimento de 4% gera preocupação para o governo chinês”, pontuou.

    Para Roberto Dumas, professor de economia do Insper, o PIB referente ao terceiro trimestre deve ser tratado com cautela, apesar de estar acima das projeções de mercado.

    “Eu não acho que seja um PIB tão descolado e positivo, porque o que o Partido Comunista quer é que todo crescimento seja de ao menos 5%, mas ele de fato surpreendeu. No final, o PIB chinês acabou sendo puxado pela infraestrutura, pois o país não conseguiu avançar nos outros setores que impulsionam crescimento”, disse.

    O economista destacou que o foco em investimento faz parte do plano do governo chinês para alavancar a economia, enquanto as exportações sofrem com bloqueios sanitários e medidas mais restritivas e um consumo interno menos pujante.

    “Eles tiveram que fazer esses investimentos, pois não seria viável soltar um PIB pífio no meio do 20º Congresso do Partido Comunista, que acabou colocando todo o poder no colo de Xi Jinping”, acrescentou Dumas.

    Reação do mercado

    Roberto Dumas também discorreu sobre a queda das bolsas asiáticas como um reflexo da manutenção de poder do presidente chinês. “As bolsas estão em queda, pois Xi Jinping está colocando mais dinheiro em estatais, pedindo para os bancos emprestarem capital a essas empresas, quando seria mais vantajoso investir em empresas privadas, e isso deve levar a um crescimento ainda menor da China, o que afugenta investidores”, explicou.

    No dia de pregão após Xi Jinping se consolidar no poder por mais cinco anos, o índice Hang Seng caiu 6,36% em Hong Kong, no maior tombo diário desde novembro de 2008. No mercado acionário chinês, o Xangai Composto caiu 2,02%, e o menos abrangente Shenzhen Composto recuou 1,76%.

    Durante o congresso chinês, Xi Jinping revelou sua principal equipe de liderança para os próximos cinco anos com sete membros que especialistas acreditam seguir com mais afinco suas ideias. Por outro lado, membros que poderiam ameaçar o poder de Xi foram retirados de cena, como é o caso do ex-presidente do país Hu Jintao.

    “Acredito que essa reação passa pela definição do comitê do Partido Comunista da China, que foi preenchido por pessoas extremamente leais ao Xi Jinping. Membros do partido que poderiam fazer algum tipo de oposição ou ter uma visão diferente do presidente não foram reconduzidos, então, a linha de pensamento mais nacionalista e não pró-mercado perseverou”, argumentou Fernando Fenolio, economista-chefe da WHG.

    “Talvez estejamos vendo uma nova era que seja econômica e politicamente mais nacionalista, e naturalmente o mercado colhe uma incerteza maior sobre o futuro do país e em que medida uma menor presença do setor privado vai atrapalhar crescimento, lucro e a valorização dos ativos”, completou o economista.

    A continuação de Xi Jinping no poder passa por uma mudança na política de lideranças chinesas. Até 2017 —ano da última cerimônia entre os membros do PCC—, um novo secretário-geral foi nomeado. No entanto, há cinco anos, Xi Jinping rompeu com a tradição e não elevou um potencial sucessor ao Comitê Permanente. Meses depois, ele mudou a legislatura e eliminou os limites de mandato para presidente da China.

    A regra determinava que os altos funcionários com 68 anos ou mais na época do congresso deveriam se aposentar. Mas aos 69 anos, Xi Jinping desprezaria essa norma e permaneceria no poder. Ele é o primeiro líder desde Mao Zedong —fundador da China comunista— a ter sua filosofia acrescentada à Constituição enquanto ainda estava no poder.

    Crescimento chinês

    Desde que a China começou a fazer negócios com o mundo mais abertamente e a reformar sua economia em 1978, o crescimento do PIB foi, em média, superior a 9% ao ano, segundo dados do Banco Mundial. No entanto, neste ano, a projeção é que o país asiático desacelere para 2,8%, ante crescimento de 8,1% em 2021, que já estava abaixo da média histórica.

    O crescimento chinês foi diretamente impactado pelos lockdowns anunciados neste ano em razão de surtos da variante Ômicron. Eles foram realizados em regiões importantes para a economia do país, como Xangai e locais próximos à capital Pequim. Os bloqueios restringiram acesso aos portos, que por sua vez causaram um choque de oferta em razão da alta demanda que não conseguiu ser atendida.

    O setor industrial e o setor de serviços foram fortemente impactados com a política “Covid zero” de Xi Jinping. O Índice de atividade dos gerentes de compras (PMI) Industrial oscilou ao longo do ano em torno de 50 pontos —justamente o marco divisório que aponta contração (abaixo de 50 pontos) ou expansão da atividade (acima dos 50 pontos).

    Já o PMI de serviços teve quedas mais bruscas ao longo de 2022, com resultado de 36,2 pontos em abril, o pior do ano até o momento e bem abaixo da linha dos 50 pontos.

    “Isso faz com que o governo chinês aposte em algo que chamamos de ‘elefantes brancos’ para alavancar a economia, ou seja, fazer ela crescer por meio de investimentos em infraestrutura”, afirmou Roberto Dumas.

    “Apesar de o presidente da China apostar em mudar muita coisa, ele continua com o plano de apoiar a política voltada para consumo, para a urbanização e dando mais poder aquisitivo para a população chinesa”, acrescentou.

    Conflito com Taiwan

    A relação entre China e Taiwan teve turbulências ao longo de 2022, mas ficou estremecida acentuadamente a partir de agosto, quando a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, visitou Taiwan em um sinal de apoio americano ao governo local, o que desagradou os chineses.

    Desde então, a China passou a demonstrar seu interesse de reivindicar a nação insular como parte de seu território com mais afinco e vêm aumentando a pressão militar sobre o governo vizinho.

    A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, prometeu este mês reforçar o poder de combate da ilha e a determinação de melhorar suas defesas. A líder está supervisionando um programa de modernização militar e aumentando os gastos com defesa, após os episódios recentes.

    Em meio a reações negativas do Ocidente, a China se comprometeu a trabalhar pela “reunificação” pacífica com Taiwan sob o modelo “um país, dois sistemas”, proposta rejeitada pelos taiwaneses e que possui pouco apoio político.

    “A política externa da China em relação a Taiwan e Hong Kong é muito assertiva do ponto de vista chinês. Isso porque eles estão intransigentes em relação a esses territórios, sinalizando para que nenhum país se intrometa para não arrumar conflito. O próprio Xi Jinping já expôs que quer resolver a situação em Taiwan até o fim de seu mandato”, afirmou Roberto Dumas.

    Na visão de Evandro de Carvalho, outro desafio do governo Xi Jinping perpassa por uma necessidade de tentar reverter o cenário de adversidade encontrado com países ocidentais, especialmente com os Estados Unidos, que não aceita a superioridade do país sobre Taiwan.

    “A relação entre EUA e China já era uma preocupação no governo Obama e se intensificou no governo Trump com a guerra comercial. Agora, atinge alguns estágios mais agudos ainda no governo Biden por causa de Taiwan”, declarou.

    Relação com o Brasil

    Os especialistas acreditam que, mesmo que haja mudanças mais sólidas sobre a perspectiva de atuação econômica chinesa e uma desaceleração da demanda global, exportações brasileiras ao país asiático não devem ser afetadas.

    “O Brasil exporta muito produto agrícola para a China e temos bastante espaço no setor de commodities. Em um mundo em que a China queira se distanciar dos EUA, em vez de importar grãos norte-americanos, ela pode negociar ainda mais com a América do Sul, e isso é uma oportunidade para o Brasil”, disse Fernando Fenolio.

    O economista ressaltou, no entanto, que os produtos metálicos como minério de ferro podem ser prejudicados em razão da crise imobiliária chinesa, o que leva o país a consumir menos commodities metálicas.

    Esta é a mesma visão de Dumas, que ressaltou a importância da importação de commodities para os chineses conseguirem alcançar seus objetivos econômicos.

    “Os acontecimentos recentes pouco mudam para as commodities brasileiras, pois o governo chinês com sua estratégia nacionalista continua a apoiar uma política voltada para consumo, para a urbanização e dando mais poder aquisitivo para a população chinesa, e para isso deve haver bastante commodity disponível”, concluiu.