Anbima ao Capital Insights: Investidor fica cauteloso com crédito e guerra
Diretor da Anbima e sócio fundador da Leblon Equities, Pedro Rudge é o entrevistado do programa desta quinta-feira (16)
O mercado de crédito privado trabalha sob cautela após notícias corporativas negativas, como as recuperações extrajudiciais de Raízen e GPA, diz o diretor da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e sócio fundador da Leblon Equities, Pedro Rudge.
"O investidor ficou arredio a crédito privado recentemente", afirmou em entrevista exclusiva ao Capital Insights desta quinta-feira (16). O programa é fruto da parceria entre a Broadcast e o CNN Money, e vai ao ar semanalmente às 19h das quintas-feiras.
Segundo ele, o investidor está "menos tolerante" a risco, também em função do ambiente externo, com a guerra no Irã surpreendendo o mercado e elevando a aversão a ativos mais sensíveis, de uma forma geral. Diante da incerteza, certa realocação é razoável e normal.
Rudge detalha que casos específicos de empresas em dificuldade pressionaram o segmento, e alguns fundos registraram, nas últimas semanas, saída de recursos e performance um pouco aquém do que vinha sendo demonstrado.
Houve impacto nos preços, para baixo. Já num segundo momento, os preços baixos, com nivelamento do risco, voltaram a atrair o investidor.
"O preço foi visto como oportunidade. Há profissionais com visão de médio e longo prazos. E o mercado tem sido bastante ativo nessas negociações", pondera.
"Cabe ao gestor tentar identificar comportamentos que podem levar uma empresa a ter dificuldade e ajustar sua carteira. O processo de investimento em fundos tem ocorrido de maneira cautelosa. Do ponto de vista da indústria, não vemos problema", afirma.
Em relação ao caso Master, uma das lições é que o investidor não deve basear a decisão apenas na cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos): "o investidor não deve decidir investir pelo FGC" e "o seguro não pode ser ponto de venda".
Ele também comenta o apelo de papéis isentos, com um alerta sobre a forma como parte do público avalia esses ativos. Para o executivo, o investidor "dá importância desproporcional a questões fiscais" e precisa olhar risco e liquidez antes do benefício tributário.
O diretor da Anbima observa que a renda fixa lidera a captação líquida dos fundos, ajudada pelo nível elevado dos juros. Em fundos de ações, avalia que há oportunidades, mas o gatilho é macroeconômico, sendo a queda do juro "fundamental" para destravar maior apetite.
O ambiente eleitoral, por sua vez, pesa no preço do risco. Rudge afirma que, se os candidatos à presidência "sinalizarem austeridade fiscal", o investidor pode voltar a tomar mais risco, mas pondera que "qualquer novo governante terá desafio fiscal".
Ainda assim, mantém uma visão construtiva para fundamentos corporativos: "Empresas vão continuar crescendo".
Rudge também comenta mudanças estruturais na indústria, como a discussão envolvendo ETFs (Exchange Traded Funds, que são como fundos de índices).
Segundo ele, no Brasil hoje predominam ETFs passivos, replicam índices de mercado (como Ibovespa ou S&P 500) com gestão automática e custos baixos, e há conversas entre Anbima e CVM sobre flexibilização de regras e regulação de ETFs ativos.
Esses instrumentos buscam superar o desempenho desses índices, com gestores profissionais comprando/vendendo ativos ativamente, geralmente com taxas maiores.
Ainda de acordo com o diretor da Anbima, a indústria segue encontrando espaço para crescer, mas dentro de um cenário em que o investidor está mais seletivo e demanda informação e preço.
Rudge destaca a captação líquida de quase R$ 160 bilhões dos fundos no primeiro trimestre, a maior em cinco anos, e aposta na expansão.


