De volta aos 190 mil pontos: bolsa perde fôlego com incerteza sobre guerra

Especialistas alertam que Ibovespa deve voltar a ser impulsionado com melhora no cenário geopolítico, corte de juros e retorno do fluxo estrangeiro

Diana Ribeiro, da CNN Brasil
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O sonho do Ibovespa nos 200 mil pontos está distante, pelo o menos por enquanto.

Na última semana, a bolsa brasileira perdeu fôlego e voltou ao patamar dos 190 mil pontos diante das incertezas do cenário geopolítico. O recuo acontece após uma série de recordes, sustentado pelo fluxo de estrangeiros, que viram a América Latina como um porto seguro entre os mercados emergentes — e o Brasil como o mais bem posicionado na região.

A fraqueza recente na bolsa paulista é acompanhada pela saída de capital externo, embora o saldo no mês permaneça positivo, em R$ 11 bilhões, considerando dados até o dia 22.

Até o dia 15, porém, a B3 registrava uma entrada líquida de R$ 14,6 bilhões em abril.

Na avaliação de Leonardo Santana, especialista em investimentos da casa de análise Top Gain, a bolsa próxima dos 190 mil pontos já pode ser considerada o novo normal - ao menos neste momento.

O especialista ressalta que tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, os mercados estão próximos de suas máximas históricas. Para ele, isso acontece porque, após o período pós-pandemia entre 2020 e 2023, as bolsas ficaram "de lado" por bastante tempo, enquanto houve uma grande migração de recursos para a renda fixa.

"Qualquer sinal de cessar-fogo, normalização do petróleo e controle da inflação pode aumentar o fluxo para o Brasil, fortalecendo ainda mais as bolsas", avalia.

O mercado deve continuar atento ao desenrolar da guerra e à possibilidade de um acordo definitivo entre Estados Unidos e Irã. Com isso, espera-se uma normalização do preço do petróleo.

Para os especialistas ouvidos pelo CNN Money, o principal risco está na duração e na intensidade da guerra. Caso haja um desfecho positivo para o conflito, o Ibovespa pode voltar a buscar os 200 mil pontos.

"O único cenário em que o Ibovespa não romperia os 200 mil pontos seria a ausência de um acordo, mesmo que temporário, e uma intensificação do conflito", afirma Santana.

O head de research da Eleven Financial, Fernando Siqueira, também vê espaço para o Ibovespa superar 200 mil pontos em 2026 com a continuidade da queda dos juros e as eleições no radar.

Contudo, o conflito no Irã e a alta do petróleo geraram uma correção no mercado.

"O maior risco agora é o conflito se estender, junto com a alta do petróleo, e impedir novas quedas da Selic. Os ativos de maior risco devem reagir quando o cenário internacional melhorar e a expectativa de cortes maiores da Selic voltar para o radar."

Para Santana, da casa de análise Top Gain, a principal mudança foi na expectativa para os juros. Antes, pelas curvas de juros futura, projetava-se uma taxa em torno de 12,5% até o fim do ano, mas esse cenário foi revisado para cerca de 14%, principalmente em função das tensões geopolíticas.

"Com o petróleo acima de US$ 100 por barril e a inflação voltando a pressionar, o Banco Central tende a manter uma postura mais cautelosa. Ainda assim, mesmo com esse cenário mais desafiador, há espaço para o Ibovespa alcançar níveis acima dos 200 mil pontos até o final do ano."

Além disso, de acordo com o especialista, há muito capital alocado na renda fixa aguardando uma oportunidade de migração. Com a perspectiva de queda de juros, esse movimento tende a ganhar força, o que pode impulsionar o índice acima dos 200 mil pontos.

Com cortes de juros nos Estados Unidos, o fluxo de capital para mercados emergentes, como o Brasil, tende a aumentar. Assim, é possível que já no início do primeiro semestre essa dinâmica comece a se consolidar.

Apesar da saída de capital externo nas últimas semanas, João Ferreira, sócio da One Investimentos, ressalta que a perspectiva para a bolsa, de forma estrutural, permanece a mesma, com o Brasil se destacando entre os países emergentes.

"O Brasil chama atenção pela atratividade das alocações, pelos múltiplos que até então estavam em patamares bem mais baixos. Fora que o Brasil é um país que se beneficia desse cenário de alta das commodities, alimentos e insumos em geral."

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