Liquidez evidencia concentração do mercado em poucas ações, dizem analistas
Somadas as dez maiores ações do índice, elas têm representatividade maior que demais 75 papéis que compõem o índice

A bolsa brasileira vive um clima de festa nas primeiras semanas de 2026 — patrocinada sobretudo com o dinheiro dos investidores estrangeiros. A euforia, porém, deixa em segundo plano uma problemática: a alta concentração dos negócios.
Em média, os investidores têm negociado diariamente R$ 22,5 bilhões, considerando dados até o dia 20 de janeiro. Esse é o maior patamar mensal desde junho de 2023, segundo levantamento da Elos Ayta.
No mesmo recorte, o volume financeiro médio movimentado em papéis da Vale (VALE3) é de R$ 2,32 bilhões por dia, mais de 10% do total.
O montante é praticamente o dobro do volume da segunda colocada, as ações preferenciais da Petrobras (PETR4), que registraram cerca de R$ 1,17 bilhão por dia no período.
Na sequência aparecem Itaú Unibanco (ITUB4), B3 (B3SA3) e Auren Energia (AXIA3), seguidos por Banco do Brasil (BBAS3) e Bradesco (BBDC4), evidenciando a forte concentração de liquidez em ações de grande capitalização, afirma Einar Rivero, CEO da Elos Ayta.
"A concentração elevada do Ibovespa em poucos ativos não é, por si só, um erro do mercado, mas tampouco pode ser tratada como algo neutro. Ela reflete a própria estrutura da economia brasileira, ainda muito dependente de grandes empresas ligadas a commodities e ao sistema financeiro", pondera Pedro Ros, CEO da Referência Capital.
A Vale tem o papel mais pesado do Ibovespa, representando 11,98% da carteira do índice que reúne as principais ações do país. Somadas, as ações ordinárias e preferenciais da Petrobras representam 9,97%. Fechando o pódio vem o Itaú Unibanco, com 8,47%.
Entre as dez principais ações do índice, cinco são de companhias do mercado financeiro.
Além disso, somadas as dez primeiras, elas têm representatividade maior (51,39%) que as demais 75 ações (48,61%) que compõem o Ibovespa.
"O problema surge quando essa concentração passa a distorcer a leitura do próprio mercado", diz Roz.
Raphael Figueredo, estrategista de renda variável da XP, ressalta que o modelo atribui risco a poucas companhias, porém ressalva que o índice, na sua definição, é a realidade, pelas regras do Ibovespa, do que é atribuído às empresas de alta capitalização no mercado, ponderado pelo índice de negociabilidade.
"Sempre tivemos commodities e bancos como os líderes desse processo, porque essas são as companhias hoje, sob a ótica do investidor estrangeiro, que aplicam, que vão ganhando notoriedade, negociabilidade, capitalização e representação", diz.
"E se algum dia empresas de tecnologia no Brasil ganharem fôlego ou o segmento agro, elas podem se tornar leadership desse processo", pontua.
A saída para gerar-se um mercado financeiro mais diversificado, segundo Figueredo, é pela melhoria das condições financeiras das empresas menores para se trazer maior liquidez em outras pontas do mercado.


