Mercado financeiro avalia impacto mais limitado com novo tarifaço

Governo norte-americano tem até 15 de julho para decidir sobre definição e aplicação da proposta de taxação de 25% dos EUA ao Brasil

Beatriz Oliveira, colaboração para a CNN Brasil, João Nakamura, da CNN Brasil, em São Paulo
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A nova proposta de taxação de 25% dos Estados Unidos ao Brasil, apresentada na última terça-feira (2), é vista pelo mercado financeiro com mais cautela política e jurídica do que como um choque econômico imediato.

De acordo com o USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos), as tarifas foram propostas com base nos termos norte-americanos da Seção 301, que permite que o país investigue e retalie outras nações contra práticas comerciais consideradas injustas. No caso do Brasil, políticas sobre comércio digital e desmatamento ilegal foram apontadas como passíveis de "medidas corretivas".

O governo dos EUA tem até 15 de julho para decidir sobre a definição e aplicação da proposta, que passará por consultas públicas e audiências antes da aprovação.

Embora a possibilidade de um novo tarifaço tenha reacendido preocupações sobre a relação bilateral, analistas consultados pelo CNN Money avaliam que o impacto tende a ser menor do que o observado no primeiro tarifaço de 2025, principalmente porque setores estratégicos da pauta exportadora ficaram de fora das medidas.

Entre os produtos excluídos estão carne bovina, café, aeronaves e componentes aeronáuticos, petróleo, minerais e diversos itens do agronegócio.

A preservação desses segmentos reduz significativamente os efeitos sobre o PIB (Produto Interno Bruto), a balança comercial e empresas brasileiras com forte exposição ao mercado americano.

A principal diferença em relação ao episódio anterior é que o país já acumulou experiência para lidar com esse tipo de barreira comercial, segundo Tania Gofredo, economista-chefe da GEP Brasil.

Para a especialista o choque de 2025 foi mais intenso porque pegou governos, empresas e investidores de surpresa. Desta vez, o mercado entende melhor os mecanismos de adaptação e diversificação das exportações.

“A balança comercial brasileira acabou diminuindo em relação ao volume do ano passado. Com o tarifaço [do ano enterior], houve uma redução no volume exportado para os Estados Unidos, porque esses produtos foram destinados a outros mercados. Na minha visão, a perspectiva não é pior, porque o Brasil vai encontrar esses caminhos novamente”, explica Gofredo.

Apesar da percepção de que os impactos econômicos podem ser limitados, o mercado demonstra preocupação com o caráter mais estruturado da nova ofensiva americana.

Diferentemente do primeiro tarifaço, que foi amplamente contestado na Justiça e acabou revertido, a nova proposta está baseada na seção 301, instrumento tradicional da política comercial dos Estados Unidos.

Para Rogério Freitas, head de investimentos do ASA, isso aumenta o risco de permanência das medidas e amplia a incerteza para empresas exportadoras brasileiras.

Segundo o economista, o mercado interpreta o novo processo como mais institucionalizado e, portanto, mais difícil de ser revertido rapidamente por vias judiciais ou diplomáticas.

Na mesma linha, Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital, avalia que a principal preocupação não está no tamanho da tarifa, mas na tentativa de reconstruir barreiras comerciais sobre uma base jurídica mais sólida.

"Tarifas protecionistas funcionam como um choque de oferta negativo, e o mercado tende a exigir um prêmio de risco maior enquanto não houver clareza sobre o alcance final das medidas, as exceções e as respostas dos países afetados", afirma o executivo.

A avaliação é compartilhada também por Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, que estima que o mercado vê o novo tarifaço mais como um problema de previsibilidade do que de tributação propriamente dita.

“O investidor não olha apenas para quanto será cobrado na fronteira, mas para a capacidade das empresas de planejar investimentos, contratos, margens e exportações. Quando essa previsibilidade diminui, o mercado exige mais prêmio para assumir risco Brasil”, afirma.

No mercado financeiro, os primeiros impactos tendem a aparecer justamente nessa percepção de risco.

Analistas apontam que a indefinição sobre as tarifas pode pressionar o câmbio, os juros futuros e as ações de companhias mais dependentes das exportações para os Estados Unidos, especialmente nos setores industrial, de máquinas, aço, madeira, móveis e componentes.

Por outro lado, alguns especialistas observam que o cenário atual também traz fatores compensatórios.

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, lembra que a nova rodada de tarifas surgiu acompanhada de uma lista ampla de exceções, diferentemente do que ocorreu em 2025.

Além disso, os Estados Unidos anunciaram recentemente redução de tarifas sobre aço, alumínio e cobre, movimento que beneficia empresas brasileiras ligadas à mineração e siderurgia.

"Então, por isso, teve uma notícia boa na mesma semana que teve as notícias ruins. Não é que foi exatamente aquele efeito negativo. Antes do anúncio dessa tarifa, os EUA anunciaram uma redução das tarifas sobre aço, alumínio e cobre, porque os preços do alumínio e do cobre estão nas máximas históricas e há a perspectiva de continuarem subindo", disse Cruz.

Já o estrategista-chefe e sócio-fundador da Stratton Capital, Marcelo Cabral, afirma que o mercado interpretou a nova iniciativa americana como um sinal de deterioração nas relações entre Brasília e Washington.

Na visão dele, a investigação conduzida pelos EUA e o prazo apertado para negociações até meados de julho indicam uma postura mais assertiva da administração americana.

"A perspectiva de risco piora, sim, mas ainda não diria que estamos diante de algo muito catastrófico. O mercado vai aguardar para ver como as coisas evoluem, mas é uma má notícia, sem dúvida nenhuma, para os ativos brasileiros", avalia o economista.

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