Ibovespa cai 2,1%, puxado por setor bancário; dólar sobe a R$ 5,50
Investidores também continuavam de olho no impasse comercial entre Brasil e Estados Unidos

O Ibovespa recuava mais de 1%, enquanto o dólar à vista subia ante o real, nesta terça-feira (19), puxado, em grande parte, por ações do setor bancário.
O impasse comercial entre Brasil e Estados Unidos, e as perspectivas para a política monetária do Federal Reserve, também estiveram no radar, em dia de agenda relativamente esvaziada.
No fechamento do mercado, o Ibovespa, referência do mercado acionário brasileiro, havia registrado queda de 2,1%, a 134.432,26 pontos. Ações do Banco do Brasil (BBSA3) caiam 6,03%; Bradesco (BBDC4), 3,43%; BTG (BPAC11), 3,48%; Itaú (ITUB4) 3,05%; e Santander (SANB11), 4,88%.
O dólar à vista, por sua vez, fechou em alta de 1,19%, a R$ 5,50 na venda.
Segundo agentes do mercado consultados pela CNN, a movimentação se deve à decisão de segunda-feira (18) do ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), de que leis ou decisões judiciais de outros países não têm efeitos no Brasil a não ser que passem por uma validação da justiça nacional.
Apesar de não ter feito menção direta, a decisão de Dino se relaciona diretamente à Lei Magnitsky, imposta pelos Estados Unidos como sanção ao ministro do STF Alexandre de Moraes no final de julho. Entre outras sanções, a lei prevê o bloqueio de contas bancárias e de bens em solo norte-americano.
Isso coloca os bancos em uma "encruzilhada", segundo Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.
De acordo com o especialista, a decisão do ministro obriga instituições financeiras que têm operações no exterior a escolher entre obedecer à ordem do STF ou lidar com possíveis multas dos EUA, prejudicando negócios com parceiros internacionais. "Neste sentido, a queda nas ações é reflexo do pronunciamento de ontem", avalia.
"Os bancos estão tentando interpretar o que irá acontecer", adiciona Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos.
"O investidor, por sua vez, está preferindo realizar posição e ficar de fora da briga".
Cenário externo
Nas últimas duas sessões, as atenções estiveram voltadas para a tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de encontrar uma resolução para a guerra na Ucrânia, reunindo-se com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, na sexta-feira, e com o mandatário ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, na véspera.
Mesmo que os lados tenham relatado progressos nas discussões, os mercados globais se mostram pessimistas com a falta de qualquer entendimento concreto, como um cessar-fogo, que deixe um acordo de paz mais próximo de ser alcançado.
Também há receios diante da percepção de que Trump adotou a abordagem de Putin para o conflito, defendendo que não há necessidade de um cessar-fogo para se negociar um acordo de paz, mesmo que continue reafirmando a posição de aliados de que deve haver garantias de segurança para a Ucrânia.
Para além da questão geopolítica, os investidores continuam se posicionando para o simpósio econômico anual de Jackson Hole, promovido pelo Fed de Kansas City, nesta semana, com um aguardado discurso do chair do Fed, Jerome Powell, na sexta-feira.
No momento, operadores continuam precificando uma alta chance de que o Fed corte os juros em 0,25 ponto percentual em setembro, segundo dados da LSEG, com outra redução da mesma magnitude totalmente precificada até dezembro.
Entretanto, um discurso de Powell que mostre agressividade no combate à inflação, que parece estar finalmente começando a ser afetada pelas tarifas de Trump sobre os produtos de parceiros comerciais, pode impactar as projeções.
O índice do dólar -- que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas -- caía 0,07%, a 98,054.
Cenário no Brasil
Na cena doméstica, o mercado segue observando a tentativa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de negociar a tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre os bens do país, à medida que o Brasil busca pelo menos ampliar a lista de isenções feita por Washington.
As autoridades brasileiras, no entanto, parecem não estar encontrando canais de diálogo. Na segunda, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a negociação tarifária entre os dois países não ocorre porque os EUA querem impor uma solução "constitucionalmente impossível".
Quando anunciou a tarifa no mês passado, Trump vinculou sua decisão, entre outros pontos, ao "caça às bruxas" que o Judiciário brasileiro estaria fazendo sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, réu em julgamento por tentativa de golpe de Estado.
"Temos o distanciamento de uma solução para o conflito entre Brasil e EUA, com caminhos ainda difíceis de negociação. Diante da falta de sinais, é natural que tenha um movimento contido no mercado", disse Matheus Spiess, analista da Empiricus.
Também na segunda, o governo brasileiro enviou resposta formal à investigação aberta pelos EUA sobre supostas práticas comerciais "injustas" do Brasil, rejeitando as alegações norte-americanas e dizendo não reconhecer a legitimidade do Escritório do Representante Comercial para investigar disputas comerciais.
*Com informações da Reuters, Gabriel Bosa, da CNN, e Sofia Kercher, em colaboração para a CNN


