Anthropic cria laboratório médico e usará IA para tratar doenças raras

Desenvolvedora montou uma instalação física em San Francisco para impulsionar uso de inteligência artificial no setor farmacêutico e de saúde

Por Jeffrey Dastin e Michael Erman, da Reuters
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A Anthropic montou discretamente um laboratório para realizar pesquisas sobre biologia, à medida que expande suas ambições em inteligência artificial para o mundo da ciência farmacêutica.

Em um momento em que o receio em relação ​à segurança da IA domina a opinião pública, a startup construiu um laboratório de experimentos físicos na região da Baía ​de San Francisco, segundo duas pessoas a par do assunto. A Anthropic afirmou que pretende desenvolver tratamentos para doenças raras, e seu trabalho na área de biologia já foi além das avaliações “in silico” ou computacionais.

Em entrevista à Reuters na terça-feira, o chefe de ciências da vida da Anthropic, Eric Kauderer-Abrams, confirmou a existência do laboratório de experiências práticas da startup.

“Acreditamos que, para se trabalhar com biologia, o teste final ainda é, e continuará sendo por um tempo, o trabalho de laboratório real”, disse ele. “Estamos, sem dúvida, fazendo isso hoje, e eu descreveria nossa abordagem como típica do que se vê na maioria das empresas de biotecnologia, em que parte desse trabalho é realizada em nossas próprias instalações e outra parte é feita em parceria com parceiros externos".

Um porta-voz esclareceu posteriormente que o laboratório da Anthropic não se destina especificamente à descoberta de medicamentos, recusando-se a dar mais detalhes.

“A missão da empresa é desenvolver uma IA ⁠poderosa de forma a beneficiar o mundo”, disse Kauderer-Abrams. “De longe, vemos a maior oportunidade para isso nas ​ciências da vida, e isso está motivando tudo o que estamos fazendo".

Ambição vs. medo da catástrofe

Assim como outras empresas de biotecnologia, a Anthropic está adotando a automação física, disseram duas fontes.

A startup quer ​aprimorar a forma como sua IA Claude pode orientar unidades robóticas a realizar experimentos científicos com intervenção humana limitada, disse uma das pessoas. Ainda assim, a desenvolvedora acredita que a supervisão e o envolvimento humanos são essenciais ⁠para a segurança, afirmou seu porta-voz.

“Estamos nos estágios iniciais do uso da IA para automatizar a execução ⁠de trabalhos de laboratório”, disse Kauderer-Abrams, “uma área que tem o potencial de trazer uma aceleração significativa em tantos processos diferentes".

A corrida da Anthropic para aplicar tecnologia em rápida evolução a ​um ‌laboratório de biologia ocorre em um momento extraordinário para a empresa.

Nas últimas duas semanas, alguns de seus pesquisadores alertaram que a IA poderia levar à extinção da humanidade, e a empresa afirmou ter encontrado exemplos em que seus sistemas ⁠poderiam ter sido utilizados para o desenvolvimento de armas biológicas.

O presidente da Anthropic, Dario Amodei, pediu uma desaceleração no desenvolvimento da IA, afirmando que uma IA futura mais capaz do que os agentes da OpenAI que invadiram o Hugging Face poderia causar danos catastróficos. Ao mesmo tempo, a companhia se prepara para abrir o capital em uma oferta pública inicial (IPO) que pode chegar a US$ 2 trilhões.

“Em nosso trabalho na área de ciências da vida, estamos sempre equilibrando essas questões”, disse Kauderer-Abrams, “aprimorando os ‌modelos de maneiras ⁠que acreditamos que irão impulsionar e ‌acelerar o desenvolvimento de medicamentos, e sendo criteriosos e cuidadosos sobre como os implementamos para limitar o risco”.

Aumento de aquisições

A Anthropic revelou sua intenção de iniciar programas de desenvolvimento de medicamentos em um evento em São Francisco, em junho. No palco, Kauderer-Abrams disse que a desenvolvedora realizaria trabalhos pré-clínicos em áreas que as empresas tradicionais não consideravam financeiramente atraentes.

A startup também lançou um software chamado Claude Science e, anteriormente, incorporou Vas Narasimhan, presidente-executivo da Novartis, ao seu conselho e comprou a ⁠startup Coefficient Bio por cerca de US$400 milhões em ações, segundo reportagens da mídia. A Anthropic confirmou a aquisição, que a ajudará ⁠a desenvolver ferramentas para o desenvolvimento de medicamentos, mas não se pronunciou sobre o valor do negócio.

Agora, a Anthropic está ampliando os esforços de seu laboratório interno para ganhar velocidade e obter experiência direta em biologia, embora terceirize trabalhos quando for mais eficiente, disse Kauderer-Abrams à Reuters.

“Há ‌algumas coisas que podemos fazer muito mais rápido por conta própria”, disse ele, com o objetivo de “operar na maior escala possível”.

A Anthropic tem buscado contratar um líder capaz de ampliar as operações de aquisição e outras áreas, conforme indicado em uma recente oferta de emprego no LinkedIn. Outra vaga anunciada pela companhia por meio da Jobera busca um especialista em “caracterização de proteínas e ácidos nucleicos”, entre outras atividades bioquímicas. Uma terceira oferta de emprego diz: “Nosso objetivo é acelerar o progresso nas ciências da vida em uma ordem de magnitude.”

As ciências da vida já representam uma das maiores áreas de investimento da Anthropic em termos de pessoal e recursos, disse Kauderer-Abrams.

Doenças intratáveis

Em sua ‌opinião, a IA pode acelerar o desenvolvimento de tratamentos para condições antes consideradas “intratáveis”. A tecnologia pode agilizar a descoberta, por exemplo, de anticorpos bispecíficos e trispecíficos, moléculas complexas que podem ser direcionadas a vários pontos em uma proteína ou célula-alvo, ou atingir múltiplos alvos.

Ainda não está claro quais doenças específicas a Anthropic está abordando e qual o seu progresso. Uma vez identificada uma molécula, pode levar anos para que um medicamento chegue ao mercado, ⁠já que ele precisa passar por testes em ensaios clínicos com seres humanos, um desafio que a empresa ainda não assumiu. A Isomorphic Labs, braço de descoberta de medicamentos da rival Alphabet, vem trabalhando há anos para chegar à fase clínica e, anteriormente, adiou essa meta para o final de 2026.

Em seus esforços de automação de laboratórios e de outros setores da indústria, a Anthropic lançou em agosto o Model Hardware Standard, que auxilia a IA a operar equipamentos. Um projeto ​de origem acadêmica chamado PyLabRobot, sem relação com a desenvolvedora, já havia abordado anteriormente necessidades de automação relacionadas, embora diferentes.

A empresa do Claude está fornecendo serviços como o Model Hardware Standard, além de serviços e ferramentas mais amplas de IA, para todo ​tipo de grandes empresas farmacêuticas, como Genentech, da Roche, Bristol Myers Squibb e Novo Nordisk.

Ao mesmo tempo, a Anthropic está lidando com um problema de confiança, segundo duas fontes familiarizadas com seus esforços. Os clientes podem temer que ela aprenda com seus programas de medicamentos concorrentes, mesmo que a startup de IA proteja seus dados contra acesso não autorizado.

Kauderer-Abrams disse que a Anthropic, em parte devido a preocupações com a concorrência, estabeleceu um limite: por enquanto, não está realizando ensaios clínicos e está se concentrando em necessidades que a indústria não atenderia.

“Não estamos competindo com empresas farmacêuticas e de ‌biotecnologia cujo negócio é levar medicamentos ao mercado”, disse ele.

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