Medida de inflação preferida do novo chair do Fed está esfriando

Economistas do próprio banco central alertam que indicador subestima a inflação devido a uma distorção metodológica

Ann Saphir, da Reuters, em Berkeley
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Uma das medidas de inflação favoritas do novo chair do Federal Reserve, Kevin Warsh, voltou a esfriar na quinta-feira (28), oferecendo evidências de sua crença de que a inflação ​está melhorando e contra a opinião de um número cada vez maior de outros ​formuladores de políticas de que pode ser necessário elevar a taxa de juros para conter as pressões de aumento dos preços.

A inflação anual pela medida da média aparada do Fed de Dallas -- a mais conhecida das que Warsh se referiu em sua audiência de confirmação como "médias aparadas" para a inflação -- foi de 2,3% em abril, informou o banco na quarta-feira (27), abaixo dos 2,4% de março.

O problema é que os responsáveis pela metodologia dizem que isso está subestimando a tendência subjacente da inflação no momento.

"É preciso ter cautela para não ficar muito otimista com o nível da média aparada", explicou Tyler Atkinson, economista do Fed de Dallas, em uma entrevista na quarta-feira, ⁠antes da divulgação dos dados mais recentes.

Em tempos normais, disse ele, ​o indicador funciona bem para filtrar o ruído dos componentes externos, que em abril incluíram o aumento dos preços da gasolina, passagens aéreas ​e joias, e uma queda nos preços de aves, roupas de cama e banho e cortes de cabelo.

Ele elimina os preços de aumento mais rápido ⁠e os preços de queda mais rápida, deixando um conjunto intermediário mais representativo ⁠de alterações de preços que normalmente serve como um bom indicador da direção da inflação.

Os itens com preços em queda ou ​com ‌aumento muito lento geralmente superam os itens com preços em alta acentuada, de modo que os pesquisadores do Fed de Dallas compensam cortando mais itens de alta inflação ⁠do que os de baixa inflação.

Porém, ultimamente, devido às tarifas impostas pelo presidente Donald Trump no último ano, que elevaram os preços de uma grande parte dos produtos, a "distorção" usual se inverteu.

Isso significa que cortar os 31% mais altos e os 24% mais baixos dos itens do índice, como exige a metodologia do indicador, acaba empurrando o ‌indicador para ⁠baixo, subestimando as verdadeiras pressões ‌sobre os preços, explicou Atkinson.

Isso já aconteceu antes, principalmente no surto de inflação pós-pandemia, quando a medida de inflação de média aparada do Fed de Dallas emitiu um sinal falso sugerindo que a inflação seria mais fraca do que acabou sendo.

Em contrapartida, a medida que os formuladores de políticas do Fed vêm usando há algum tempo para ⁠avaliar as pressões subjacentes sobre os preços -- o núcleo do índice de preços das despesas ⁠de consumo pessoal, excluindo os preços voláteis de energia e alimentos -- aumentou 3,3% nos 12 meses até abril, informou o Bureau de Análise Econômica do Departamento de Comércio nesta quinta-feira.

Esse é o aumento ‌mais forte desde 2023 e, como disse a diretora do Fed Lisa Cook, na quarta-feira, "está claramente indo na direção errada".

Em sua audiência de confirmação no mês passado, no entanto, Warsh disse aos parlamentares que prefere receber seu sinal a partir de "médias aparadas" e, como ele disse à senadora democrata Catherine Cortez Masto, ele acredita que a inflação "melhorou um pouco no ano passado".

Os analistas estão céticos.

"Acreditamos que seja difícil argumentar que a desinflação sinalizada pela média aparada seja real", escreveram os analistas ‌do Standard Chartered Bank, Steve Englander e Dan Pan, observando não apenas as propriedades estatísticas da medida do Fed de Dallas, mas também que, historicamente, ela não tem sido tão boa em prever a inflação futura quanto o núcleo do PCE.

O Fed de Dallas não tem planos de mudar sua metodologia, disse ⁠Atkinson.

Se as pressões de preços induzidas por tarifas recuarem conforme o esperado, o problema deverá se resolver sozinho nos próximos meses. Até lá, outros indicadores de inflação subjacente podem merecer mais atenção.

Em uma postagem no X nesta quinta-feira, o economista de Harvard Jason Furman observou que a leitura da média aparada não é a única a ​indicar uma inflação mais moderada recentemente.

A medida separada da inflação mediana de PCE do Fed de Cleveland também diminuiu nos últimos meses, embora, com 2,8%, seja um pouco ​mais alta do que a medida do Fed de Dallas.

Sobre a medida preferida de Warsh, ele disse que não há nada que indique que ela não seja razoável.

"A preocupação é que ela tenha sido escolhida por razões ex post", disse ele, acrescentando que "preferiria que o Fed fizesse um estudo mais aprofundado da melhor extração de sinais, propusesse algo e continuasse com isso".

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