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    Preços no atacado caem 7%, maior queda em 28 anos, e ajudam a baixar juros

    Na visão de economistas, deflação forte nos preços de matérias-primas já começa a aliviar preços para os consumidores e abre mais espaço para que Banco Central corte a Selic

    Juliana Eliasda CNN

    em São Paulo

    Depois de passar dos 40% e bater recordes em 2021, a inflação do atacado, que verifica o preço de matérias-primas e produtos vendidos pelo setor agrícola e a indústria, está caindo mais de 7% e registra os seus menores níveis desde pelo menos o início do Plano Real, em 1994.

    Na visão de uma ampla ala dos economistas, isso significa que os preços que chegam aos consumidores devem, em breve, começar a refletir pelo menos uma parte dessas quedas.

    Isso traz alívio para a inflação geral do país e abre ainda mais espaço para que o Banco Central (BC) possa começar a flexibilizar a sua atual política de juros altos.

    “É brutal a deflação acumulada em 12 meses no atacado, e, olhando para isso, não sei se alguém ainda pode ter alguma dúvida de que é necessário reduzir os juros”, defendeu o sócio-diretor da consultoria MacroSector, o economista Fábio Silveira, especializado no setor agropecuário.

    “Os preços no atacado funcionam como uma força gravitacional sobre os preços ao consumidor. Eles precedem o comportamento dos preços no varejo e, se estão caindo, significa que, em algum momento, os preços no varejo vão, em alguma medida, acabar caindo também.”

    A inflação do atacado é medida, no Brasil, pelo Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), da Fundação Getulio Vargas (FGV).

    Nos 12 meses até maio, o IPA caiu 7,6%, uma magnitude de queda que não tinha ainda sido registrada em nenhum outro momento antes desde pelo menos 1995, primeiro ano completo desde o início do Plano Real, que acabou com a hiperinflação no país.

    Até então, a maior deflação registrada nos preços aos produtores tinha sido de 4,4%, em dezembro de 2009 e, depois, em agosto de 2017.

    Safras recordes de grãos, como a soja, ao lado de um dólar mais baixo e, também, de preços de diversas commodities em queda nos mercados internacionais, conforme a política global de juros altos vai esfriando a demanda por esses insumos, estão entre as principais razões que explicam insumos ficando rapidamente mais baratos também no Brasil.

    Só em maio, o minério de ferro, matéria-prima para as vigas e chapas que sustentam as estruturas da construção civil, de automóveis e de eletrodomésticos, caiu 13,2%, pelo IPA da FGV.

    A soja e o milho em grãos caíram 9,4% e 15,7% no mesmo mês, respectivamente. Como ambos são a base das rações que alimentam frangos, suínos e bovinos, as quedas deles ajudam, também, que o preço das carnes caia.

    Os efeitos já começam a aparecer no varejo: em maio, a inflação da alimentação no domicílio, ou seja, dos alimentos nos supermercados, foi zero, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

    Diferentemente do IPA, que acompanha o preço dos produtos comercializados na indústria, o IPCA acompanha os serviços e o varejo que chegam diretamente ao consumidor final.

    “As commodities estão ficando mais baratas em reais, o que está impactando os preços no atacado e que, por sua vez, começa a chegar ao consumidor”, disse a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, mencionando, por exemplo, o alívio nos preços dos alimentos.

    “E ainda tem uma boa parte desta deflação do atacado que ainda precisa chegar no consumidor, o que tende, nos próximos meses, a continuar ajudando na desinflação dos bens industriais.”