200 anos de Pedro II: saiba como imperador apoiou educação e ciência

Monarca financiou bolsas no exterior, manteve observatório no Palácio de São Cristóvão e comprou telescópio

Tatiana Cavalcanti, colaboração para a CNN Brasil
Dom Pedro II é retratado na pintura "Imperador do Brasil", do século XIX  • De Agostini via Getty Images
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O imperador dom Pedro II completaria 200 anos nesta terça-feira (2). A data também marca o Dia da Astronomia no Brasil e celebra o legado do monarca que usava recursos do próprio bolso para financiar estudos de brasileiros no exterior em diversas áreas.

Entre os beneficiados estava Maria Augusta Generoso Estrela, que se tornaria a primeira mulher brasileira formada em medicina do pais, em 1881, pelo New York Medical College and Hospital for Women, nos Estados Unidos.

A história dela foi retratada na novela "Nos Tempos do Imperador", da Globo.

Quando o pai de Maria Augusta faliu e não conseguiu mais pagar a faculdade dela em Nova York, o imperador assumiu os custos.

"Essa ação dele era conhecida como 'bolsinho do imperador', uma espécie de poupança. Ele usa esse 'bolsinho' várias vezes, inclusive para [investir em] ciências", afirma o escritor Paulo Rezzutti, autor da série de livros "A História Não Contada", com biografias de personalidades do Brasil como dom Pedro I e II, Leopoldina e Domitila.

Segundo a Academia de Medicina de São Paulo, Maria Augusta foi a segunda mulher a exercer a profissão no país e atuou na defesa da educação feminina.

A condição imposta pelo soberano para financiar estudos era clara: os bolsistas deveriam retornar ao Brasil e aplicar aqui o conhecimento adquirido.

O paraense Júlio César Ribeiro de Sousa também recebeu financiamento imperial para estudar em Paris, na França, também em 1881.

Lá, Sousa desenvolveu pesquisas sobre balões dirigíveis, como o L'Avitoir, precursor dos voos controlados que Santos Dumont realizaria anos depois. Conforme reportagem da revista Pesquisa Fapesp, Júlio César foi um dos pioneiros da aeronáutica mundial.

"Dom Pedro II foi criado com a mente voltada para ciências e não para, por exemplo, áreas militares", diz Rezzutti.

Paixão por astronomia

O imperador mantinha um observatório astronômico no Palácio de São Cristóvão e possuía um gabinete no Instituto de Observação Astronômica no Rio de Janeiro, de acordo com Rezzutti.

Pouco antes do golpe militar de 1889, que expulsou o imperador do Brasil, dom Pedro II comprou do próprio bolso um telescópio que seria o maior da América do Sul. O equipamento foi devolvido pelos republicanos e nunca instalado.

"Faltava a visão do dom Pedro II nesse início da República no Brasil", afirma o escritor.

Em 1875, dom Pedro II foi eleito associado correspondente da Academia de Ciências do Instituto da França. Dois anos depois, tornou-se associado estrangeiro, ocupando uma das oito vagas dessa categoria. Para o instituto, enviava relatórios com observações astronômicas sobre eclipses no hemisfério sul.

O interesse do imperador pelos estudos de Louis Pasteur levou ao envio de médicos brasileiros para formação na França. O Instituto Pasteur no Rio de Janeiro foi inaugurado em fevereiro de 1888, nove meses antes do Instituto Pasteur em Paris, segundo Rezzutti.

Papel na astronomia

O professor e astrônomo Marcos Calil, do canal Urânia Planetário no Youtube, afirma que dom Pedro II teve papel decisivo na consolidação da astronomia no Brasil. "Ele promoveu a reorganização e consolidação do Observatório."

O Imperial Observatório do Rio de Janeiro, criado por decreto em 1846, recebeu instrumentos modernos da Europa e se tornou um dos mais bem equipados da América Latina.

"O imperador financiou a aquisição de instrumentos astronômicos modernos da Europa", diz Calil. Entre os equipamentos estavam telescópios refratores, cronômetros de precisão e aparelhos para medição de tempo e posição.

O legado de dom Pedro II na educação e na ciência marcou um período em que o acesso ao conhecimento era restrito, especialmente para mulheres. A visão do monarca sobre ciência como ferramenta de desenvolvimento nacional, dois séculos atrás, influenciou a criação de instituições que permanecem ativas até hoje, como o Observatório Nacional.