Ao abordar solidão como tema, redação da Unesp exigiu argumento reflexivo

"Candidatos tinham a liberdade de construir sua tese a partir de diferentes ângulos", destaca professora de Língua Portuguesa do Objetivo, Paula Nogueira

André Nicolau, da CNN Brasil
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A prova de redação da UNESP (Universidade Estadual Paulista), deste ano, apresentou um desafio instigante aos candidatos com a seguinte pergunta: "Estamos vivendo uma epidemia de solidão?". 

A proposta, reflexiva e de cunho social, exigiu uma argumentação aprofundada e alinhada ao perfil das últimas edições do exame, de acordo com a professora de Língua Portuguesa do Objetivo, Paula Nogueira.  

Segundo a especialista, a coletânea de apoio oferecida aos vestibulandos foi diversificada, permitindo múltiplas abordagens sobre o tema.  

Os textos traziam um histórico da solidão, mostrando como a ausência de espaço para o isolamento no passado evoluiu para as conotações contemporâneas do tema. Havia também uma perspectiva artística, com um poema de Carlos Drummond de Andrade, e uma tirinha, estimulando a reflexão emocional e social. 

“Um texto de opinião contrastava a visão da solidão como algo negativo com a ideia de solitude, vista como um momento necessário de autocuidado e reflexão”, explica Paula.  

Ela acrescenta ainda que, assertivamente, a prova incluiu dados da OMS (Organização Mundial de Saúde ), que apontam para um aumento de pessoas que se sentem solitárias, encarando esse sentimento como um sofrimento agudo ou até mesmo uma patologia, elevando a questão ao debate da saúde pública. 

“Os candidatos tinham a liberdade de construir sua tese a partir de diferentes ângulos, respondendo à pergunta com uma afirmação, uma negação ou uma visão relativizada”, reflete a professora.  

O candidato que, de acordo com a docente, optasse pela afirmação poderia argumentar que a solidão se intensificou na contemporaneidade, impulsionada por fatores como o uso excessivo de redes sociais – que paradoxalmente conectam e isolam – e a performance de uma identidade individualista. “Essa postura, embora incentive o "olhar para si", pode facilmente resultar em transtornos como a depressão, transformando a solidão em uma questão de saúde pública que demanda organização e atenção social”, afirma.  

A professora chama a atenção ainda para outra linha argumentativa, que consistia em negar o caráter epidêmico da solidão, resumindo seu aspecto intrínseco à condição humana.  

“Nesse viés, a solidão seria entendida como uma forma de autopreservação e autocuidado, uma escolha que permite momentos de ócio, reflexão, leitura e cuidado específico com o bem-estar mental e corporal. O foco recairia na distinção entre solidão (necessária) e o isolamento social (problemático)”, explica a educadora.  

Um caminho argumentativo mais complexo envolvia a análise da solidão sob o prisma da desigualdade social e de gênero. A solidão, nesse caso, não seria a mesma para todos; ela se manifestaria de formas diferentes para ricos e pobres, ou para homens e mulheres, expondo vulnerabilidades específicas. 

Paula finaliza avaliando que tema da redação da UNESP 2026 reafirmou a tendência da banca em buscar uma argumentação reflexiva, exigindo que o candidato fosse além da descrição do fenômeno, explorando suas causas, consequências e as diferentes nuances de sua percepção na sociedade moderna. “O sucesso na prova dependia da capacidade de transformar informações diversas em um discurso coeso e com forte viés social”.