Assédio sexual atinge 1 em cada 4 meninas estudantes no Brasil, diz IBGE
Pesquisa revela que 1,1 milhão de adolescentes sofreram relação sexual forçada

Entre os 1,1 milhão de adolescentes que relataram ter sofrido relação sexual forçada no Brasil, a maioria tinha 13 anos ou menos quando a violência ocorreu. Em 2024, 18,5% dos estudantes informaram ter passado por situação em que alguém o tocou, manipulou, beijou ou expôs partes do corpo contra a sua vontade alguma vez na vida.
O dado, divulgado nesta quarta-feira (25) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na 5ª edição da PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) 2024, expõe a gravidade da situação. O levantamento também aponta um cenário preocupante nas escolas, onde 26% das meninas de 13 a 17 anos já sofreram assédio sexual alguma vez na vida.
Para Ariel de Castro Alves, advogado e membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), esses números são um reflexo de uma sociedade que historicamente tratou mulheres e meninas como "objetos".
"Temos uma tradição de sociedade machista, na qual mulheres e meninas historicamente foram tratadas como 'objetos' dos homens e não com pessoas e sujeitos de direitos." Alves enfatiza a urgência de uma mudança cultural e educacional. "É muito expressivo e grave que um quarto das meninas já sofreram assédios e abusos."
O especialista aponta que a falta de educação sobre temas como sexualidade, além de diversidade nas escolas e famílias, tem relação direta com a escalada da violência.
A pesquisa do IBGE, realizada em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do MEC (Ministério da Educação), entrevistou estudantes do 7º ao 9º ano do ensino fundamental e do 1º ao 3º ano do ensino médio.
Os resultados de 2024 mostram um aumento de 3,8 pontos percentuais no assédio sexual em relação a 2019, sendo a variação mais acentuada para as meninas (5,9 p.p.).
A psicopedagoga e escritora Paula Furtado, especialista em arteterapia, afirma que uma criança ou adolescente em situação de violência tende a desenvolver bloqueios, dificuldades de concentração e ansiedade, comprometendo a aprendizagem que não se restringe ao campo cognitivo.
"Quando vemos que as meninas são as maiores vítimas de violência sexual e que o bullying cresce de forma tão expressiva, é porque não estamos falando apenas de estatísticas", afirma. "Estamos falando de feridas abertas, de histórias interrompidas e de processos de desenvolvimento emocional comprometidos da nossa sociedade."
Educação sexual como ferramenta de proteção
Ariel de Castro Alves defende que a educação sexual é um pilar importante no enfrentamento dessa violência. "É fundamental no enfrentamento aos abusos, gravidez precoce, infecções sexualmente transmissíveis e relacionamentos ou casamentos precoces."
Ele ressalta que a abordagem desses temas nas escolas também capacita crianças e adolescentes a se protegerem diante de abusos e exploração sexual.
O advogado critica a censura a esses temas nos últimos 15 anos, impulsionada por setores reacionários e o movimento "escola sem partido". Ele argumenta que a falta de discussão sobre gênero e diversidade nas escolas contribui para a masculinidade tóxica e abusiva, exemplificada por casos recentes de violência.
"Tratar de gênero e diversidade nas escolas é fundamental para desconstruir estereótipos, prevenir violências, promover igualdade e enfrentar a masculinidade tóxica e abusiva."
Além da violência sexual, o bullying também apresenta um cenário preocupante:
- Aumento geral: a PeNSE 2024 registrou que 27,2% dos estudantes sofreram bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa. Houve um aumento em relação aos 23% de 2019
- Vítimas: as meninas são as maiores vítimas (30,1%)
- Agressores: os meninos praticam mais (16,5%)
O bullying cibernético (cyberbullying) também é uma realidade:
- Alcance: atinge cerca de 1 em cada 8 adolescentes (12,7%)
- Vítimas online: as meninas são mais afetadas (15,2% contra 10,3% dos meninos)
- Agressores online: a prática é mais comum entre meninos (11,6%) do que entre meninas (8,4%)
Paula Furtado alerta para o aumento do sofrimento psíquico e da sensação de solidão, apesar da hiperconectividade.
"Isso nos mostra que, apesar de ser uma sociedade super conectada, há uma desconexão profunda no campo dos vínculos das relações."
Ela defende que a arte e a contação de histórias podem ser ferramentas para a elaboração do sofrimento.
Outros dados:
- Saúde mental: quatro dos seis indicadores de saúde mental apresentaram melhora em relação a 2019, contrariando expectativas pós-pandemia. No entanto, 28,9% dos estudantes sentiram tristeza na maioria das vezes ou sempre nos últimos 30 dias, e 32% sentiram vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores
- Saúde sexual: houve adiamento da iniciação sexual (de 35,4% em 2019 para 30,4% em 2024), mas com redução do uso de preservativos. Cerca de 121 mil meninas de 13 a 17 anos já engravidaram
- Suporte psicológico: 47,7% dos alunos estão em escolas com algum tipo de suporte psicológico, sendo o percentual maior na rede privada (58,2%) do que na pública (45,8%)
Ariel de Castro Alves conclui que os dados do IBGE devem impulsionar uma atuação integrada das escolas com conselhos tutelares e centros de referência da assistência social.
"Os agressores do estupro coletivo de Copacabana no Rio de Janeiro não são alienígenas, e sim frutos de uma sociedade que proibiu as discussões de gênero, diversidade e educação nas escolas nos últimos anos", finaliza, ao citar o caso recente contra uma jovem de 17 anos.


