Brincar no fim das férias prepara cérebro para volta às aulas; veja dicas

Especialistas defendem que brincadeiras reduzem estresse escolar e fortalecem habilidades como atenção e memória; segredo está no equilíbrio com as telas

Tatiana Cavalcanti, colaboração para a CNN Brasil
Brincar ao ar livre é uma das atividades fundamentais para crianças
Brincar ao ar livre é uma das atividades fundamentais para crianças  • Freepik
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As férias escolares estão chegando ao fim, mas o aprendizado não precisa ficar restrito à sala de aula que logo voltará a ocupar a rotina.

Para especialistas em desenvolvimento infantil, o brincar é o verdadeiro "motor" do crescimento das crianças, funcionando como uma ferramenta essencial para organizar as emoções e aliviar as tensões típicas da transição para o período letivo.

Segundo Luciana Brites, mestre e doutoranda em distúrbios do desenvolvimento e diretora executiva do instituto Neurosaber, a brincadeira nas férias permite que a criança explore territórios e interações sociais que a rotina escolar nem sempre oferece.

"Toda brincadeira faz com que o cérebro trabalhe componentes importantes como atenção e autorregulação", afirma a autora do livro "Brincar é Fundamental".

Para as famílias que buscam mais conexão e menos cobrança nesta reta final das férias, a dica é incluir a criança na rotina da casa. Atividades simples, como ajudar a fazer um bolo ou arrumar a mesa, podem ser transformadas em momentos lúdicos que desenvolvem a autonomia.

A pediatra Mariana Lombardi Novello, pós-graduada em neurociência, educação e desenvolvimento infantil, reforça que o cérebro da criança não precisa de mais estímulos digitais após um dia de aula, mas sim de experiências que ajudem a integrar o aprendizado.

"O brincar não é um luxo, nem um passatempo extra. É uma necessidade. O cérebro não se desenvolve apenas sentado, ele precisa de movimento e imaginação", afirma a médica.

Desafio das telas

Um dos maiores obstáculos para o brincar livre é o excesso de tecnologia. As especialistas alertam que a criança não consegue regular o uso de telas sozinha, cabendo aos adultos estabelecer limites claros.

Confira dicas de rotina previsível que ajudam:

  1. Combinado não sai caro: estabeleça os horários de uso de celular e videogame e avise com antecedência (ex: "faltam 10 minutos") quando o tempo estiver acabando;
  2. Brinquedos simples: não é preciso gastar muito. Bola, massinha, papel e lápis são suficientes para estimular a criatividade que as telas acabam ocupando;
  3. Dicas para manter a dinâmica no ano letivo: mesmo com o retorno das aulas, garantir um tempo para o brincar —sem roteiro ou cobrança— traz benefícios diretos para o desempenho escolar. Crianças que brincam tendem a dormir melhor, ter mais foco e menor irritabilidade;
  4. Brincadeiras por idade: aposte no "faz de conta" para crianças de 4 e 5 anos. Para as menores, foque em atividades psicomotoras (como andar de motoquinha). Já para as mais velhas, introduza jogos de tabuleiro com regras e brincadeiras de movimento, como pega-pega;
  5. Resgate do tédio criativo: ao limitar as telas com constância, a criança pode inicialmente resistir ou reclamar de tédio, mas é nesse momento que ela reencontra a capacidade natural de criar e imaginar;
  6. Aproveite espaços públicos: não limite o brincar ao ambiente doméstico. Explorar pracinhas e parques ajuda a criança a desenvolver a percepção visual e motora em diferentes territórios;
  7. Registro de memórias: utilize o tempo livre para visitar parentes ou amigos que a rotina escolar não permite ver com frequência, fortalecendo os vínculos sociais e criando lembranças afetivas duradouras.

Saúde mental em dia

Mariana, a pediatra, afirma ainda que o brincar atua como um protetor da saúde mental, agindo diretamente na redução do estresse e no fortalecimento da autoestima.

Segundo ela, quando esse tempo de lazer é negligenciado em função de uma agenda sobrecarregada, é comum observar crianças mais irritadas, desatentas e emocionalmente exaustas.

"Garantir o brincar ao longo de todo o ano é um investimento silencioso, mas profundo na saúde emocional; a criança que brinca se relaciona melhor e exercita funções executivas fundamentais, como o controle de impulsos", diz Mariana.

Para evitar problemas, Luciana Brites lembra ainda que, com as crianças mais tempo em casa ou em brincadeiras livres, é fundamental redobrar a atenção para evitar acidentes domésticos, mantendo o ambiente sempre seguro e orientado.