Dia dos Professores: ex-padre cria jogo de cartas para ensinar filosofia
Nas aulas de Ricardo Cirino Vaz em uma escola estadual de SP, nomes como Aristóteles, Kant e Simone de Beauvoir passam a ser familiares

As aulas de filosofia na Escola Estadual Professor Jefferson Soares de Souza, em Jumirim, no interior de São Paulo, deixaram de ser sinônimo de tédio. Agora, os estudantes exploram um novo universo de conhecimento onde Pitágoras, Sócrates e Platão se tornaram velhos conhecidos.
Em vez de longas leituras, os secundaristas se envolvem em intensas competições utilizando cartas de um jogo que transforma debates filosóficos em uma batalha envolvente. Os alunos aprendem brincando.
O responsável por essa odisseia é Ricardo Cirino Vaz, um professor de 44 anos que abandonou a batina após quase uma década como padre. Depois de concluir sua jornada espiritual, ele se formou em filosofia, história e sociologia e escolheu lecionar na rede pública.
"Queria dar aos estudantes a possibilidade de botar a ‘mão na massa’”, afirma ele, que dedicou seis meses para desenvolver o Mentis, um projeto que envolveu investimento pessoal de cerca de R$ 250 para realizar o primeiro molde.
Este jogo consiste em cem cartas que representam filósofos, livros, citações, símbolos e eventos, de quatro períodos: filosofias antiga, medieval, moderna e contemporânea.
Os alunos, divididos em equipes, esquecem a "decoreba" e competem para debater ideias e argumentos, trocando conhecimento.
“O jogo é feito de argumentações e conhecimentos. A ideia é ajudar os alunos a gostarem da filosofia”, diz o professor, que enxerga em Mentis uma forma de cultivar um pensamento crítico e dinâmico.
Uma das estratégias que os alunos descobriram foi a de jogar em duplas, uma abordagem que permite que ajudar um ao outro ao analisar as cartas e desenvolver estratégias.
Essa interação é essencial, segundo o professor, já que o jogo requer muita leitura e raciocínio para contabilizar os pontos necessários nos debates e enfrentamentos.
“Eles vão aprender a falar nomes como Aristóteles, Simone de Beauvoir e Kant — que eu percebia que tinham dificuldade de pronunciar,” afirma Ricardo, observando o quanto as discussões se tornaram mais vibrantes e esclarecedoras.
O impacto dessa abordagem é notável nas notas bimestrais, especialmente entre os alunos da 3ª série do ensino médio. “Vejo um crescimento significativo, principalmente entre os estudantes do itinerário de Humanas.”
E mais. “É gratificante ver quando eles vêm atrás de mim durante o intervalo pedindo o jogo para brincar. Isso é ainda mais visível porque eles estão sem o celular.”
E não são apenas os conceitos filosóficos que os alunos absorvem: muitos se sentem inspirados a seguir caminhos acadêmicos na área de humanidades.
Ricardo, agora noivo de uma professora da “, reflete sobre a importância de sua transformação pessoal e profissional. “Fui um padre feliz e estou feliz na minha história — e isso inclui ser professor da rede.”
Com a motivação crescente dos alunos em sala de aula, Mentis mostra não ser apenas um jogo, mas uma porta de entrada para um novo entendimento da filosofia, que agora pode ser vivenciada de forma ativa e envolvente na vida dos jovens estudantes.


