FMUSP prioriza saúde da população LGBTQIAP+ com curso de pós-graduação

Curso inédito busca aprofundar o conhecimento e desenvolver habilidades específicas para o cuidado com a saúde da população LGBTQIAP+

André Nicolau, da CNN Brasil
Curso foca em demandas invisibilizadas em consultas como prevenção específica e sexualidade  • JVech/Wikipedia
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O HCX Fmusp, braço de gestão do conhecimento do Hospital das Clínicas da USP, abriu as inscrições para o primeiro curso de especialização lato sensu focado na Saúde da População LGBTQIAP+.

A iniciativa busca capacitar profissionais de diversas áreas para um atendimento humanizado e tecnicamente qualificado, preenchendo uma lacuna histórica na formação acadêmica brasileira.

Segundo o psiquiatra Daniel Mori, coordenador do curso e do ambulatório transdisciplinar do IPq (Instituto de Psiquiatria), a formação surge para responder a desafios urgentes, como a discriminação e o acesso deficitário a serviços de bem-estar. “A abordagem multiprofissional é essencial, uma vez que as questões relacionadas à saúde da população LGBTQIAP+ envolvem uma complexidade de fatores que vão além das competências de uma única disciplina e os profissionais de saúde precisam estar preparados para colaborar de maneira eficaz na promoção da saúde e bem-estar dessa população”, enfatiza o especialista.

Diferenciais e grade curricular

Com uma carga horária de 456 horas — superior à média de cursos similares —, a pós-graduação é a primeira do gênero aprovada e regularizada pelo MEC (Ministério da Educação).

O currículo permite o aprofundamento técnico em temas de identidade de gênero e orientação sexual sob a ótica de diversas especialidades, incluindo urologia, endocrinologia, geriatria, infectologia, além de áreas como serviço social e antropologia.

“A ideia é a gente aprofundar nas particularidades em saúde, mas de uma maneira muito mais multidisciplinar e acadêmica”, explica Mori. De acordo com o coordenador, o curso também incentiva a produção científica: “A proposta é sensibilizar os alunos para olhar a questão de maneira humanizada, estando atento e respeitando todos os direitos que essa população tem, inclusive acesso à saúde, educação, emprego, lazer”.

Impacto na saúde mental e vulnerabilidade

O curso foca em demandas que frequentemente permanecem invisibilizadas em consultas de rotina, como prevenção específica e sexualidade.

O coordenador alerta para os altos índices de depressão e ansiedade nesse grupo, decorrentes do chamado "estresse de minorias". “Não por ser LGBT, mas porque é uma população vulnerável que sofre mais com o preconceito e está sujeita ao estresse de minorias, o que acaba tendo impacto enorme na saúde”, ressalta o psiquiatra.

Embora o Censo não traga dados específicos, estudos da USP estimam que entre 3 e 5 milhões de pessoas no Brasil se identifiquem como trans, não binárias ou travestis, além de uma parcela significativa de lésbicas, gays e bissexuais que dependem de um sistema de saúde mais acolhedor.

Educação continuada como solução

A criação da pós-graduação também é vista como uma resposta às falhas na graduação. Mori cita dados recentes do Enamed para reforçar a necessidade de especialização após a faculdade.

O objetivo é conectar o aluno a uma rede de especialistas para garantir um atendimento ético e eficaz. “Daí a importância de primeiro colocar o aluno em contato com uma rede de especialistas que tem familiaridade e já estuda essa temática para que o aluno também aprenda, se atualize, tenha acesso a conteúdo de qualidade e possa se instrumentalizar”, finaliza o médico.