ITA tem vagas para indígenas e quilombolas: candidatos falam sobre impacto

José Lima e André Giancarlo relataram à CNN como a primeira reserva de vagas na instituição muda a perspectiva de disputar uma das seleções mais exigentes do país

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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Antes de chegarem ao vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), José Lima e André Giancarlo já haviam percorrido uma longa distância — não apenas no mapa. José saiu de uma aldeia indígena na Paraíba; André deixou um território quilombola no interior de Sergipe com a família, em busca de melhores condições de estudo.

Pioneiros, os dois jovens estão entre os candidatos à primeira edição do vestibular do ITA com vagas reservadas para indígenas e quilombolas. A mudança amplia o acesso a uma instituição historicamente marcada pela alta seletividade, mas não elimina o caminho que cada estudante precisa percorrer até conseguir disputar uma vaga.

O Vestibular ITA 2027, que começa no próximo domingo (27), oferece 200 vagas, 20 a mais que no ano passado. Nesta edição, são 140 para ampla concorrência, 50 para pretos e pardos, seis para indígenas e quatro para quilombolas.

O aumento, porém, não está relacionado às cotas. As 20 vagas adicionais fazem parte da expansão do ITA para o Ceará, onde um novo campus está sendo construído em Fortaleza. Já a inclusão de indígenas e quilombolas segue a Lei nº 15.142/2025, que elevou de 20% para 30% o percentual mínimo reservado em concursos federais.

Ainda assim, a reserva de vagas não elimina a desigualdade na preparação para uma prova desse nível. José estudava para o vestibular em sua casa em Marcação (PA), de forma online, antes de conseguir uma bolsa para fazer um curso em Fortaleza. Depois, mudou-se novamente, desta vez para São José dos Campos (SP), onde hoje se prepara para a prova do ITA.

O que a reserva de vagas resolve — e o que ainda não resolve?

No primeiro ano do ensino médio, um professor viu José resolvendo sozinho exercícios do livro didático em vez de prestar atenção à aula — e o desafiou com uma questão do ITA. A partir daquele problema, ele começou a conhecer melhor o instituto e a imaginar-se como engenheiro.

“A nova lei de cotas é uma lupa que pode nos ajudar a enxergar sonhos que antes nos pareciam muito distantes”, diz José à CNN Brasil. Para ele, a reserva de vagas ajuda a abrir espaço para indígenas em concursos como o do ITA, mas está longe de resolver as condições de origem: nas aldeias, afirma, as escolas ainda enfrentam limitações de estrutura e qualidade de ensino.

Na verdade, a reserva de vagas não cria critérios diferentes na hora de fazer a prova. Pelo edital, para avançar de fase, o candidato precisa acertar ao menos cinco das 12 questões de cada disciplina na primeira etapa e alcançar média geral igual ou superior a 5 — regra que vale para cotistas e não cotistas.

José só conseguiu chegar ao nível de preparação atual depois de duas bolsas de estudo. Primeiro, passou três anos como bolsista em um cursinho em Fortaleza. Agora, no Curso Poliedro, em São José dos Campos, recebe também alojamento e alimentação. Sem esse apoio, diz, não teria conseguido manter “o mesmo nível de foco, com certeza”.

André, por sua vez, saiu do povoado Ladeiras (SE), para Aracaju, quando os pais decidiram investir na sua educação — uma escolha pouco comum na região, onde, segundo ele, muitos jovens começam a trabalhar cedo para ajudar em casa. “Ter a vaga não garante a aprovação, mas me estimulou a concorrer”, resume o candidato em entrevista à CNN Brasil.

Como José e André enfrentam o desafio de disputar um lugar no ITA?

Segundo José, somente 12 estudantes teriam se inscrito para a reserva de vagas indígenas até o fechamento das inscrições — o que ele considera pouco. Procurada, a assessoria de Comunicação Social da Aeronáutica não confirmou o dado até a publicação desta reportagem.

Para bancar os estudos de André, os pais dele trabalharam de domingo a domingo, em dois restaurantes, até conseguirem abrir o próprio negócio. Parte da família, conta ele, nunca teve acesso à escola. Em uma certidão antiga, a avó lhe mostrou o nome da tataravó, Maximina Bispa Professora, registrada como nascida ainda no século 18, dentro do quilombo.

Aos 9 anos, logo que chegou em Aracaju, André foi chamado de "orelha de macaco" por um colega. "Minha mãe conversou bastante comigo sobre como agir, ela é negra e já passou por situações semelhantes", diz o rapaz. José enfrenta uma versão diferente do mesmo problema: teme que uma eventual aprovação seja vista como mérito menor por causa do preconceito com as cotas.

"As cotas foram uma porta que se abriu para mim, e pode se abrir para você também", diz André, dirigindo-se aos colegas mais novos no Ladeiras. José espera que “cada vez mais estudantes indígenas possam participar futuramente". Nos dois casos, a vaga reservada só virou chance real depois que cada um saiu de casa em busca de um voo mais alto.

No domingo (27), ambos irão testar se suas rotas os levarão ao ITA.