"Tecnologia precisa atender aos objetivos da escola", diz especialista

ECA digital, que entrou em vigor nesta semana, levanta debate sobre uso da tecnologia em sala de aula

André Nicolau, da CNN Brasil
Compartilhar matéria

O avanço da "hiperdigitalização" no ensino brasileiro tem agora um novo marco regulatório: o ECA Digital.

A lei, que entrou em vigor nesta terça-feira (17), estabelece condições mínimas para que plataformas e redes sociais redesenhem suas arquiteturas, garantindo que o "melhor interesse da criança" prevaleça sobre os modelos de negócio das empresas de tecnologia.

Com o debate sobre os limites do uso da internet na infância e adolescência, o design dessas ferramentas deve impactar também o ambiente escolar.

O fim do design manipulativo

Uma das principais mudanças diz respeito ao banimento de ferramentas que forcem o engajamento contínuo. Estão vedados mecanismos de notificação excessiva, apelos emocionais para manter o usuário conectado e técnicas de manipulação de comportamento para venda de produtos — ainda que estes tenham fins educativos.

"Se você usa técnicas de design que estimulam o uso excessivo ou trabalham com a manipulação do comportamento para gerar algum grau de frustração ou pressão para que a criança adquira produtos, isso está vedado pelo ECA Digital", alerta o texto normativo.

Classificação indicativa e Inteligência Artificial

O ECA Digital também reforça a necessidade de respeitar a classificação indicativa, que agora inclui uma nova faixa etária de seis anos, além das tradicionais de 10 e 12 anos.

Essa segmentação impacta diretamente o uso de IA (Inteligência Artificial) em sala de aula. Uma plataforma de IA utilizada por uma criança de 7 anos deve possuir restrições de conteúdo e interação substancialmente diferentes de uma ferramenta voltada para adolescentes de 16 anos.

Inversão de lógica: a escola dita as regras

Especialistas apontam que a nova lei propõe uma mudança de paradigma: não são as redes de ensino que devem se adaptar às tecnologias de mercado, mas o contrário.

Atualmente, muitas escolas utilizam plataformas baseadas em modelos de venda de publicidade ou coleta de dados, o que entra em conflito com a nova legislação.

"A tecnologia que for usada na escola tem que ser uma tecnologia criada, desenvolvida e aperfeiçoada para atender os objetivos da escola, em primeiro lugar. E não a escola que tem que atender aos objetivos do mercado", destaca Rodrigo Nejm, psicólogo e especialista em educação digital do Alana.

Educação digital e cidadania

Além da infraestrutura técnica, o ECA Digital reforça a urgência da educação digital e midiática no currículo escolar, em consonância com a BNCC (Computação na Educação Básica). O objetivo é formar alunos que compreendam o funcionamento de algoritmos, saibam verificar fontes de informação e identifiquem modelos de negócio prejudiciais à saúde.

A meta final é transformar o papel de professores e alunos no ecossistema digital. "É sair dessa postura de o professor e o estudante serem usuários passivos da tecnologia, para serem usuários críticos e, mais do que isso: sujeitos capazes de criar novas tecnologias que sirvam à cidadania e à democracia", reforça.

O especialista encerra afirmando que a transformação digital na educação pode, inclusive, ajudar a formar novas gerações que entendam, de forma mais crítica, o lugar da tecnologia na sociedade. “Quem sabe nossos estudantes possam ser formados agora, com o ECA Digital e com as políticas de educação digital, como sujeitos capazes, inclusive, de criar novas tecnologias. Os futuros criadores de tecnologia, mesmo de inteligência artificial”, afirma.