Como escritores LGBTs veem na literatura uma forma de combate ao preconceito


Leopoldo Rosa Da CNN, em São Paulo
19 de junho de 2020 às 12:52 | Atualizado 04 de julho de 2020 às 01:20
 
O que clássicos cult como Caio Fernando Abreu, Cassandra Rios e Truman Capote tem em comum? Embora suas obras sejam muito diversas umas das outras, se conectam por terem sido escritas por autores LGBTs. E o que poderia passar despercebido noutros tempos ganha peso atualmente, segundo autores LGBTs ouvidos pela CNN.

De acordo com Renan Quinalha, advogado, ativista e autor do livro “História do Movimento LGBT no Brasil”, a literatura é central para a comunidade. “Tem uma importância fundamental por ajudar a colocar referências e representatividade para quem esteja descobrindo a identidade possa se referenciar nesses modelos, personagens, autores”. 

Victor Martins é um dos autores da nova geração deste mercado. Ele completa a visão de Quinalha sobre a representatividade proporcionada pela literatura. “É de extrema importância para uma coisa que a gente busca que é essa percepção de que o LGBT tem conflitos como todo mundo em várias áreas da vida e, com isso, gerar empatia. Quando a gente lê sobre uma vivência que não é a nossa acaba sendo provocado a repensar o assunto”, diz o escritor que foi sucesso na última Bienal do Livro de São Paulo e tem um terreno fértil para falar de literatura em suas redes sociais. Só no Instagram são mais de 42 mil seguidores.

Victor Martins

Victor Martins é um dos autores da nova geração

Foto: Divulgação

Aliás, as redes sociais são espaço de muitos desses autores para divulgar pensamentos, experiências e textos mais curtos. É o caso de Daniel Bovolento, autor dos livros “Depois do Fim” e “O que eu Tô Fazendo da Minha Vida”. A experiência pessoal de Daniel, sempre presente naquilo que escreve também influenciou na formação de seu público e no desejo de escrever mais sobre os LGBTs. 

“A minha saída do armário pública em 2015 mudou muito isso. Eu percebo que meus textos e livros ganharam algo diferente e tenho sentido muita necessidade de trazer para a mesa esses assuntos LGBTs”, conta o autor, que admite a dificuldade que as histórias sobre casais do mesmo sexo têm para romper a bolha da comunidade. “O público hétero, quando vê um livro LGBT não se interessa, não se sente representado.”

Aliada ao cinema, a literatura conseguiu quebrar essa parede nos últimos anos. É o caso de “Me chame pelo seu nome”, livro de André Aciman que virou filme e levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2018. Antes disso, o romance “The Prince of Salt”, de Patricia Highsmith, recebeu seis indicações ao Oscar em sua adaptação no filme “Carol”. 

Junto ou separado?

Categorizar os livros numa estante LGBT nas livrarias e nos sites de venda também é uma questão. Por um lado, representa um avanço e ajuda aos interessados a encontrarem mais facilmente. Por outro, pode ser uma forma de separação que afasta outros públicos.

O escritor Daniel Bovolento

O escritor Daniel Bovolento

Foto: Divulgação

Daniel Bovolento conta que já ouviu de um editor que quando entrasse na categoria, corria o risco de só ser visto como um escritor gay. Vitor Martins compartilha do mesmo dilema. “É um orgulho muito grande falar sobre isso e é importante que as pessoas saibam que é uma história de protagonismo LGBT, mas só sou procurando quando é para falar sobre isso e sou um autor capaz de falar de outras coisas”, diz. 

Embora haja divergências, Renan Quinalha diz que essa segmentação ainda é necessária. “É importante para ajudar a constituir um campo do debate público sobre isso, mas o ideal é chegar num momento em que não haja mais isso e seja literatura como qualquer outra literatura”.