Em aniversário de 110 anos, álbum com 11 inéditas de Adoniran Barbosa é lançado


Leonardo Lopes* Da CNN, em São Paulo
06 de agosto de 2020 às 00:05 | Atualizado 06 de agosto de 2020 às 13:11
Adoniran Barbosa

O cantor e compositor Adoniran Barbosa durante show em São Paulo (22.ago.1974)

Foto: SOLANO DE FREITAS/Estadão Conteúdo


"Outros bares da Ipiranga / Eram a Consolação / Só mais um e era a conta / Pra minha desilusão." Embora escritos há mais de 40 anos, esses versos do célebre sambista paulistano Adoniran Barbosa vieram à tona somente agora, em 2020.

Nessa quinta-feira (06) em que completaria 11 décadas de vida, foram lançadas 11 obras inéditas do compositor de “Trem das Onze”, “Tiro ao Álvaro” e “Saudosa Maloca”. As canções foram produzidas a partir de partituras e letras que estavam guardadas há anos. Ouça:

A homenagem, feita em plena pandemia de Covid-19, foi gravada nas vozes de artistas consagrados e novos talentos da música brasileira, como Elza Soares, Zeca Baleiro, Rubel e Francisco, el Hombre.

Produtor musical responsável pelo projeto, Lucas Mayer contou à CNN que teve acesso ao material intocado em 2016. A descoberta foi feita por intermediação de funcionários da tradicional rádio paulistana Eldorado – lugar tão frequentado por Adoniran nos anos 70 que o sofá em que cochilava após o almoço ganhou seu nome.

Partitura da música “A Escola”, que foi gravada na voz do cantor Zé Ibarra

Partitura da música “A Escola”, que foi gravada na voz do cantor Zé Ibarra

Foto: Lucas Mayer / Reprodução

Mayer afirma que as músicas nunca haviam sido gravadas por conta da necessidade de trabalhar a interpretação daqueles documentos históricos. “Eram partituras só com melodia, sem harmonia e a letra vinha separada da partitura. Não ficava claro onde a letra se encaixava com a música”, explicou, ao comparar o processo com uma tradução.

“O Adoniran transcende seu tempo”

Ainda em 2016, parte do material já foi utilizado e lançado pela gravadora da própria Eldorado, mas 11 músicas permaneceram intocadas. Com a coincidência do aniversário de 110 anos, a cerveja Eisenbahn topou em financiar a iniciativa. “Achava um absurdo que isso nunca foi gravado”, contou Mayer.

Uma das propostas do projeto “ONZE” foi levar o trabalho de Adoniran Barbosa para um novo público. Por isso, optaram por uma mescla de artistas consagrados e outros em ascensão para interpretar as obras.

Ao mesmo tempo em que os artistas deixaram suas marcas na forma de interpretar a música, o produtor conta que eles também foram “adoniranizados”, incorporando alguns aspectos do sambista. “Não tinha como sair das letras e melodias do Adoniran, os artistas acabaram incorporando”, disse.

Cada música do álbum é acompanhada de um depoimento sobre o processo de produção. A antológica Elza Soares, no auge de seus 90 anos, deu ares futurísticos aos versos de Adoniran ao cantar a música “Vaso Quebrado”. “É quase uma viagem no tempo. O Adoniran transcende seu tempo e cabe muito bem nesse estilo moderno”, relatou Elza.

Já no final de sua carreira, ao ver a ascensão da Jovem Guarda de Roberto Carlos enquanto seu próprio sucesso diminuía, Adoniran cantava: “E eu que já fui uma brasa, se assoprarem posso acender de novo”. 38 anos após sua morte, volta a queimar como brasa o sambista que narrou, pela perspectiva das malocas, o cotidiano da São Paulo em expansão industrial.

Gravações em casa

Para além da curadoria artística, a crise causada pelo novo coronavírus impôs condições específicas para a realização do projeto. Mayer explica que teve de optar por instrumentistas que já tinham estúdios próprios em suas casas para gravar as bases das músicas. 

cantora Juliana Strassacapa

A cantora Juliana Strassacapa, da banda Francisco, el Hombre, gravou a música “Bebemorando” em um guarda-roupas de sua casa

Foto: Lucas Mayer / Reprodução

Além disso, o produtor explica que realizou videochamadas pelo aplicativo Zoom para poder instruir os artistas durante o processo. Os cantores que não tinham infraestrutura para gravar suas vozes precisaram de um esquema improvisado. Ele conta que chegou a enviar para alguns um “kit de gravação” com seus próprios equipamentos higienizados para que pudessem realizar as gravações.

“Precisei ligar para a pessoa e ajudar a criar um ambiente de estúdio na própria casa. O Rubel, por exemplo, estava na praia e tivemos que nos livrar do som do mar”, relator sobre o cantor carioca que deu voz à música “Bolso de Fora”. 

Em uma homenagem involuntária às “coisas simples” que Adoniran dizia cantar, o álbum foi construído entre microfones improvisados dentro de um guarda-roupas e “cabaninhas” de colchões e cobertores. 

(*Com supervisão de Marina Motomura)