O Brasil e o Oscar: Baixos investimentos diminuem chances dos filmes nacionais

Especialistas ouvidos pela CNN explicam sistema de votação da premiação e as razões para as produções tupiniquins nunca terem vencido uma estatueta

Luana Franzão*, da CNN, em São Paulo
24 de fevereiro de 2021 às 05:00 | Atualizado 24 de fevereiro de 2021 às 11:24
Estátua do Oscar coberta em plástico durante preparativos para cerimônia
Estátua do Oscar coberta em plástico durante preparativos para cerimônia
Foto: Lucas Jackson/Reuters (12.fev.2015)

Apesar de ter uma produção cinematográfica extensa e ser reconhecido no cenário internacional por diversas obras, o Brasil parece não conseguir alcançar o prêmio máximo do cinema: o Oscar, entregue anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Pré-indicações para a edição de 2021 já saíram e os brasileiros que estavam cotados para participar da competição mais uma vez ficaram de fora.

Para a categoria "Melhor Filme Internacional" (antiga "Melhor Filme Estrangeiro"), a indicação do Brasil para o comitê que selecionou os finalistas de 2021 foi Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, documentário sobre a vida e obra do diretor Héctor Babenco, sob o comando de Bárbara Paz.

Entretanto, a derrota deste ano não se trata de uma situação inédita: o Brasil nunca trouxe um Oscar para casa — alguns brasileiros já foram individualmente contemplados pelo prêmio, mas em produções atribuídas a outros países.

Para especialistas ouvidos pela CNN, o principal obstáculo é a falta de investimento. Não só na produção dos filmes, mas também na distribuição das obras, na promoção internacional dos longas brasileiros que é necessária para atrair os olhos da Academia.

"A disputa pelo Oscar exige um projeto bastante complexo de marketing e lançamento, envolvendo profissionais extremamente especializados e grandes investimentos, o que dificilmente um filme brasileiro dispõe", explica Flávio Souza Brito, professor do curso de Cinema da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

A relação entre as produções brasileiras e o Oscar é extensa e complicada. Na lista das obras que alcançaram indicações, mas que acabaram perdendo para outros candidatos na decisão final, já passaram grandes sucessos do cinema nacional, como Cidade de Deus (2002) e Central do Brasil (1998).

O cinema brasileiro já figurou quatro vezes na categoria de "Melhor Filme Internacional": estreou com O Pagador de Promessas, em 1963, voltou 33 anos depois com O Quatrilho, de 1996, depois com O Que é Isso, Companheiro?, de 1998, e pela última vez em 1999, com Central do Brasil.

Em 2003, Cidade de Deus foi indicado pelo comitê brasileiro para a categoria, mas não entrou no corte final de indicados e acabou sendo contemplado em categorias consideradas principais, direção, roteiro e fotografia.

Um dos casos mais célebres da relação Oscar e Brasil é a indicação de Fernanda Montenegro a "Melhor Atriz" em 1999, por Central do Brasil.

Raramente um filme da categoria Internacional leva indicações aos principais prêmios da noite, então a expectativa foi grande. No final das contas, quem levou a estatueta foi Gwyneth Paltrow, por Shakespeare Apaixonado.

O Brasil já foi selecionado duas vezes para a categoria "Melhor Documentário", com O Sal da Terra, em 2015, e Democracia em Vertigem em 2020, além da indicação de O Menino e o Mundo (2013) para "Melhor Animação".

Vale lembrar que Democracia em Vertigem chegou à disputa final para ganhar a estatueta de documentário com um apoio de peso: o streaming Netflix, que ajudou a promover mundialmente o filme da diretora Petra Costa.

Com tantas indicações e produções de qualidade, muitas vezes é difícil entender o porquê de o Brasil nunca ter vencido um Oscar. As dificuldades financeiras, o próprio sistema de escolha do prêmio e até questões governamentais são citadas como possíveis razões que explicam a dificuldade dos filmes brasileiros em saírem vencedores de estatuetas.

Funcionários preparam o tapete vermelho do Oscar de 2020
Foto: Mario Anzuoni/Reuters

Sistema de votação do Oscar

Diferentemente de outras premiações, como os festivais de Cannes, Veneza ou Toronto, que possuem um júri relativamente pequeno e restrito, o Oscar conta com mais de 8 mil votos para decidir o vencedor de cada categoria.

"A comunidade do Oscar não é formada apenas por críticos. É heterogênea em idades, formações e nacionalidades", explica André Gatti, também professor do curso de Cinema da Faap.

Além disso, a categoria aceita filmes de formatos muito diferentes entre si, o que torna muito difícil delinear um padrão dentro dos longas que venceram essa categoria.

Flávio de Souza Brito, que além de docente é editor do site especializado Mnemocine, afirma: "Escolhas temáticas, presença de profissionais consagrados ou uma qualidade estética 'superior' são parâmetros muito subjetivos. Narrativas ficcionais, com forte mobilização emocional supostamente teriam maior possibilidade, mas não garantem nada."

Falta de investimento e distribuição

Uma percepção comum entre especialistas sobre a escolha de filmes que são indicados ou vencem o Oscar é a de que apenas qualidade não é suficiente para chamar a atenção da Academia.

Em geral, os filmes que chegam até a cerimônia conseguiram alguma popularidade dentro do próprio meio cinematográfico.

Criar essa notoriedade exige investimento, tanto na produção quanto na distribuição do longa. Para criar aquilo que se chama de "buzz", as discussões e comentários a respeito do filme, a produção deve ser assistida por muitas pessoas -- e por pessoas influentes.

Brito explica que uma política cultural mais robusta e de longa duração poderia fomentar a produção audiovisual no Brasil e aumentar a possibilidade de projetos nacionais ganharem visibilidade externa.

"De forma geral, na dimensão interna, o crescimento requer o fortalecimento da indústria audiovisual, consolidando sua produção; e, no âmbito externo, ao lado dos outros intercâmbios comerciais, apoio das estratégias de difusão do cinema brasileiro."

Ele cita ainda o caso da indústria cinematográfica argentina, que já venceu duas vezes o prêmio de "Melhor Filme Estrangeiro": "Embora a Argentina tenha uma economia bem menor que a brasileira, seu cinema tem uma maior visibilidade internacional a partir de uma série de iniciativas, como a exibição em embaixadas e as co-produções com outros países."

"Nós não temos um órgão, uma distribuidora pra difundir, divulgar, expandir o filme brasileiro no mercado internacional. O filme brasileiro depende do interesse de pequenas distribuidoras em distribuir nossos filmes lá fora. Eventualmente uma distribuidora maior se interessa por um ou outro filme, mas é raro"

André Gatti, professor no curso de Cinema da FAAP

As cifras também são um fator agravante na produção dos filmes. Cineastas brasileiros muitas vezes contam com um orçamento muito enxuto, o que prejudica a execução de ideias e projetos. "Um filme caro no Brasil é um filme barato nos Estados Unidos, na França ou na Inglaterra. A nossa indústria ainda está correndo com valores muito baixos de investimento em produção", lembra Gatti.

Mesmo sem Oscar, a qualidade do cinema brasileiro é reconhecida

Receber um prêmio do porte do Oscar é sempre um enorme reconhecimento de qualidade e projeção de um filme, e deve ser comemorado. Entretanto, a falta de uma estatueta de ouro não significa que a qualidade dos filmes produzidos no Brasil seja inferior ou seja vista como tal.

"O cinema brasileiro que tem alcançado algum tipo de reconhecimento internacional são filmes que não estão na mesma nomenclatura do que os filmes que são indicados para o Oscar", afirma André Gatti, explicando que os filmes brasileiros que mais ganham projeção no exterior atualmente são mais voltados para uma produção artística e menos para a perspectiva comercial.

O Brasil já foi premiado diversas vezes em festivais de reconhecimento mundial, como o Festival de Cannes. Em 1963, O Pagador de Promessas levou o prêmio máximo do evento, a Palma de Ouro, e em 2019, Bacurau foi laureado pelo prêmio de "escolha dos críticos".

"O cinema brasileiro achou maneiras de conquistar o reconhecimento. Sempre acha", finalizou Gatti.

*Sob supervisão de Guilherme Venaglia