Alice Carvalho, de "O Agente Secreto", sobre fé: "Sempre foi Exu"
À CNN, a atriz diz o que o longa tem muito a conversar com o Brasil e reflete sobre o lugar que a religiosidade ocupa em sua vida

A atriz Alice Carvalho, 29, considerada uma das atuais potências da teledramaturgia brasileira, vive um bonito momento na carreira. Após dar vida a Otília, em “Guerreiros do Sol”, do Globoplay, ela segue acompanhando a turnê de divulgação de “O Agente Secreto”, longa escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026.
Com direção de Kleber Mendonça Filho, o título premiado ao redor do mundo, estreou no Festival do Rio, na noite da última terça-feira (7), diretamente do Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Na obra, ela dá vida a Fátima, esposa de Marcelo, protagonista vivido por Wagner Moura.
À CNN, Alice conta que o longa tem muito para conversar sobre o Brasil de hoje, de ontem, e o Brasil que o brasileiro quer para o futuro. “Eu acredito que seja um dos filmes mais potentes da filmografia de Kleber. E não é puxando a brasa para minha sardinha não, mas acho que é um dos filmes mais interessantes que ele já fez, o mais corajoso também. E, de fato, é uma alegria fazer parte disso”, diz.
Ambientado no Recife de 1977, o filme é um thriller político, que acompanha um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife em busca de paz, mas logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que ele tanto procura.

‘Sempre Foi Exu’ é um lembrete da minha confiança no mistério
Sintetizando a presença constante que a espiritualidade tem em sua vida, Alice carrega “Sempre foi Exu” tatuado no próprio pescoço. Assim como o Orixá, presente nas religiões de matriz africana, guardião das encruzilhadas que inspira disciplina e movimento, esses também são os pilares fundamentais desenvolvidos pela atriz desde que entendeu que gostaria de viver de arte.
“Essa frase é um lembrete para mim. Mais que uma afirmação, é um lembrete na pele do meu propósito de vida, da minha confiança na caminhada, da minha confiança no mistério, nas coisas que eu não sei ainda”, conta à CNN.
“Acho que eu não consigo delimitar um espaço que a espiritualidade tem na minha vida porque é cotidiano, está nos menores gestos, em todos os momentos eu sinto minha conexão com os Orixás. Mais que uma profissão, é uma escolha de vida ser artista. Eu sou muito iluminada por esses meus guias. Aqui, longe de casa, longe de Natal, em qualquer lugar que eu esteja filmando. Para mim, a minha conexão com os meus Santos me lembra que em qualquer lugar do mundo eu tenho casa em mim, no meu Ori e que não vou ficar nunca sem um lugar no sol", adiciona.
Representatividade nordestina na TV brasileira
Carvalho também reflete sobre como a TV brasileira, de maneira geral, vem trabalhando com a representatividade nordestina. Para a atriz, embora o crescimento seja expressivo, não é exatamente com a velocidade que se deseja.
"Sinto que uma transformação e um fim de xenofobia, não só para a representação nordestina, mas também para a representação nortista, diversa do que é sudestino e do que tem sido muito visto nas telas, paulatinamente de vários anos para cá, tem se transformado, não com a celeridade que talvez eu veja a minha geração beber totalmente dessa fonte, mas é um alento saber que as coisas têm mudado, que a gente tem tido muitos aliados dentro das produções, dentro das salas de roteiro, nas equipes de direção, com produtoras e produtores de elenco", entrega.
"Isso tem mudado e, de fato, o mercado tem enxergado que quanto mais a gente abre espaço e dá oportunidade para as pessoas que têm lugar de fala, não somente lugar de fala, mas um lugar de vivência, uma experiência física, algo que construiu sua subjetividade e abre-se espaço para artistas com essas origens assumirem seu posto e trazerem mais verdade para as histórias, mais o público ama e aplaude", acrescenta.
Alice comenta por fim que é não possível o audiovisual negar a presença desses artistas, considerando, especialmente, o impacto positivo que eles causam em todo o país. "Eu tenho usado meu corpo, meus ideais e meu trabalho para também fazer parte dessa transformação e ao mesmo tempo também abrir espaço para que outras coisas aconteçam. E tenho enxergado um futuro que é o mesmo para meninas e meninos e meninas parecidos comigo para que possam beber disso daqui a 20, 30, 40 anos com muito mais fartura", conclui.


