Após “Get Back”, Beatles ganha documentário sobre visita espiritual à Índia

"The Beatles and India" mostra como George Harrison levou o grupo a uma viagem espiritual que culminou num retiro que deu origem a um dos grandes álbuns do grupo

“The Beatles and India” estreia nesta semana no HBO Max
“The Beatles and India” estreia nesta semana no HBO Max Colin Harrison/Divulgação

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Depois de “Get Back”, o seriado dirigido por Peter Jackson que nos fez acompanhar o processo de criação dos Beatles dia a dia durante a gravação do que se tornaria o disco “Let it Be”, como saciar nossa vontade de estar mais dentro da história do grupo de rock mais importante da história?

É inevitável que vários outros filmes surjam nos próximos meses mirando no público que deslumbrou-se com o reality show de 1969 que foi um dos grandes sucessos de 2021, mas o primeiro deles a surgir nos serviços de streaming é um documentário que já estava sendo produzido bem antes da pandemia, logo depois que seu diretor, o indiano Ajoy Bose, lançou o livro que seria a base para o filme que estreia hoje no serviço de streaming HBO Max.

“The Beatles and India” volta alguns anos no passado, especificamente para 1965, para mostrar como foi o prelúdio do capítulo anterior a “Get Back”, quando os Beatles foram à Índia para um retiro espiritual, onde compuseram a maioria das músicas que foi parar no disco duplo “The Beatles”, mais conhecido como “Álbum Branco”, lançado em novembro de 1968.

As relações do grupo com a Índia começam quando o quarteto lança seu segundo longa-metragem, “Help!”, quando adaptam a premissa do primeiro filme, “A Hard Day’s Night”, de 1964, com o grupo correndo dos fãs enquanto participa de programas de TV, grava músicas e faz shows, só que os colocando numa trama rocambolesca que é uma espécie de pastiche dos filmes de James Bond.

Em “Help!”, o grupo é perseguido por uma seita de maníacos que quer o enorme anel vermelho que o baterista da banda, Ringo Starr, exibe em seus dedos. O culto religioso é fictício, mas suas características são todas indianas, desde o tom da pele de seus seguidores à forma como as entidades divinas são representadas e seus rituais são conduzidos.

Só que num dado momento do filme o grupo entra em um restaurante indiano em que um conjunto musical toca instrumentos daquele país. Foi a primeira vez que o guitarrista da banda, George Harrison, entrou em contato com o instrumento que seria a porta de entrada do grupo para a cultura daquele país, a cítara.

O primeiro terço do documentário é dedicado especificamente ao encantamento de Harrison pela música e, posteriormente, pela cultura indiana. Como não apenas gostou da cítara como a incluiu em uma música do grupo, solando-a em “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)”, como dedicou-se a aprender o instrumento com um dos maiores nomes da música indiana, Ravi Shankar, que tornou-se seu mestre e grande amigo.

É George Harrison quem abre os olhos do grupo para a antiga colônia britânica, o faz o grupo querer entender melhor a milenar cultura de um país que não tinha a repercussão internacional que deveria. O grupo para no país durante sua última turnê internacional, em 1966, e descobre que até ali são um fenômeno.

A proximidade com a cultura acaba por fazer os Beatles abraçarem a meditação transcendental do guru Maharishi Mahesh Yogi quase no mesmo momento em que perdem o que tinham de mais próxima a uma figura paterna para o grupo, o empresário Brian Epstein, morto em 1967.

Sem a atuação do empresário, os Beatles começam uma série de retiros espirituais com o Maharishi, que culmina com sua ida ao templo em Rishikesh, no norte da Índia, em fevereiro de 1968. Junto ao grupo, viajaram suas namoradas e esposas, além de Mike Love, dos Beach Boys, Mia Farrow e sua irmã, Prudence e o cantor Donovan e passaram dias meditando, tocando e compondo mais de 50 canções, sendo que boa parte delas aparecia em seu próximo disco, o Álbum Branco.

Mas o documentário vai além da história dos Beatles e conta como a beatlemania atingiu a Índia. Primeiro como pegou mal a caracterização grotesca que o grupo fez da seita inspirada em cultos indianos em “Help!” e depois como o sucesso do grupo inspirou inclusive músicos locais a enveredar pela beatlemania. Era o caso dos Savages, que usavam perucas e ternos para imitar o grupo e faziam sucesso em seu país.

O filme também se aprofunda na visita dos Beatles a Rishikesh, mostrando como o local tornou-se ponto focal das notícias para o mundo durante aquele período, recebendo jornalistas de todos os lugares para tentar acompanhar o que os Beatles estavam fazendo ali.

“The Beatles and India” visita hoje as casas em que os integrantes da banda ficaram hospedados, que foram modificados para o conforto do grupo – o que não impediu Ringo Starr (que levou uma mala só com latas de feijão para caso não gostar da comida local) a comparar o retiro a um acampamento inglês barato.

Com entrevistas com testemunhas daquele encontro e aprofundando-se na forma como o grupo fez o país voltar a ter uma relevância cultural em todo o planeta, o filme também mostra a origem de várias músicas compostas no local, o que expõe um de seus principais defeitos: sem dinheiro para pagar os royalties das canções do grupo, o filme não tem os Beatles na trilha sonora.

Isso diminui um pouco a importância do registro, mas não impede de ser um mergulho em um dos principais momentos da cultura pop dos anos 1960, uma viagem conhecida originalmente quase como uma parábola, que finalmente é dissecada neste documentário.

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