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    “Armageddon Time”: autobiografia situada nos anos 70 nos EUA ecoa o tempo presente

    Em entrevista à CNN, o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira fala como foi filmar o longa do diretor James Gray em meio à pandemia e comenta sobre a campanha rumo ao Oscar

    Anthony Hopkins em cena de "Armageddon Time"
    Anthony Hopkins em cena de "Armageddon Time" Divulgação

    Isabella Fariada CNN

    São Paulo

    Guerra do Vietnã, rescaldo dos direitos civis, boom cultural, economia em recessão e o conservadorismo voltando ao poder.
    O fim da década de 70 nos Estados Unidos foi um verdadeiro caos na questão macrossocial, porém, é dentro dos lares americanos da época que se encontram as melhores histórias.

    Uma dessas casas era a de James Gray, diretor americano, que resolveu contar a sua própria jornada em “Armageddon Time”. Em termos de fama, James não é nenhum Spielberg, que, inclusive, lançará sua própria biografia cinematográfica em breve, mas encanta o espectador ao trazer uma história sensível de amadurecimento que funciona universalmente.

    O filme se passa no bairro do Queens, em Nova York, e conta a história da família de Paul Graff (Banks Repeta), uma criança um tanto avoada, mimada e super protegida pela mãe Esther (Anne Hathaway) e pelo pai, Irving (Jeremy Strong).

    O único adulto com quem Paul consegue criar um laço profundamente emocional é o avô Aaron Rabinowitz (Anthony Hopkins), um judeu que veio aos EUA quando criança, junto com os pais, em busca do sonho americano.

    Porém, quase ninguém entende o comportamento de Paul, que, na sala de aula, acaba fazendo amizade com o igualmente inquieto Johnny Davis (Jaylin Webb), um menino negro que mora com a avó doente.

    Aí os constrastes começam. Ambas as crianças vivem vidas opostas e o filme traz a situação de forma muito orgânica. O racismo dos personagens, por exemplo, é trazido de forma estrutural, através de silêncios, castigos arbitrários e comentários aparentemente inofensivos.

    O longa também faz questão de desconstruir a figura do “branco salvador”, aquele personagem não-racializado que leva a pessoa negra para o “bom caminho”. Ao contrário, é justamente Paul que sugere algumas das coisas mais perigosas que ambas as crianças fazem e que, eventualmente, levam ao clímax da história.

    Clímax que é muito bem construído com a ajuda integral de um elenco estelar, com destaque para Anthony Hopkins que, com essa atuação, caminha para mais uma indicação ao Oscar.

    Tudo parece muito real, porque, afinal de contas, é.

    “Quando um diretor faz um filme autobiográfico, ele ouve sugestões, mas as acata menos.”

    Rodrigo Teixeira é um produtor cinematográfico brasileiro que já trabalhou com James Gray no filme “Ad Astra: Rumo às Estrelas” (2019), estrelando Brad Pitt. Este longa se trata de uma ficção científica existencialista que acontece no espaço, bem diferente do pé no chão que o diretor quis ter em “Armageddon Time”.

    “Eu sou a pessoa mais antiga nesse projeto, durante dois anos esse filme era meu e dele”, diz Rodrigo, “o James começou a escrever o roteiro em 2018 e eu que disparei o texto para todo mundo, do meu escritório”.

    O filme, porém, demorou para sair do papel.

    A agenda de filmagem começaria no início de 2021, porém, em maio do mesmo ano, a variante delta do coronavírus surgiu.

    A produção foi paralisada, retornando apenas em outubro de 2021. Nesse meio tempo, o elenco já havia mudado completamente; nomes como Oscar Isaac e Robert De Niro saíram de cena para dar lugar ao elenco que se tem hoje.

    O desejo do diretor de filmar em película também foi cancelado. “Armageddon Time” se trata do primeiro filme de James Gray filmado digitalmente, mas, mesmo assim, a fotografia do filme encontrou seu tom setentista de forma muito natural, quase que emulando o analógico.

    O roteiro, entretanto, não mudou muito. James Gray, inclusive, teve que “editar” sua própria vida para que alguns causos não entrassem no longa.

    “Situações que eram mais pesadas foram cortadas, situações mais agressivas…”, diz Rodrigo, “muita coisa que está no filme funciona como uma síntese”.

    A relação com o irmão Ted (Ryan Sell) é uma delas, que não acabou sendo explorada a fundo, e a relação com a família Trump é outra, que é citada brevemente.

    Em determinado momento do filme, Paul entra em contato com pessoas mais abastadas, dentre elas, Fred (John Diehl) e Maryanne Trump (Jessica Chanstain). Quando ambos aparecem em cena, discursando sobre meritocracia para um auditório e, ao tocar no assunto política, ouve-se “Reagan” vindo da plateia, é impossível não fazer um paralelo com os dias atuais.

    “O filme mostra que, 40 anos depois, muita coisa continua igual”, diz Rodrigo, “e se a gente puder tirar uma lição do longa é permitir que esse movimento todo não retorne”.

    A capacidade de contar a história de um pré-adolescente e, ao mesmo tempo, trazer um contexto histórico apurado, conquistou muita gente em diversos festivais (incluindo uma salva de palmas de sete minutos em Cannes) e pode conquistar muita gente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

    A campanha para o Oscar de “Armageddon Time” já começou e, segundo Rodrigo, é superior a muitos outros filmes que ele já produziu como “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017), que recebeu quatro indicações.

    “Só o fato desse filme ser indicado eventualmente, já seria uma super vitória. Inclusive, porque o filme é brasileiro, também, então estaríamos todos representados em Los Angeles.”