Brasil se destaca como o país celeiro de artistas drag queens cantoras

Além de nomes fortes como Pabllo Vittar, Gloria Groove e Lia Clark, Grag Queen desponta como um novo nome para fortalecer a comunidade LGBTQIA+ dentro da música ao vencer uma competição internacional

Grag Queen vence competição mundial comandada pelo americano RuPaul
Grag Queen vence competição mundial comandada pelo americano RuPaul Divulgação

Felipe Carvalhocolaboração para a CNN

Ouvir notícia

Se o Brasil é o país do futebol, do samba, do Carnaval e da caipirinha, agora pode acrescentar mais um item ao currículo: o país das drag queens cantoras.

Em 2015, a então desconhecida artista Pabllo Vittar lançou na internet a música “Open Bar”, versão brasileira da canção “Lean On”, de Major Lazer, que se espalhou rapidamente nas plataformas de vídeo e virou mania naquele momento.

No ano seguinte, outra artista chamada Gloria Groove mostrava seu talento feroz com a canção “Dona”, que também chamou a atenção do público LGBTQIA+, sempre sedento por escutar músicas que realmente retratassem o que se passava dentro da comunidade.

As duas ganharam grande visibilidade na mídia, deram espaço para outras como Lia Clark, Aretuza Lovi e Kaya Conky, que também lançaram singles de sucesso, até chegar em Grag Queen, que ainda não tem uma canção autoral de sucesso no mercado, mas venceu o primeiro reality show musical produzido por RuPaul Charles, dono da franquia “RuPaul’s Drag Race”, fonte de inspiração de Pabllo e Gloria. A final da competição, com resultado já anunciado em dezembro, vai ao ar no Brasil nesta quinta-feira (13).

Grag Queen, personagem do gaúcho de Canela, Gregory Mohd, de 26 anos, se inscreveu para participar da primeira temporada do “Queen of the Universe”, exibido em uma emissora de TV nos Estados Unidos, e dividiu palco com outras 13 cantoras drag queens em busca da coroa de rainha do universo.

Diante delas estavam as juradas Leona Lewis, Michelle Visage, Trixie Mattel e Vanessa Williams que analisavam tudo: figurino, cabelo, maquiagem e, principalmente, a potência vocal de cada participante.

“Foi bizarro! Cheguei na frente da Michelle e na hora o meu cérebro deu pane no sistema. Eu tremia tanto que as penas do meu figurino balançavam feito um espanador”, se diverte ao lembrar da primeira apresentação cantando “Rehab”, de Amy Winehouse.

“Tu sente o peso do pepino que você vai ter que descascar quando está de frente para elas. Toda vez que a Michelle falava bem de mim, eu lembrava muito do Brasil. Eu dizia para mim ‘eu sei que elas [brasileiras] vão gostar’ e elas também vão se sentir elogiadas pela Michelle. Dito e feito!”, diz, com uma alegria ímpar por vencer o crivo criterioso da braço direito de RuPaul.

Caminho até aqui

Chegar até este ponto não é algo fácil, pois o mercado não está tão aberto para as cantoras e personalidades LGBTQIA+. O empresário Samy Elia já trabalhou com grandes bandas, como Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr, e hoje gerencia a carreira de Gloria e Grag. Ele garante que o mercado musical para drag queens está em plena ascensão porque existe uma demanda e carência para esse tipo de artista. Apesar disso, lamenta que o preconceito ainda é um grande impeditivo.

“No momento que você mostra a voz de um artista para uma determinada rádio, só recebe elogios. Eles mostram determinação em tocar a canção, mas quando você diz que essa voz é de uma drag queen, as pessoas não avançam e não tocam a música”, relata.

Os obstáculos são maiores porque, além de ter que mostrar o talento do artista, ainda temos o pré-julgamento por ser um artista LGBTQIA+

Samy Elia, empresário de artistas

O compositor Pablo Bispo – autor de grandes hits da música drag como “K.O”, “Indestrutível”, “Sua Cara”, “Bumbum de Ouro” e “Coisa Boa” – concorda que a homofobia está impregnada dentro do mercado fonográfico. Ele afirma que o artista LGBTQIA+ sempre tem de lidar com o preconceito e acredita que a meritocracia não exista nesse universo.

“Não é fácil, o mercado não ajuda e às vezes a gente tem de nadar contra a maré, mas se existe uma pessoa que sente a vibração da canção, tenho certeza que outras vão sentir. A gente tem que estar ali para alavancar vozes”, pontua.

“O artista cis, hétero, branco e com condições financeiras sempre será favorecido pelo sistema. É muito mais fácil para eles! É por isso que a gente tem de comemorar cada vitória. Tentamos nos unir sempre porque quando alguém cresce, todo mundo vai junto, pois é uma cena, uma família em que cada um pode ajudar para que todos obtenham seu espaço”, acredita.

Bispo, inclusive, se vê como um ponto fora da curva dentro da comunidade, pois é um homem, branco, cisgênero e heterossexual e escreve para pessoas LGBTQIA+. Por este motivo, ressalta que sabe exatamente qual é o seu lugar de fala e prefere escutar o que essa população tem para falar. O compositor conta que, para escrever os grandes hits, sempre consultou a futura intérprete da canção para entender o que ela quer expressar.

“Todas as músicas que faço tem um estudo que a gente faz junto, seja com artistas trans, drag ou mulheres pretas. Entendo 100% o que está acontecendo musicalmente, mas para entender o que a pessoa passou, não consigo”, explica.

“É muito importante saber o lugar que me encontro e nesse lugar que posso ouvir. Estou aqui para ouvir as histórias e tentar colocar em música, em poesia, sempre do meu lugar. A nossa arte é muito colaborativa. Não quero fazer nada sozinho”.

Superando etapas

A drag queen Lia Clark, natural de Santos, litoral sul de São Paulo, tem 29 anos, há cinco vive da música e faz shows por todo o Brasil, cantando músicas de seu próprio repertório. Ela começou quase que como uma “brincadeira”, quando juntou um grupo de amigos para produzir uma música, gravar, fazer fotos, desenvolver um clipe e lançar na internet. A música “Trava Trava” correu as redes sociais e ganhou visibilidade dentro do público LGBTQIA+.

A artista lembra que tudo foi obra de parceria e de seu networking prévio como DJ que a ajudou a ter espaço entre os hits na disputada noite paulistana, sempre pedindo para que seus colegas tocassem a música. Nas primeiras semanas, fazia shows gratuitamente nas boates e se perguntava o porquê continuava, já acreditando em um possível fracasso.

“Minha primeira música foi uma coisa meio ‘vamos nos divertir? Fazer uma música? Vamos fazer um clipe?’ Não era algo possível, não tínhamos referência, ninguém acreditava. Era uma diversão entre pessoas, entre amigos”, lembra.

Hoje, Lia é amiga pessoal e parceira de todas as drags que estão em alta na música. A artista salienta que a ascensão de Pabllo Vittar furou a bolha da comunidade até se tornar um dos maiores ícones LGBTQIA+ do mundo todo. E ela não está errada: a dona do hit “K.O” tem mais de 20 singles lançados, inclusive em parceria com artistas internacionais como Major Lazer e a mexicana Thalia.

Além disso, a popularidade das drag queens brasileiras também supera todas as expectativas. RuPaul sempre foi considerada a drag queen mais popular do mundo, uma verdadeira divindade dentro da comunidade. Os anos passaram, a internet dominou todos os espaços e hoje, quem tem mais seguidores nas redes sociais tem mais visibilidade e isso arrecada mais dinheiro.

Para se ter uma ideia, atualmente, RuPaul tem 4,3 milhões de seguidores no Instagram, enquanto que Pabllo soma quase o triplo, 12,2 milhões de seguidores na mesma rede social. Além disso, ela acaba de ser confirmada como uma das atrações do Coachella, um dos mais importantes festivais de música do mundo.

Pablo Bispo, como parceiro musical, salienta o momento vibrante pelo qual as drags brasileiras passam com relação à visibilidade pelo mundo. Ele diz que não só os números, mas também os cases de sucesso comprovam que não há um celeiro mais fértil para a música drag do que o Brasil.

“Cada nova geração abre novas portas. A Grag Queen acabou de ganhar um reality show. Ela já faz parte da segunda geração de drags brasileiras e já ganhou um programa gigante do mundo. Isso é muito importante porque a gente consegue ver que isso realmente é uma cena forte, popular, que move as pessoas. Gloria também fez parceira recente com Iggy Azalea e venceu um reality cantando e interpretando outros cantores. O mundo está de olho na gente”.

Gloria Groove: “Cada conquista minha é uma conquista coletiva” / Reprodução/Instagram

E, por falar em Gloria Groove, ela prefere destacar que, antes das cantoras, existiu um grande número de drag queens que se apresentaram nos palcos de boates, enfrentando desafios, até mesmo a repressão de governos ditatoriais, e que abriram as portas para as outras como Nany People, Silvetty Montilla, Dimmy Kieer e Veronika, além de outras que se aventuravam em músicas autorais em meados dos anos 1980 e 1990.

“São grandes divas que abriram o caminho para estarmos aqui”, destaca Gloria. “Vejo como a presença de artistas LGBTQIA+ no mercado musical ainda é algo que desafia, quebra barreiras e mexe com as estruturas. Nos movimentamos sabendo que cada conquista minha é uma conquista coletiva”.

Questionada sobre qual drag queen da nova geração que merece um destaque por seu talento musical, a dona do “Bumbum de Ouro” não hesita ao responder Grag Queen. “É uma das maiores artistas que eu já vi. Me enche de orgulho ver a trajetória dela numa competição mundial e comprovar que nós drags brasileiras somos especialistas em carisma aliado a muitos talentos”.

Grag também confessa uma paixão e admiração mútua por Gloria. “É minha irmã, minha mãe, colega de gravadora e a gente inclusive está cada vez mais próxima, estou amando essa amizade, essa troca. Ela tem um trabalho artístico e visual impecáveis, compõe muito bem. Eu sou muito fã, cadelíssima, sou groover carteirinha”.

O despertar da arte drag

O mercado musical em ascensão desperta a curiosidade e o interesse de quem nunca usou roupas femininas ou pisou em um palco para cantar. O compositor Bispo acredita que este seja o momento mais oportuno para novos artistas drags e/ou LGBTQIA+ que queiram se lançar na carreira musical porque o país está mais aberto para conhecer a arte da noite.

Trazer mais nomes para este universo significa juntar mais força à comunidade e, quem sabe, tirar do Brasil o título de “país que mais mata LGBTQIA+ no mundo”

Pablo Bispo, compositor

Para o compositor, as drags precisam estar no topo, junto a outros artistas LGBTQIA+, para que haja uma resistência. O preconceito tem sido cada dia mais combatido, segundo ele, pois as pioneiras já moveram milhões de pessoas e agora é possível assistir drag queens no horário nobre de todas as TVs, em propagandas, o que tem contribuído para que outros artistas tenham mais representatividade.

“Fazer sucesso como drag queen no país mais homofóbico do mundo não é uma tarefa fácil”, lamenta Gloria Groove. “Nesta trajetória, estamos lutando diariamente por validação e reconhecimento. O que posso garantir é que vale muito a pena trabalhar em algo que está transformando a estrutura da sociedade em diversos níveis. Comunicar com a vida das pessoas, ser exemplo e espelho. O resultado é extremamente gratificante”, acredita.

Lia Clarck indica que, para começar na carreira de drag queen, é ser “você mesma”, um artista único, e acreditar em si mesmo. “Simples assim. Sempre penso no começo da minha carreira: quem acreditaria que uma bicha preta, drag queen e fazendo funk conseguiria ter uma carreira ou ia conseguir ter músicas conhecidas por todo mundo? Só estou aqui porque eu fui eu, única, simplesmente a Lia Clark. Então seja você, olhe para dentro, se entenda, se conheça, saiba a sua verdade para colocar para fora. As pessoas vão se apaixonar”.

Grag compartilha da mesma opinião.

“Se quiser, use bandana, não use peruca, use bigode, não use cílios, faça a tua musicalidade. Ser diferente é legal! Não tem ninguém igual a você. Então, celebre a sua diferença, a sua autenticidade, porque uma hora ou outra a senhora vai virar a rainha do universo ou alguma coisa que seja muito grande para você. É só você acreditar”.

Grag Queen bateu outras 13 cantoras drag queens do mundo inteiro na competição de RuPaul/ Divulgação

Mais Recentes da CNN