Como nasce o Carnaval? Entenda como o samba-enredo chega à avenida
Enredistas e carnavalescos explicam, em etapas, como uma sugestão vira sinopse, samba, alegoria e desfile

Da centelha inicial de um samba-enredo até o momento em que os carros alegóricos ganham a avenida, o Carnaval percorre um longo caminho.
Tudo começa com uma sugestão que, lapidada, transforma-se em recorte. Então entra a pesquisa. Uma sinopse ganha corpo e, por sua vez, serve de guia para o samba. Na sequência, surgem as maquetes e a ferragem até que, finalmente, a comunidade veste suas fantasias para dar vida ao desfile no sambódromo.
É esse encadeamento, que envolve reuniões, leituras, deslocamentos, oficinas e ajustes de última hora, que, segundo os enredistas e carnavalescos, transforma uma referência em espetáculo visível.
Mocidade Alegre e a Unidos do Viradouro, vendecoras do Carnaval mais recente em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente, percorreram esse trajeto.
A sugestão pode chegar de várias fontes: um familiar que traz uma lembrança, um pedido da direção, uma demanda da comunidade ou uma proposta externa.
“No Carnaval de 2026, ele nasce a partir do filho da Léa [homenageada pela escola], que traz a ideia desse enredo para a gente”, afirma Caio Araújo, 35, carnavalesco da Mocidade Alegre, que ganhou a competição contando a história da atriz Léa Garcia.
Para Caio, o primeiro passo não é apenas aceitar a proposta, é reconhecer se ali existe material capaz de sustentar narrativa e o visual na avenida. A equipe precisa identificar se aquele tema é “uma joia” que vale ser lapidada. Aí que entra o pesquisador, ou melhor, o enredista.
Mas a decisão inicial já carrega limites práticos: enquadramento no calendário da escola, disponibilidade de fontes e aceitação pelo conjunto da comunidade.
Quando a sugestão vira recorte, o trabalho muda de dimensão. Não é mais suficiente apontar um nome ou um episódio; é preciso delimitar ângulos.
“Eu costumo pegar uma folha em branco e construir sub-temas já pensando na setorização e no visual”, afirma Tiago Freitas, 39, enredista da Império de Casa Verde desde 2023.
O recorte responde a perguntas diretas: que episódios da vida serão narrados? Que imagens serão legíveis a 50 metros? Que elementos rendem trechos do samba?
Decidido o recorte, começa a montagem do arquivo: listas de fontes, prioridades de pesquisa e primeiras leituras que vão orientar a fase seguinte.
Curadoria na pesquisa
A pesquisa é, para os enredistas ouvidos, um esforço de curadoria. “A pesquisa dentro do Carnaval de escola de samba é realizada a partir do enredo que é feito”, afirma João Gustavo Melo, 48, enredista da Unidos do Viradouro.
Isso significa combinar camadas: bibliografia acadêmica para precisão histórica; iconografia (fotografias, filmes e roteiros) para imagens que possam virar alegorias; fontes orais e depoimentos, que trazem detalhes e voz; e, quando o tema pede, vivência de campo.
João afirma que, em um caso ligado a cultos religiosos,por exemplo, a equipe “foi aos terreiros baianos para entender como é que se dava o culto vudu”, porque algumas práticas só se apreendem no ambiente onde ocorrem.
No caso da homenagem a Léa Garcia, da Mocidade Alegre, as entrevistas, os roteiros e as fotografias entraram como base para entender seu legado e selecionar cenas e símbolos que pudessem ser traduzidos em desfiles.
Traduzir em Carnaval
Pesquisar com o propósito de virar espetáculo implica escolher o que é traduzível. Pesquisadores e enredistas filtram o material buscando imagens e eventos que funcionem tanto como informação quanto como leitura plástica.
A pesquisa não é um inventário neutro, é curadoria guiada por duas questões práticas: o que o público vê e o que o barracão consegue realizar. “Tudo que eu assisto eu já vou recolhendo alguma informaçãozinha que eu sei que eu vou conseguir traduzir depois em visualidade no desfile”, diz Caio.
Um dado histórico vira, então, possibilidade de volume. Um retrato antigo vira referência de figurino. Um depoimento vira trecho de sinopse e, possivelmente, verso no samba.
Roteirização
A sinopse é o ponto de encontro entre pesquisa e criação: não é um tratado, é um roteiro prático para compositores, carnavalescos e o barracão. Tiago Freitas diz que transforma leituras em poesia e, a partir daí, extrai subtemas que viram alas e momentos do desfile.
A sinopse precisa, ao mesmo tempo, inspirar o samba, orientar a concepção plástica e fornecer justificativas técnicas para o Livro Abre Alas.
O documento chega aos compositores cedo porque os prazos comprimem tudo. “Temos em torno de dois meses para fazer a pesquisa toda; é um período muito curto”, afirma João Gustavo.
Com o samba escolhido, maquetes, protótipos, ferragem e figurinos começam a ser testados. O barracão vira um canteiro onde soluções técnicas e estéticas se negociam até o limite do possível. Na sequência, o trabalho se intensifica e dura no mínimo seis meses sem pausas.
A dimensão do que a escola fez só toma forma quando as fantasias são entregues e os carros saem do barracão.
“Quando a gente começa a ver o nosso carnaval indo pra rua, é quando a gente sente que o nosso filho tá nascendo”, diz Caio Araújo.
Foi esse percurso —sugestão, recorte, pesquisa, sinopse, produção— que guiou a Mocidade Alegre e a Unidos do Viradouro rumo às suas apresentações campeãs, mesmo com os imprevistos que sempre aparecem na pista.


