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    “Com o streaming, o cinema de autor está entrando em xeque”, diz Anna Muylaert

    Em conversa com a CNN no set de filmagens, diretora e elenco do filme “O Clube das Mulheres de Negócios” falam sobre patriarcado, criatividade e sobre o próprio longa que estreia em 2024

    O elenco do filme "O Clube das Mulheres de Negócios"
    O elenco do filme "O Clube das Mulheres de Negócios" Aline Arruda/Divulgação

    Isabella Fariada CNN

    Filmes que deturpam os papéis de gêneros não são novidade. Não faltam comédias, por exemplo, que apresentam realidades onde homens e mulheres trocam de corpos.

    A cineasta Anna Muylaert concorda e lamentou, em princípio, um lançamento desse tipo que aconteceu pela Netflix, em 2018.

    “A primeira versão do meu filme era uma comédia de costumes, mas, um ano depois, a Netflix lança ‘Eu Não Sou um Homem Fácil’, outra comédia”, diz Anna, sobre o filme francês sobre um machista inveterado que acorda em um mundo dominado por mulheres.

    “Mas isso foi bom. Quando veio a pandemia e eu vi as ações dos presidentes homens em confronto com as ações das presidentes mulheres, e decidi que ia subir um tom no filme: torná-lo uma comédia política”.

    “O Clube das Mulheres de Negócios” é um longa, com previsão de lançamento para 2024, ambientado em um mundo imaginário onde os estereótipos de gênero estão invertidos – as mulheres ocupam posições de poder enquanto os homens são criados para serem socialmente submissos.

    Trata-se de um drama que aborda não apenas o machismo, mas também o racismo, o classismo e a corrupção, enraizados na cultura patriarcal do Brasil e do mundo.

    Anna Muylaert, porém, reforça que o ambiente do longa não se trata de um matriarcado onde as mulheres tomaram o poder após séculos de injustiça: é um mundo onde elas sempre foram dominantes.

    Elas ditam como os homens devem agir, como eles devem se portar e como eles devem se vestir. De preferência, com poucas roupas.

    Cinema “ao vivo”

    Era um dia frio na zona sul de São Paulo. Um clube servia como set de filmagens do filme que deve ser rodado até o fim deste mês de setembro e que envolve uma equipe de cerca de 100 pessoas.

    Carioca, o ator Rafael Vitti sentia mais frio do que produção e elenco juntos. Graças ao cropped laranja e uma jaqueta lilás que ele usava para a cena, que seria uma externa, apesar dos termômetros marcarem 12 graus.

    “Eu sou mais careta, não uso esse tipo de roupa, normalmente”, fala o ator. “Mas estou começando a gostar dessas unhas pintadas. Quem não gosta são as senhorinhas que me veem na televisão”.

    O jovem de 26 anos construiu sua carreira apoiado, majoritariamente, em novelas. Trabalhos como “Rocky Story”, “Verão 90” e o recente “Além da Ilusão” foram os que lançaram o ator ao estrelato.

    Agora, com “O Clube das Mulheres de Negócios”, ele acredita que falará com um público diferente.

    “A diferença é que o filme tem começo, meio e fim. A gente se localiza melhor na obra e trata de temas de uma maneira mais profunda do que uma novela, no caso”, diz Rafael.

    Temas que, segundo o elenco, causarão desconforto no espectador.

    Como a principal cena do dia, gravada com Rafael Vitti, Louise Cardoso e Cristina Pereira. Entre uma nuvem e outra, que encobria o sol e impedia a iluminação correta de atingir o set, a cena traz o personagem de Rafael Vitti, que acabou de passar por uma situação grave dentro do Clube e quer contar o episódio para Cesárea, sua avó.

    Entre um take e outro, um roupão chegava às pressas para cobrir os atores que estavam expostos ao vento, ao mesmo tempo que eles ensaiavam duas versões da mesma cena.

    “Ok, temos sol, vamos filmar rápido”, dizia Anna Muylaert, dentro de uma grande tenda, de olho no retorno de vídeo.

    Cristina Pereira, atriz veterana com forte veia de comédia e que interpreta Cesárea, dona do Clube, disse que a direção de Anna é mais criativa com as quais já trabalhou.

    “Você tem o roteiro como base, claro”, diz ela. “Mas todo o trabalho criativo é feito na hora da filmagem. É preciso ter uma mente aberta para improvisar diante de uma mudança.”

    Louise Cardoso, que interpreta Brasília, a braço-direito de Cesárea, tem a mesma opinião.

    “Já foram feitas 15 versões do roteiro e a Anna está fazendo a 16ª ao vivo”, diz a atriz, que já atuou no teatro, na televisão e no cinema.

    “Às vezes a gente fica com medo. Não da Anna, mas ficamos agarrados naquilo que estudamos sobre a personagem, não precisa ser assim”, diz ela. “Hoje, por exemplo, eu vou fazer uma cena que nem estava no roteiro. Quer dizer, isso se o sol deixar”.

    E deixou. A cena externa de cerca de um minuto, porém, demorou quase meia hora para ser gravada.

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    Cristina Pereira, atriz veterana estrela o filme “O Clube das Mulheres de Negócios”/ Aline Arruda/Divulgação

    Cinema Popular Brasileiro

    Quando perguntei aos atores e diretora se “O Clube das Mulheres de Negócios” se tratava de uma comédia, a resposta foi unânime e complexa: sim e não.

    “O filme tem humor, suspense, terror e trata de aspectos bem tensos da nossa sociedade”, diz Anna Muylaert. “O clube de negócios nada mais é do que um clube de favores, afinal”.

    No elenco, também está Grace Gianoukas, que despontou nos palcos em espetáculos de comédia, como o “Terça Insana”. A atriz classificou o filme como tragicômico.

    “Eu não estou fazendo comédia ou piada, mas há situações visualmente engraçadas, você assiste a uma cena e acha estranho”, diz a atriz, “e esse estranhamento é resultado da junção do roteiro, da direção, da maquiagem e do figurino. Tudo isso te arranca daquele lugar óbvio e te faz refletir”.

    Grace disse também que se sentiu vingada em algumas cenas e acha que diversas mulheres vão sentir a mesma coisa.

    Luis Miranda, um dos poucos atores homens do núcleo principal, vai além, e diz que parte da sociedade anseia ver as mulheres em posições de poder. Para ele, o filme é engraçado, mas a conversa é séria.

    “A produção tem uma camada de comicidade muito interessante, o tempo inteiro as personagens fazem uma caricatura dos comportamentos enraizados na nossa sociedade. É possível se reconhecer nas atitudes dessas mulheres”, diz.

    Segundo os atores e atrizes, não se trata de um filme que vai apontar dedos para o público, mas expor os tais podres da sociedade de uma maneira que vai causar um incômodo em quem assiste.

    “É como se fosse um espelho que serve para vermos melhor situações comuns que as mulheres passam”, diz Anna Muylaert. “Mas, quando invertemos os papéis, elas se tornam piores, porque você nunca imagina homens passando por determinadas situações”.

    Para o elenco, não será um filme para críticos, apenas para a bolha do audiovisual brasileiro, seu intuito é que a mensagem chegue ao espectador, para que algo realmente mude.

    “É um filme que vai causar muitas discussões e que vai perdurar durante muitos anos”, diz Cristina Pereira. “Ele vai ajudar para que esses problemas culturais sejam mais abordados.”

    Cinema X Streaming

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    Luis Miranda e Anna Muylaert conversam no set de “O Clube das Mulheres de Negócios”/ Aline Arruda/Divulgação

    Inquieta, Anna dirige uma segunda cena no dia. O personagem de Luis Miranda, em uma investigação particular para descobrir o que há por trás deste clube de mulheres, entra em uma cozinha para obter algumas informações com os funcionários.

    “Eu quero gente trabalhando, se movendo”, diz Anna. “Pode lavar essa panela com gosto, viu?”
    Ela se dirige a um figurante homem que está no canto da cena, lavando e enxaguando louças, de forma bem sutil, insuficiente para a câmera captar.

    “Abre a torneira”.

    “Não precisa fingir, é pra lavar mesmo”.

    “Mostra mais a panela, com mais força”.

    Depois de mais algumas direções, a cena, também curta, é finalizada.

    Anna Muylaert tem um grande controle sobre a sua carreira, sempre dirigindo e escrevendo filmes com comentários sociais e temáticas contemporâneas. Tornou-se mundialmente conhecida pelo filme “Que Horas Ela Volta”, de 2015, ano que, para ela, foi quando uma nova onda do feminismo tomou consciência de si própria.

    “Foi nessa época que as mulheres começaram a falar, a se posicionar e, bom, os homens tiveram que acompanhar”, diz a diretora.

    Para ela, o mercado audiovisual é mais gentil com as mulheres do que na época do seu primeiro longa “Durval Discos”, de 2002, mas há um outro problema que paira o setor: a ascensão dos streamings.

    “O mercado mudou totalmente e o cinema de autor está entrando em xeque”, diz ela. “Trabalho com a ideia de autoria, seja escrevendo para alguém ou para mim mesma, e parece que os streamings estão apostando mais no poder deles próprios.”

    Ela não sabe se isso beneficia o mercado brasileiro diretamente, mas diz que continua fazendo o cinema no qual acredita: um cinema provocativo que faz o brasileiro olhar para dentro de si e rir de nervoso.