Como Faustão virou influência e mudou o ‘ao vivo’ em três décadas de domingão

Carisma do apresentador Fausto Silva com público, artistas e marcas garantiu longevidade do programa e deixa vácuo nas tardes dominicais

Fausto Silva apresenta o Domingão do Faustão, em 2004. Como um parente bonachão, ele entrou na casa dos brasileiros por mais de trinta anos
Fausto Silva apresenta o Domingão do Faustão, em 2004. Como um parente bonachão, ele entrou na casa dos brasileiros por mais de trinta anos Foto: Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo

Adriana Del Ré, colaboração para a CNN

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 Foram 32 anos entrando na casa do público brasileiro aos domingos na Globo. Um dos maiores comunicadores da história da televisão no Brasil, o apresentador Fausto Silva se tornou uma espécie de parente bonachão que muitas famílias sabiam que iriam encontrar depois de almoçar, colocar a louça em ordem, sentar diante da TV e sintonizar na emissora. E, mais uma vez, o dono de bordões como ‘ô louco, meu’ e ‘quem sabe faz ao vivo’ embalaria a tarde preguiçosa dominical até começar o Fantástico – só pausando para o futebol. 

Ao longo dessas três décadas, Faustão conquistou, a seu modo, diferentes gerações. Mesmo nos dias de hoje, em que plataformas de streaming, canais a cabo e games competem pela atenção dos mais jovens, o apresentador de 71 anos é um rosto conhecido desse público, seja pelos memes com suas camisas espalhafatosas ou vídeos que viralizam nas redes sociais, seja por intermédio dos pais e avós, que ainda acompanham o ‘Domingão do Faustão’ na TV da sala.

Ou acompanhavam. Faustão, que já havia anunciado em janeiro que não renovaria contrato com a Globo, mas ficaria à frente do programa até o final do ano, não retornará mais ao seu ‘Domingão’. E não se sabe ainda se haverá uma despedida.

Uma semana após ser internado, em São Paulo, por causa de uma infecção urinária e precisar ser substituído por Tiago Leifert, a Globo comunicou, no último dia 17, a antecipação da saída do comunicador da emissora – e, segundo o colunista Ricardo Feltrin, do UOL, ele deve receber cerca R$ 40 milhões, incluindo os salários integrais previstos até dezembro e participação em merchandising e campanhas publicitárias. Procurada pela reportagem, a esposa de Faustão, Luciana Cardoso, afirmou que ele não comentaria sua saída da emissora. 

Mas ainda não chegou a hora da aposentadoria do apresentador. Faustão voltará ao ar na Band, antiga casa onde comandou o lendário ‘Perdidos na Noite’, entre 1986 e 1988. Ainda não foram divulgados data de estreia ou detalhes de como será o novo programa. Independentemente do que virá nessa nova fase, Faustão já entrou para a história da televisão brasileira com o ‘Domingão’.

Bom de marca

Maior salário da Globo enquanto esteve lá, algo em torno de R$ 5 milhões por mês, Fausto comandou o programa de auditório mais longevo da emissora – no SBT, esse título é de Silvio Santos. E o que explicaria a longevidade do ‘Domingão’ e do próprio Faustão como apresentador? 

“Por mais de 30 anos, as pessoas ligaram a TV e sabiam que ele estaria lá. Isso traz conforto. Toda semana, ele trazia a sensação de que o fim de semana está acabando e amanhã começa novamente o ciclo cotidiano. Esse hábito duradouro faz com que aquilo se torne parte da nossa identidade”, avalia Clarice Greco, pesquisadora de televisão e doutora em Comunicação.  

Para a jornalista e crítica de TV Edianez Parente, Faustão é um fenômeno da comunicação, mas, para além disso, é um comunicador de marcas. E isso vem desde os tempos de ‘Caminhão do Faustão’, nos anos 1990. “Ele é muito eficiente na comunicação de mensagem publicitária e isso deu uma força incrível para o programa. Depois do Silvio Santos, que é o dono do Baú e grande comunicador da própria marca, Faustão foi quem melhor trabalhou a comunicação das marcas para o público, principalmente para a audiência popular.” 

Edianez cita alguns cases de sucesso, como quando Faustão ensinou o que era celular pré-pago, ao fazer propaganda da antiga companhia BCP, que estava entrando no mercado, e quando apresentou o Magazine Luiza, então uma marca do interior de São Paulo que ainda não havia chegado às grandes capitais. 

Mais recentemente, em 2018, uma ação do apresentador com a marca Vigor viralizou: em vez de falar do iogurte, Faustão o experimentou ao vivo. A iniciativa surpreendeu a própria marca e teve grande repercussão, inclusive no meio publicitário. Com uma outra ação de merchandising, com a Bauducco, no quadro ‘Dança dos Famosos’, em 2013, a marca atingiu picos de vendas de até 40% de alguns produtos. 

“Essa sobrevida do Faustão muito se deve à capacidade de comunicação de marcas que ele tem. Não estou tirando os méritos de entertainer dele, mas ele é uma pessoa muito querida no meio, e ele mesmo conseguia atrair esses anunciantes para o programa”, afirma a jornalista, que é vice-presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), onde também é integrante do júri de TV. 

Bom de caçar e promover talentos

Faustão também é querido no meio artístico. Os artistas gostavam de participar do programa, queriam estar lá. Reflexo disso foi a onda de homenagens que o apresentador ganhou nas redes sociais após o anúncio de sua saída da Globo. Seu programa revelou uma série de nomes, como Flávia Alessandra, Adriana Esteves, Otaviano Costa, Fábio Porchat, entre tantos outros.

“Sem ele a TV não teria metade dos artistas que tem hoje. Obrigado por tudo, Fausto!”, escreveu Porchat, em sua rede social, juntamente com um vídeo relembrando a participação dele e de Paulo Gustavo, ambos em início de carreira, no ‘Domingão’.

No quadro ‘Ding Dong’, uma espécie de ‘Qual é a Música?’ só que com uma campainha no lugar das notas do maestro ao piano, o apresentador recebia cantores e músicos de diversos estilos, alguns havia até muito tempo longe da TV. Produtores e assessores da área de música ouvidos pela reportagem confirmam que, quando um artista se apresentava no programa ou mesmo era mencionado, a repercussão junto ao público era certa e imediata. E isso desde que o ‘Domingão’ estreou, em 1989.  

Fausto Silva
Faustão sempre fez questão de divulgar o trabalho de artistas que não estavam em evidência
Foto: Reprodução/TV Globo

“O Faustão teve uma importância muito grande também para os artistas que estavam fora da mídia, porque ele sempre anunciava aqueles lançamentos de livros e discos. Por exemplo, os artistas que trabalham comigo, a Claudette Soares, a Eliana Pittman, a Alaíde Costa: todas as vezes que saíam discos delas, a gente mandava, e ele sempre falava, exaltava. Acho que ele não podia levar ao programa, sabia que não tinha aquela coisa popular para a audiência, mas ainda assim dava cobertura. Isso era coisa dele, não era da produção”, afirma o produtor musical Thiago Marques Luiz. 

A cantora Claudette Soares, de 85 anos, nunca subiu no palco do ‘Domingão’, mas se lembra bem da repercussão após Faustão falar ao vivo de dois trabalhos seus, um álbum em homenagem a Tom Jobim e outro, dela com Alaíde Costa, em tributo aos 60 anos da Bossa Nova. “A divulgação é muito grande, porque o programa tem muita força. Foi realmente um estouro”, garante a cantora. “Quando apresenta os artistas, ele tem um olhar especial para cada um. Fala do trabalho, da importância, não tem distinção de quem está na mídia e de quem não está.”      

Guerra por audiência

Olhando em retrospectiva para a trajetória de Faustão, o apresentador inovou, principalmente, na forma direta com que se comunica com o público, sem travas na língua, com jeito irreverente e simples, aponta Edianez Parente. “Ele não se comunicava necessariamente com o auditório, diferentemente do Silvio Santos, que sempre falou com as ‘colegas’. Faustão já é direto com a audiência mesmo”, diz ela. “A principal marca dele é o ao vivo. E isso é uma diferença em relação a outros programas de auditório.” 

Essa marca da agilidade foi arquitetada por ele. “O Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho] me perguntou: o que você gostaria de fazer? Eu gostaria de fazer um programa que tivesse a rapidez e a agilidade do rádio, e principalmente uma integração de todos os departamentos, os setores. Eu tinha essa ideia sabendo que eles queriam o horário de domingo, que era o horário que a Globo tinha problema de audiência há muitos anos. Eu queria fazer um programa já naquela época com toda essa flexibilidade, essa agilidade, a rapidez do rádio integrando esporte, jornalismo, dramaturgia, show, tudo, responsabilidade social, prestação de serviço público. Na hora, ele aprovou”, contou o apresentador em depoimento ao Memória Globo. 

Fora das redes sociais, Fausto Silva ocupava a liderança de audiência aos domingos, com Record e SBT oscilando no segundo lugar. Mas, para Edianez, isso diz mais respeito à Globo do que ao apresentador. “É a força da emissora. Faustão estava dependendo mais da Globo para o programa dele do que dele mesmo, porque o que vinha dando audiência ao programa, o que recheia o programa são os quadros ‘Dança dos Famosos’, ‘Show dos Famosos’. São formatos internacionais adquiridos pela Globo”, analisa.

Tanto que o programa agora sob o comando de Tiago Leifert tem mantido a audiência dos domingos com Faustão. No último dia 20, o programa com Leifert atingiu média de 16,2 pontos de audiência em São Paulo; Faustão havia marcado 15,7 pontos no último dia em que apresentou o Domingão, em 6 de junho, segundo informações divulgadas pelo Twitter. 

Ex-repórter e com passagens como apresentador por TV Gazeta, Record e Bandeirantes, Faustão chegou à Globo em 1989, num posto que seria ocupado por Gugu Liberato. Gugu preencheria uma lacuna deixada pela morte de Chacrinha, em 1988, na linha de programa popular. Mas, a pedido de Silvio Santos, Gugu foi para o SBT e a Globo convidou Faustão, que na época apresentava ‘Perdidos na Noite’, na Band.

Fausto Silva apresenta o 'Perdidos na Noite', em 1985
Faustão apresentando o Perdidos na Noite, em 1985: ele agora volta para a Band, mas o formato de seu novo programa ainda não foi anunciado
Foto: CLAUDINE PETROLI/ESTADÃO CONTEÚDO

Entre os anos 1990 e início dos anos 2000, Gugu e Fausto Silva protagonizaram a guerra pela audiência na TV aberta, um vale-tudo que muitas vezes criava situações vexatórias – ou cringe, para usar uma expressão atual –, como o sushi erótico do ‘Domingão do Faustão’, em 1997 e a ‘Banheira do Gugu’. Um anacronismo dessa guerra, que sobreviveu até os dias de hoje, são as bailarinas do Faustão. Em contrapartida, a atração fez sucesso com quadros como ‘Caminhão do Faustão’, ‘Olimpíadas do Faustão’, ‘Se Vira nos 30’ e até as ‘Videocassetadas’. 

Os sucessores

Com a saída de Faustão da Globo, Tiago Leifert segue no comando do programa dominical, que passou a se chamar ‘Super Dança dos Famosos’, até Luciano Huck estrear seu projeto no horário, ainda sem data definida. Nos bastidores, fala-se que uma nova edição do ‘Show dos Famosos’ está prevista para ser realizada entre setembro e dezembro, o que deixaria o programa de Huck para o ano que vem. Mas nada ainda foi confirmado. 

Luciano Huck
Luciano Huck, o sucessor dos domingos na Globo: seu programa ainda não tem data de estreia anunciada
Foto: Mauricio Santana/Getty Images

Segundo Clarice Greco, pesquisadora de TV, a extinção do ‘Domingão do Faustão’ não representa necessariamente o fim de uma era. “Ainda há o Silvio Santos, que é um pilar importante dessa geração de apresentadores, mas acredito que, justamente pela relevância da memória constru??da e consolidada, o ‘Domingão do Faustão’ será sempre um marco da TV, assim como Chacrinha”, afirma.

E Faustão ainda estará nas telas, mas em outro canal. “Resta ver se encontraremos nesse novo Faustão aquilo que já estamos acostumados e apegados, ou se a inovação proposta o colocará em outro espectro dessa tríade clássica dos programas de auditório.”

Edianez acredita que quem gosta do apresentador vai acompanhá-lo onde estiver, assim como a Globo permanecerá com sua audiência cativa, independentemente do que exibir no horário. “A questão do talento é a grande incógnita, porque o Tiago Leifert é um grande talento, o Luciano Huck é um grande talento. Mas vai funcionar no horário, com aquele formato? É uma aposta.”   

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