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    Depois da pandemia, o nosso home vai ficando cada vez menos office

    Até mesmo o Zoom, que ajudou a popularizar o novo modelo de trabalho, vem pedindo pros funcionários voltarem pro escritório da empresa

    Home office
    Home office Getty Images

    Phelipe Siani

    O trabalho presencial vai acabar! Você ouviu isso durante a pandemia e até um pouco depois dela, tenho certeza. Era um coro gritado de todos os lados. Os funcionários já estavam de saco cheio do trânsito, do transporte público lotado, da reunião que podia ser um e-mail respondido pelo laptop da sala de casa.

    Do outro lado do balcão, estavam os que não aguentavam mais pagar os aluguéis quase sempre caríssimos dos escritórios, manter uma estrutura física pesada num momento em que a tecnologia já permitia que todas aquelas reuniões nos aquários de vidro fossem feitas do conforto do sofá da sala.

    Na real, isso já estava sendo ventilado há tempos, mas a pandemia antecipou a tendência. E muita gente acreditou que esse era um caminho sem volta, que os escritórios com um monte de gente junta já tinham assinado o aviso prévio no mercado de trabalho. Cada vez mais e mais empresas anunciavam vagas com possibilidade de trabalhar de casa. E foi assim até fevereiro de 2022, quando 4 em cada 10 vagas anunciadas no LinkedIn tinham possibilidade de trabalho remoto.

    Mas conforme a pandemia foi virando cada vez mais só uma lembrança trágica, mais os escritórios dos prédios espelhados se mostraram com saudades dos seus frequentadores habituais. E foi justamente quando a filosofia de home office parecia totalmente encaixadinha no job description de quase toda vaga, alguns dos grandes líderes corporativos do mundo começaram a engatar a ré nessa rota que parecia tão natural.

    O Tim Cook, big boss da Apple, por exemplo, foi um dos mais conhecidos defensores da volta dos funcionários pras mesas padronizadas dos escritórios. Isso, segundo ele e outros chefões, ia estimular mais a inovação e a colaboração. Com tanta mente importante começando a pensar nisso, os mesmos números do LinkedIn mostraram em fevereiro desse ano que as vagas remotas já tinham caído pra 25% das oportunidades.

    Até a universidade de Stanford endossou esses argumentos com um estudo mostrando que, com a galera toda em casa, aumentavam – e muito – as tretas de comunicação, a criatividade de geral diminuía e, junto dela, a produtividade, que podia cair de 10 a 20%. Aí, do começo de 2023 pra cá, a lista de quem topou voltar a se conformar com aluguel e condomínio caros aumentou com Google, Amazon, Salesforce e por aí vai.

    A última lampadinha no fim do túnel pra muitos dos que sonhavam em nunca mais rodar catraca de hall de prédio com porcelanato até o teto apagou quando o Zoom pediu pros funcionários voltarem pro trabalho presencial mais vezes por semana. Sim, a empresa que popularizou a videoconferência no mundo não via a mais remota possibilidade do trabalho remoto 100% continuar existindo. Aí lascou de vez!

    Mas, olhando pra dentro, as ofertas à distância pelo Brasil ainda tão bem à frente em volume se a gente comparar com outros países tipo Estados Unidos, Índia, Espanha, Reino Unido. Enfim, parece que o brasileiro curtiu esse negócio de trabalhar tomando um solzinho na varanda de casa. Tanto é verdade que se a gente ouvir só os funcionários, de cada 100, 85 topam ir pra outra vaga se rolarem mais dias de home office. Pelo menos foi esse o recorte que o Infojobs encontrou em abril desse ano numa pesquisa em parceria com o grupo Top RH.

    E tudo isso diz exatamente o quê? As empresas precisam ter trabalho presencial ou remoto? É bem possível que nem uma coisa nem outra. Segundo vários especialistas em gestão e liderança – e eu concordo com eles – todos esses dados que eu trouxe e tantos outros mostram uma conclusão muito clara… antes de decidir entre ir pra lá ou pra cá, as empresas precisam urgentemente ouvir os funcionários. Como quase tudo que parece muito óbvio, perguntar pros principais interessados o que eles querem nem sempre é algo feito automaticamente.

    Pensa aqui comigo, do que que vai adiantar ter a melhor opção pros C-levels da empresa e deixar a maior parte da folha de pagamento irritada ou desmotivada? O risco, nesse caso, é escolher entre uma opção e outra e melhorar os indicadores temporariamente. Funcionário insatisfeito não se mantém produtivo por muito tempo. O equilíbrio emocional precisa tá em cima da mesa, seja essa mesa qual for.

    O café da máquina automática do fim do corredor tem um gosto horrível, mas é ali que você fala amenidades com o colega entre uma tarefa e outra, e isso pode ser ótimo, analisando um relatório do Novo Futuro do Trabalho, feito pela Microsoft. O documento mostra que de casa, o funcionário tem uma tendência geral a se sentir mais sozinho e mais culpado quando fica doente ou faz pausas. E, culpado, ele tende a trabalhar mais horas, só que produzindo menos. De novo… isso tudo são números que apontam tendências, mostram comportamentos médios. Cada setor tem funcionários específicos, cada cidade tem uma cultura própria, com comportamentos locais.

    Será que dá pra colocar todo mundo na mesma caixa como se uma única decisão fosse funcionar pra todas as empresas do país? Dito tudo isso, eu tô aqui pra – de novo – falar provavelmente o óbvio, tá?! Não sabe se o seu funcionário fica no escritório ou vai trabalhar de casa? Pergunta o que ele quer e cobra o resultado que você espera dele no modelo em que ele se sentir mais confortável. Se essa é a melhor solução eu não tenho certeza absoluta… mas acho que, certamente, é a mais empática. E empatia é bom em qualquer lugar. Tanto na home quanto no office.