Discos clássicos internacionais que completam meio século de influência – Parte 2

1972 foi um ano mágico e álbuns de artistas como Genesis, Ornette Coleman, Lou Reed, Nick Drake, Neu!, Miles Davis e Neil Young seguem influentes 50 anos depois

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Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Depois de falar de discos de Al Green, Black Sabbath, Can, Bill Withers, Curtis Mayfield, David Bowie e Big Star, é a vez de dissecar diferentes clássicos estrangeiros que, lançados em 1972, seguem influentes e relevantes meio século depois.

E desta vez vamos ao disco mais comercial de Neil Young, o salto mais ousado de Miles Davis, o reencontro de Ornette Coleman com a liberdade que criou quando inventou o free jazz, o momento transgênero de Lou Reed, o desabrochar do rock progressivo do Genesis, o sombrio último disco do prodígio inglês Nick Drake e o primeiro disco da dupla experimental alemã Neu!.

Genesis – Foxtrot

Derivado do encontro do rock psicodélico com o virtuosismo musical, o rock progressivo entrou na década de 1970 como um de seus principais gêneros musicais, principalmente a partir da consolidação de uma geração de bandas inglesas que desbravavam os limites do vinil em músicas que tomavam conta de um lado inteiro do disco, divididas em partes, em discos temáticos.

O Genesis fazia parte desta geração mas mesmo com discos bem sucedidos em seu país, eles ainda não se sentiam parte da elite do gênero, capitaneada por grupos como Pink Floyd, King Crimson, Van der Graaf Generator, Soft Machine e Yes. E por mais que seus discos tivessem boa recepção de público e crítica, eles pareciam não atingir um patamar comercial sustentável – até que começaram a olhar o desempenho de vendas que tinham nos países vizinhos na Europa.

O sucesso comercial do grupo em lugares como Bélgica e Itália fez com que eles começassem a agendar turnês para outros países. E ao chegar no continente europeu, perceberam que tinham um potencial imenso ao apresentar-se para as maiores plateias que já tinham visto.

Esse período coincide com o tempo em que a banda tornou-se um quarteto e, sem guitarrista por alguns meses, o tecladista Tony Banks, o baixista Mike Rutherford e o recém-chegado baterista Phil Collins conseguissem criar um amálgama sonoro que ajudou-os a chegar a um patamar artístico completamente novo, deixando espaço para seu vocalista Peter Gabriel começar a fazer performances em vez de apenas cantar.

A entrada do guitarrista Steve Hackett em 1971 coincidiu exatamente com a descoberta do público estrangeiro e a consolidação da complexa cozinha musical do grupo (irônico perceber que, dez anos depois, o trio Banks-Rutherford-Collins seria responsável pela guinada comercial que apresentou o grupo aos anos 1980).

O segundo semestre daquele ano viu a banda lançar seu disco mais ousado até então – “Nursery Cryme” – e o começo das aparições icônicas de seu vocalista, que começaria a se superar em visuais inusitados e aparecendo no palco com a parte da frente da cabeça raspada, maquiagem preta nos olhos e um colar egípcio cheio de joias.

1972, portanto, foi o ano que viu o Genesis florescer. O amadurecimento musical da banda ao vivo junto com a descoberta de seu impacto ao vivo, a mudança de postura de palco de Peter Gabriel e o entrosamento de Hackett com o trio Banks-Rutherford-Collins e a troca de produtores por motivos artístico (John Anthony, que produziu os dois discos anteriores do grupo, deu lugar para Dave Hitchcock) deu origem à fase de ouro da banda, que começa justamente a partir do disco lançado no final daquele ano.

Em Foxtrot, todos os elementos da banda estão tinindo. Dos vocais e letras de Gabriel à intrincada forma como os músicos interagem entre si, criando paisagens complexas que emolduram climas pastoris e ambiências distópicas em canções longas, divididas em várias partes, como a vibrante “Watcher of the Skies”, que abre o disco com o dedo na tomada, a ópera “Get’Em Out By Friday”, que mistura o talento teatral do vocalista (que faz seis personagens) com a preocupação social em suas letras e, claro, o épíco “Supper’s Ready”, que com seus mais de 23 minutos dividia-se em sete partes elevando o Genesis para um outro patamar.

A capa não foi unanimidade entre o grupo, mas serviu de inspiração para uma das aparições mais inesperadas de Peter Gabriel nos shows, quando, sem avisar ao resto da banda, surgia com vestido vermelho e a máscara de raposa em referência à ilustração de Paul Whitehead. A partir deste disco, o Genesis ampliou ainda seu público e horizontes musicais, que seriam ainda mais explorado em seus próximos álbuns, o grandioso Selling England by the Pound, de 1973, e o monumental The Lamb Lies Down on Broadway, do ano seguinte, que encerra a estada de Gabriel na banda. Mas isso é outra história…

Lou Reed – Transformer

Fundador de uma das bandas mais influentes do mundo, Lou Reed vivia de uma fama que nunca teve, mesmo logo depois de deixar o Velvet Underground. Nascido sob a asa do artista plástico e socialite Andy Warhol, o grupo surgiu do encontro com Reed com o músico galês John Cale, quando ambos assumiram o compromisso de não fazer restrições ao próprio trabalho – e experimentar os limites do pop.

Mas depois de dois discos com Cale, Reed acabou expulsando o ex-amigo da banda e enveredou o trabalho da banda para o formato canção, em dois discos que, como os dois primeiros, têm uma importância póstuma diametralmente oposta ao seu desempenho comercial.

Ao lançar-se em carreira solo ao deixar sua própria banda em 1970, Lou dava um salto no escuro que, aparentemente, o presenteou com a queda. Seu primeiro disco solo, batizado apenas com seu nome, não teve nenhuma repercussão e o cantor e compositor temia até pela própria carreira, quando foi descoberto por David Bowie.

O artista inglês, ligado em todas as tendências, já acompanhava o trabalho do Velvet Underground a um oceano de distância e mesmo a falta de êxito comercial não foi o suficiente para diminuir o interesse de Bowie – tanto que ele dedicou seu disco de 1971 a três artistas americanos: Bob Dylan, Andy Warhol e Lou Reed. No ano seguinte, Bowie explodiu comercialmente ao pegar a onda do glam rock bem no comecinho e viu que aquele movimento poderia ajudar a aproximar-se de seus ídolos e até a impulsionar suas carreiras.

Foi exatamente o que aconteceu no segundo disco de Lou Reed. A aproximação de Reed e Bowie levou-os ao estúdio junto com o guitarrista da banda Spiders from Mars, que acompanhava a personalidade Ziggy Stardust que inglês apresentara naquele ano, e Mick Ronson, ao lado de David, foi quem ajudou o ex-vocalista do Velvet Underground a forjar um álbum que ao mesmo tempo seria seu maior sucesso comercial e seria parâmetro para grande parte da discografia de Lou até o fim de sua vida, em 2013.

Transformer reempacota a estranheza sexual do Velvet Underground ao padrão pop estabelecido por Bowie no início dos anos 1970. Se em seu antigo grupo Lou Reed cantava a confusão provocada pela heroína, pelo sexo sadomasoquista, pela suruba de travestis com marinheiro e a paranoia provocada por anfetamina, em seu segundo disco solo ele descia do pedestal profético da nova era kinky para a conversa tête-a-tête em bares quase fechando.

E entre divagações noturnas e confissões etílicas, ele vai costurando pequenos contos em que os gêneros sexuais se misturam e se confundem ao mesmo tempo em que isso não causa estranhamento. A partir de quatro músicas que ele já tocava com o Velvet (“Satellite of Love”, “Andy’s Chest”, “New York Conversation” e”Goodnight Ladies” ), todas recondicionadas para o novo álbum (e na metade de suas velocidades originais), ele canta a boemia à luz de clássicos matutinos de sua antiga banda – e canções como “Sunday Morning” e “After Hours” (do primeiro e terceiro disco do Velvet, respectivamente) dão o tom de virada deste disco ímpar.

As quatro músicas originais são o terreno de onde floresceram canções que hoje são clássicos do rock. “Vicious”, “Perfect Day” e “Walk on the Wild Side” praticamente inauguram um gênero quando apresentam o rock a uma sonoridade que poderia estar num disco do Alice Cooper ou do Roxy Music, mas num contexto quase caseiro, sem nenhum glamour. “Make Up”, “Wagon Wheel”, “Hangin’ Round” e “I’m So Free” completam o álbum praticamente consolidando algo que Reed vislumbrava fazer desde os tempos do Velvet – que um disco pudesse ter o mesmo impacto cultural de um romance. Transformer é seu primeiro grande livro – um romance musical -, que abriria caminho para tantas outras obras emblemáticas do autor, como Berlin (1973), New York (1989), Set the Twilight Reeling (1996) e que determinaria como seria sua carreira solo dali em diante.

Miles Davis – On the Corner

Nunca o maior nome do jazz foi tão longe quanto neste seu disco de 1972. Miles Davis já expandira os limites do gênero musical logo que entra na gravadora Columbia, enfileirando discos que eram praticamente a história do jazz: Miles Ahead (1957), Milestones (1958), Porgy & Bess e Kind of Blue (1959), Sketches of Spain (1960), Quiet Nights (1963), E.S.P. (1965), Miles Smiles e Sorcerer (1967).

Mas a partir de In a Silent Way, de 1969, ele começa a olhar para os lados e puxar todo tipo de sonoridade para dentro de sua música, quebrando a fronteira da eletricidade. Ao inaugurar o que depois seria vulgarmente conhecido como fusion, ele começa a puxar rock, funk, R&B e ritmos caribenhos e africanos para um caldeirão cada vez mais borbulhante de ritmo. Com discos como Bitches Brew (1970), Jack Johnson e Live-Evil (1971), ele era um verdadeiro buraco negro de energia, sugando toda musicalidade alheia aos seus ouvidos e devolvendo-as com um time de músicos que contava com uma pequena elite instrumental.

O time de Miles em seu período elétrico é pesadíssimo: os tecladistas Herbie Hancock, Keith Jarrett e Chick Corea, os guitarristas John McLaughin e Sonny Sharrock, os percussionists James Mtume e Don Alias, os baixistas Michael Henderson, Harvey Brooks e Dave Holland,os bateristas Jack DeJohnette e Al Foster, os brasileiros Airto Moreira e Hermeto Pascoal e muitos outros. Sem contar as conversas que teve com o arranjador Paul Buckmaster (que tocou cello em seus discos), que lhe apresentou à música contemporânea de Karlheinz Stockhausen, e a produção de Teo Macero, que recortava e colava trechos nas fitas das gravações originais, antecipando o sample e combinando os instrumentos ainda mais. Era uma formação em chamas.

Mas ninguém estava preparado para o que o trompetista fez em 1972. Ao reunir mais de 20 músicos no estúdios – incluindo cítaras e tablas indianas, além de um considerável número de novatos em sua discografia -, ele buscava chegar onde artistas como Sly & the Family Stone e Funkadelic estavam chegando, levando a musicalidade negra a um novíssimo patamar. On the Corner é o disco em que Miles coloca a cor de sua pele em primeiro plano a ponto de tocar menos trompete que em todos seus discos – dedicando-se mais ao órgão e ao teclado elétrico.

O fio condutor do disco, no entanto, é o ritmo. Baixo, bateria e percussão abrem paisagens sonoras complexas e irresistíveis, deixando os outros instrumentos voar como pássaros ao horizonte. Um disco estranhamente pesado, dançante e complexo, On the Corner foi recebido com estranheza pela crítica musical da época e até mesmo por seus fãs mais ferrenhos. Os instrumentos colapsam em si em loops hipnóticos de ritmo, antecipando uma série de avanços musicais que mudariam a cara da música negra nas próximas décadas.

Priorizando o ritmo como linha-mestra, On the Corner antecipa as viagens mais ousadas do hip hop, os momentos mais dançantes do pós-punk e uma série de subgêneros futuros da música eletrônica que parecem ter surgido entre seus versos musicais: do jungle ao grime, passando pelo deep funk, drill’n’bass, neurofunk e dubstep, entre inúmeros outros. É um disco que confunde na mesma medida que encanta e é sem dúvida a obra mais visionária de Miles Davis – o que não é pouco.

Neil Young – Harvest

O começo dos anos 1970 foram duros para Neil Young. Além de desfazer seu segundo grupo – Crosby Stills Nash & Young, depois de conseguir fama com o Buffalo Springfield – e se ver mais uma vez tendo que recomeçar a carreira do zero, ele também lidava com o fantasma da heroína – que, embora não tivesse problemas pessoais com a droga, aos poucos a via destruir a vida de pessoas próximas. Não bastasse tudo isso, ele ainda teve de passar meses usando um colete para problemas que tinha na coluna, uma situação que o acompanhava desde a infância, quando contraiu poliomielite.

Teve de se retrair e, depois de participar do programa de Johnny Cash em Nashville, foi convidado pelo dono do estúdio Quadrophonic Sound Studios, Elliot Mazer, para gravar suas canções por ali, aproveitando a presença de amigos como James Taylor e Linda Ronstadt, além da banda que Mazer providenciou para ele, formada por Kenny Buttrey (guitarra), Tim Drummond (baixo) e Ben Keith (bateria), que mais tarde Young batizaria de The Stray Gators, com a participação do pianista Jack Nitzsche.

O clima caseiro do estúdio, a contração nas costas de Young (que o obrigou a dedicar-se mais ao violão que à guitarra) e o clima de sua turnê mais recente (quando, sozinho ao violão ou ao piano, voltava-se para músicas que o tornaram conhecido em suas duas bandas anteriores) foram responsáveis por dar ao disco um clima bucólico e pastoril, mesmo com algumas músicas elétricas.

“Harvest” ainda contou com a presença de seus ex-companheiros de banda David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash e com a Orquestra Sinfônica de Londres em duas faixas, reunindo um rosário de hits que carregam a carreira de Neil Young até hoje – hinos como a faixa-título, “A Man Needs a Maid”, “Old Man”, “The Needle and the Damage Done” (composta após uma overdose de Danny Whitten, guitarrista de sua banda de apoio, Crazy Horse, que morreria após nova overdose, no final daquele mesmo ano), “Words (Between the Lines of Age)” e “Heart of Gold” são favoritos de qualquer apresentação ao vivo do então jovem canadense até hoje. A última música, lançada pouco antes do álbum, foi um dos maiores hits daquele ano e pavimentou o caminho para que Harvest se tornasse o disco mais vendido nos Estados Unidos.

Depois de gravado, Young foi mostrar ao amigo Graham Nash o disco numa das histórias mais pitorescas da história do rock. Chegando no rancho de Young, Nash achou que ouviria o disco no estúdio, mas qual foi a sua surpresa quando Neil levou-o ao lago de sua propriedade e entrou num pequeno barco, chamando o amigo.

Do barquinho, Young acenou para seu estúdio, quando Nash percebeu que no extremo oposto do estúdio havia o celeiro do rancho, com um enorme equipamento de som à mostra. Após o aceno, o disco começou a ser tocado a partir dos dois extremos do lago – e quando Young percebeu que o som do celeiro estava mais baixo que o do estúdio, ele gritou “mais celeiro!” para que o amigo pudesse ouvir o disco que ainda não havia sido lançado do melhor jeito possível.

Neu! – Neu!

Da cena de rock progressivo que surgiu na Alemanha no final dos anos 1960, o nome mais conhecido é de um grupo que abandonou as explorações musicais intermináveis para abraçar uma sonoridade mais minimalista e mais eletrônica. O Kraftwerk é das poucas unanimidades da história da música pop e sua influência na cultura a partir do meio dos anos 1970 vai muito além da música.

Mas antes de abraçar a eletrônica como força-motriz, o grupo fundado por Ralf Hütter e Florian Schneider tinha fortes raízes no rock experimental e progressivo, usando instrumentos convencionais e abrindo espaços instrumentais para solos gigantescos, como era de praxe na cena da cidade. E além de Ralf e Florian, dois nomes foram fundamentais para que o Kraftwerk se tornasse a referência que se tornou: o guitarrista Michael Rother e o baterista Klaus Dinger.

Os quatro se reuniram logo depois que a banda experimental Organisation, fundada por Ralf e Florian, encerrou suas atividades. Enquanto nesta primeira banda os integrantes do futuro Kraftwerk ainda usavam instrumentos convencionais (Florian tocava flauta!), no novo grupo eles começaram a colocar maior foco no sintetizador, apesar da presença orgânica da dupla Rother e Dinger. A música meio que determinou o futuro do grupo e quando as duas duplas perceberam que estavam traçando caminhos diferentes, o guitarrista e o baterista fundaram o Neu!, em 1971.

O nome quer dizer “novo” em alemão e foi sugerido por Dinger, a contragosto de Rother, e vinha da constatação que o adjetivo era a palavra mais forte da publicidade alemã, segundo um estudo. A exclamação e a imagem minimalista do texto sobre um fundo de cor chapada (que permaneceu durante toda a carreira do grupo) servia como uma espécie de resumo da forma direta que os dois abordavam a música.

O primeiro disco, batizado apenas com o nome do grupo, foi gravado em quatro noites e abre com a faixa que acaba sendo o melhor cartão de visitas para aquela nova sonoridade. “Hallogallo” parece interminável e celestial, superpondo o ritmo incessante de uma batida em quatro por quatro que se tornaria a contribuição mais palpável do grupo para a história da música. O ritmo hipnótico e quase sem interrupções seria mais tarde referido como “motorik” e atravessaria diferentes gêneros musicais com uma proposta direta e precisa. Sobre a base, Rother empilha diferentes ruídos produzidos por sua guitarra, que imita um baixo condutor, surrupia riffs do funk norte-americano e ecoa vozes angelicais – tudo ao mesmo tempo.

O “motorik” – rótulo que seus autores não gostavam – seguiria constante em toda curta discografia do grupo, mas neste primeiro disco ele só aparece na faixa de abertura e na hipnotizante e metálica “Negativland” (que mais tarde batizaria o grupo situacionista norte-americano que brigou com o U2 a respeito dos direitos autorais da letra U e do número 2). O resto do primeiro disco do Neu! é uma incursão aos limites de quando a música torna-se ruído.

“Sonderangebot” não tem percussão e lida com o conceito de ambiência sonora anos antes de Brian Eno criar este rótulo, com ondas magnéticas conduzidas ao mundo do som pelos instrumentos de Rother. A plácida “Weinssensee” é o lento final de uma música que nunca começou, enquanto “Im Glück” leva esta mesma melodia para a superfície de um lago, que abre a mudança de lado do álbum. O disco termina com os sussurros etéreos de “Lieber Honig”.convertendo-se literalmente num barco sobre aquele mesmo lago.

A química entre Rother e Dinger neste primeiro registro foi produzida pela dupla intermediada por Konrad “Conny” Plank, ele mesmo um ex-Kraftwerk que foi chamado pelo Neu! para repetir seu papel que cumpria em sua banda anterior, o de mediador de conflitos, transformando tensões artísticas em força criativa. Aquele disco de estreia teve um impacto limitado à cena underground alemã, o que pode ser medido pelas parcas 30 mil cópias que vendeu à época. Mas seu impacto foi para além de seu próprio cercado e sua influência pode ser sentida em áreas tão diferentes quanto a música eletrônica, o hip hop, o indie rock, o noise, o rock de vanguarda e a ambient music.

Nick Drake – Pink Moon

O cantor e compositor inglês Nick Drake ainda é um segredo para a maioria do público ouvinte, embora sua influência ultrapasse sua aceitação comercial. Nascido na cena folk britânica do começo dos anos 1970, quando artistas como Fairpoirt Convention, Sandy Denny e Incredible String Band, que conectavam a sonoridade que havia feito sucesso nos anos 1960 com a tradição pastoril britânica milenar, Drake era um alienígena até mesmo dentro daquela cena tão ímpar.

Com um metro e noventa de altura e a voz doce de um anjo, ele explorava afinações e harmonias completamente improváveis e novas em seu violão e ao mesmo tempo em que parecia nascido décadas – talvez séculos – antes, cantando canções sobre as coisas mais simples da vida, também explorava uma musicalidade completamente nova ainda que estranhamente familiar.

Complicavam ainda mais as coisas o fato de que Drake não era muito sociável e tinha vergonha de se apresentar em público. Mas assessorado por bons amigos e produtores, ele conseguiu registrar sua maravilhosa obra em três discos definitivos: o pastoril Five Leaves Left (de 1969), o pop refinado de Bryter Layter (de 1971) e sua obra-prima definitiva, um disco que gravou sozinho no estúdio, apenas com a presença do amigo e engenheiro de som John Wood.

Gravado somente ao violão, com um leve acréscimo de um piano na imortal faixa-título, Pink Moon é um salto para as áreas mais sombrias da alma, em que Drake nos conduz com seu violão tocado de forma cada vez mais crua, direta e sem retoques ou arranjos. A crueza de seu instrumento contrasta com seu vocal macio e os temas pesados que abordam em canções perfeitas que se resumem em seus títulos: “Place to Be”, “Road”, “Things Behind the Sun”, “Know”, “Parasite” e “Free Ride” são apenas algumas amostras de seu poder de persuasão, de encanto e de dramaticidade,

A lenda deste disco cresceu porque Drake foi encontrado morto, aos vinte e seis anos, no apartamento de seus pais em 1974, vítima de uma overdose de remédios que até hoje divide fãs sobre sua morte ter sido acidental ou não. À luz de sua triste despedida, a sombra de Pink Moon cresce ainda mais e parece retratar as dores mais profundas de uma alma sofrida, embora em seus períodos de depressão Drake não conseguia nem sequer compor, muito menos gravar. Muitos, no entanto, a beleza bruta consideram seu terceiro disco uma carta de despedida, triste, mas com alguma esperança no horizonte.

Ornette Coleman – Science Fiction

Se pilares do jazz como Louis Armstrong, Duke Ellington, Bill Evans, Miles Davis, Charlie Parker, Thelonious Monk e John Coltrane ajudaram a aumentar a consciência de um gênero musical sempre em expansão, um nome foi responsável por libertá-lo de vez e este chama-se Ornette Coleman.

O saxofonista norte-americano, nascido no Texas e formado musicalmente em Los Angeles, teve de atravessar os Estados Unidos para mostrar que não estava para brincadeira. A partir da temporada no no clube Five Spot, em Nova York, quando lançou o disco The Shape of Jazz to Come, em 1959, iniciou uma transformação radical no gênero, abraçando o improviso livre como regra. No disco Free Jazz: A Collective Improvisation, no ano seguinte, ele não só pôs dois quartetos para tocar cada um em uma das caixas de estéreo por quase 40 minutos de música, como acabou batizando esta novidade no gênero, que libertou-o completamente das amarras do ritmo, da melodia e da harmonia.

Depois de uma década de experimentos ainda mais radicais que o tornaram um dos maiores nomes da vanguarda musical nos Estados Unidos, Coleman entrou nos anos 1970 disposto a retomar o ímpeto inicial que teve uma década antes, depois de sair da clássica gravadora Blue Note e mudar-se para a Columbia. Para este novo momento, retomou a ideia básica de seu clássico Free Jazz, incluindo alguns suspeitos de sempre. Novamente ele reunia dois quartetos de instrumentistas, tornando-se ponto de intersecção entre as duas bandas. Uma delas, novamente, era formada pelo trompetista Don Cherry, o Bassist Charlie Haden e pelos bateristas Billy Higgins e/ou Ed Blackwell.

E o “e/ou” faz-se necessário pois ao contrário do disco de 1960, este Science Fiction, registrado em 1971 e só lançado no ano seguinte, em vez de separar os dois grupos em canais de gravações diferentes, junta todos os músicos em num septeto que destila um complexo amálgama sonoro, que ainda conta com os trompetes de Bobby Bradford, Carmine Fornarotto e Gerard Schwarz, o sax tenor de Dewey Redman (que também toca o inusitado instrumento musette) e vocais da indiana Asha Puthli e do escritor David Henderson, todos com seus momentos de solo e delírio individual, tornando este disco (e o seu disco seguinte, o igualmente ousado Skies of America, gravado com a Orquestra Sinfônica de Londres), responsável por manter a reputação de Coleman intacta pelas décadas a seguir, estabelecendo o parâmetro tanto para novos artistas quanto para si mesmo.

 

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