Clássicos da música brasileira lançados em 1972 completam 50 anos – Parte 3

Discos de Tim Maia, Elis Regina, Erasmo Carlos, Paulinho da Viola, Gilberto Gil e Rita Lee transformaram o ano de 1972 um período mágico para nossa música

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Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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A terceira e última parte da série de reportagens sobre clássicos da música brasileira que completam 50 anos em 2022 traz discos de Paulinho da Viola, Tim Maia, Toni Tornado, Tom Zé e Rita Lee, do grupo Quinteto Violado, além de um disco que apresentou a primeira versão de uma das grandes canções da nossa cultura, “Águas de Março”, de Tom Jobim.

Em 1972, a música brasileira vivia um de seus anos mais intensos. Marcava a maturidade de uma geração de artistas, como Caetano Veloso e Elis Regina, e o início de uma fase de ouro da indústria fonográfica no país, quando milhões de discos eram vendidos mesmo se eles não tivessem apelo comercial.

A seguir, mais sete discos que merecem ser celebrados neste ano:

Paulinho da Viola – A Dança da Solidão

O jovem Paulo César Batista de Faria teve uma educação musical ímpar na história da música brasileira – colhendo lições do samba diretamente de suas principais fontes. Passou os anos 60 ouvindo conselhos para largar a música e seguir na profissão de bancário, inclusive do próprio pai, César Faria, líder do lendário grupo de choro Época de Ouro.

A proximidade familiar do gênero musical o fez assistir a apresentações ao vivo de lendas da nossa música como Dilermando Reis, Pixinguinha e Jacob do Bandolim ainda adolescente.

O início da carreira o aproximou de outro mestre, Hermínio Bello de Carvalho, que lhe apresentou ao trabalho de contemporâneos como Carlos Cachaça, Cartola, Candeia, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Zé Ketti.

Passou a frequentar o histórico bar Zicartola, tocando e compondo ao lado de nomes deste porte. Participou do musical “Rosa de Ouro”, que revelou Clementina de Jesus, e montou o grupo A Voz do Morro, ao lado de Anescar do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento, quando foi apelidado com seu nome artístico.

Entrou na década seguinte com um disco batizado com um de seus primeiros clássicos, “Foi um Rio Que Passou em Minha Vida”, de 1970, que se tornaria padrão de sua sonoridade – clara, mínima, afetiva e envolvente. Mas é em “Dança da Solidão”, lançado em 1972, que ele define não apenas a natureza de seu samba, como sua importância para o gênero e para a música brasileira.

Pois além das músicas melancólicas e introspectivas que seriam sua marca registrada (como “Guardei Meu Violão”, “Acontece” de Cartola, e, inevitavelmente, sua faixa-título), ele também desfilava canções que celebravam a energia essencial do samba (“No Pagode do Vavá”, “Papelão” e “Falso Moralista”, de Nelson Sargento) e sua natureza filosófica (a imortal “Meu Mundo É Hoje (Eu Sou Assim)”, “Orgulho”, “Duas Horas da Manhã”, de Nelson Cavaquinho), às vezes misturando estes dois universos (“Ironia”, “Coração Imprudente”) e celebrando sua Portela com “Passado de Glória”, do recém-falecido Monarco.

O canto macio de Paulinho bem como seu delicado dedilhado aliam-se a uma instrumentação mínima e sofisticada, aproximando o samba do jazz clássico sem tirar o pé do chão do morro. “Dança da Solidão” é um dos maiores discos de samba de todos os tempos e também disputa lugar no pódio da música brasileira, tamanhos requinte e beleza.

Quinteto Violado – Quinteto Violado

Depois que o guitarrista Reginaldo Rossi decidiu saiu do grupo pernambucano Silver Jets para seguir em carreira solo, o outro guitarrista da banda, Fernando Filizola, percebeu que outros estilos musicais estavam ganhando mais popularidade em relação ao rock que fazia com seu grupo.

Ele, que já havia passado pela bossa nova, começou a perceber que o jeito de cantar e tocar inventado por João Gilberto estava se transformando em algo que aos poucos seria referido pela sigla MPB. Filizola percebeu como aquela nova musicalidade conversava tanto com as raízes tradicionais brasileiras quanto com outros gêneros musicais, como o jazz, o samba e até mesmo as variantes do rock depois da psicodelia.

Foi quando ele se reuniu com o violonista Marcelo Melo, o baixista Toinho Alves, o percussionista Luciano Pimentel e o flautista Sando Johnson (este com apenas 14 anos!) para experimentar novas formas de abordar a música nordestina.

O grupo ainda não tinha nome no começo dos anos 1970, quando começou a apresentar-se na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco e batizou-se de Quinteto Violado depois que o público começou a referir-se a eles como “os violados”, devido à presença da viola e dos violões acústicos no show.

O grupo foi visto tanto Gilberto Gil quanto por Caetano Veloso logo que os dois voltaram ao Brasil e aquela referência fez com que eles fossem procurados por gravadoras para lançar o primeiro disco.

Antes deste lançamento, o grupo fez sua primeira apresentação no exterior, quando foi aplaudido durante o Midem (Marché International du Disque et de l’Edition Musicale, tradicional feira de música europeia que reúne executivos de gravadoras internacionais há anos).

A moral na França fez o grupo lançar um álbum sem mesmo testar o mercado com um compacto, como era de praxe no período, e o disco batizado apenas com o nome do grupo já abria com uma versão impressionante para o clássico “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Martins.

O tratamento luxuoso da faixa de abertura era repetido em todo o decorrer do álbum, que foi lançado na badalada casa noturna Monsieur Pujol, dos empresários Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, na zona sul carioca.

O único deslize do álbum é que sua capa era de segunda mão – alguém sugeriu uma ilustração que o inglês Roger Dean (que fazia as capas do grupo Yes) fez para o disco do grupo inglês Palladin e naqueles tempos pré-internet, ninguém preocupou-se em buscar a autoria daquele cavaleiro futurista que, de alguma forma, remetia a um cangaceiro transmutado, o que conversava bem com a sonoridade do grupo.

Rita Lee – Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida

O último disco dos Mutantes com sua formação clássica não é creditado ao grupo. “Mutantes e Seus Cometas no País dos Bauretz”, lançado naquele mesmo 1972, seria, oficialmente, o último disco com o nome do grupo que ainda contava com a presença da vocalista e compositora Rita Lee, mas uma novidade tecnológica fez o grupo crescer o olho com a possibilidade de gravar um segundo disco ainda naquele ano.

A mesa de som com 16 canais permitiria que os músicos conseguissem superpor uma quantidade, à época, impensável de instrumentos numa mesma gravação, sem que o som soasse contido. Seu disco anterior havia sido gravado em oito canais, mas ter o dobro de possibilidades sonoras fez o grupo paulistano salivar com a possibilidade de voltar ao estúdio em 1972.

A solução foi lançar este novo disco disfarçado como se fosse o segundo disco solo de Rita Lee. A cantora já havia lançado “Build Up” em 1970, com a participação de todos os Mutantes em diferentes faixas do disco. Mas “Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida” é um disco inteirinho dos Mutantes, com a banda tocando em todas as faixas e até músicas em que nem a própria Rita Lee canta – ainda que ela fosse a dona do disco e um desenho seu estampasse a capa do álbum (mas ao abri-lo, a foto no palco era da cantora acompanhado pelos irmãos Dias Baptista, o baixista Liminha e o baterista Dinho).

E, se em “Bauret”z, lançado no início daquele ano, os Mutantes começavam a derrapar para o progressivo e para o hard rock, deixando o humor em um segundo plano, especificamente na longa faixa-título, “Hoje…” era um disco essencialmente mutante, com os dois pés fincados no rock dito clássico. Canções como a faixa-título, “Teimosia”, “Frique Comigo” e “Vamos Tratar da Saúde” só não são vistas como clássicos imbatíveis do grupo por conta desta confusão de nomenclatura do disco.

A guitarra falante da latina “Beija-Me, Amor”, o corinthianismo de “Amor Branco e Preto” , o country de “Tiroleite” e o peso de “Tapupukitipa” podem estar em quaisquer discos do grupo, tanto no quesito inventividade quanto na exploração de novos gêneros. Fecha sua discografia com uma chave mais dourada que o disco lançado no mesmo ano com o nome do grupo.

Tim Maia – Tim Maia

O terceiro álbum de Tim Maia também é seu disco menos popular dos quatro que gravou antes de entrar na mística e mitológica fase Racional. Mas embora não tenha hits à altura dos outros discos daquele período (em que lançou “Azul da Cor do Mar”, “Réu Confesso”, “Primavera”, “Gostava Tanto de Você”, “Não Quero Dinheiro” e “Eu Amo Você”), este disco foi crucial para seu amadurecimento musical.

Pois a banda que o acompanhava em boa parte do disco era o grupo Abolição, que seguia o maestro Dom Salvador no início dos anos 1970. Ao trazer músicos para um ambiente menos jazzístico, misturando soul e funk norte-americanos a gêneros musicais brasileiros, Tim Maia plantou a semente do que se tornaria a Banda Black Rio em alguns anos.

E mesmo sem músicas mais conhecidas, seu disco de 1972 tem um quilate musical superior aos discos que Tim havia lançado anteriormente, cada vez mais confiante do território samba-funk que havia vislumbrado, soltando-se ainda mais como vocalista.

É também um grande disco de baladas e momentos como a cortante “Lamento”, o blues falado “Sofre” e a tocante “O Que Me Importa” (depois eternizada por Marisa Monte já neste século), que equilibram-se perfeitamente ao lado de outras cantadas em inglês, “Where Is my other Half” e “These Are The Songs” (que já havia cantado em dueto com Elis Regina no seu disco de 1970, “Em Pleno Verão”). Um disco ao mesmo tempo melancólico e dançante, impregnado com o DNA do Síndico.

Tom Jobim e João Bosco – O Tom de Antônio Carlos Jobim e o Tal de João Bosco

Único item desta coleção que não é um álbum, este compacto marca a aproximação definitiva do jornal independente “O Pasquim” com a música brasileira, pois inaugurava uma nova versão do clássico tabloide que reuniu nomes importantes de nossa contracultura como Millôr Fernandes, Ziraldo, Miguel Paiva, entre muitos outros.

Era o “Disco de Bolso d’O Pasquim”, um compacto simples, que custava oito cruzeiros e se dispunha a trazer sempre duas canções de diferentes nomes da música brasileira – no lado A, um nome já estabelecido, lançando uma canção inédita, e no lado B, um artista iniciante, sendo apresentado pelo jornal.

E embora o projeto não tenha durado mais do que duas edições (devido à constante pressão que o jornal recebia da ditadura militar), ele foi inaugurado em março daquele ano trazendo a primeira versão de um dos maiores clássicos de nossa cultura: “Águas de Março”, de Tom Jobim.

Em versão mais acelerada que as consagradas por Elis Regina naquele mesmo ano ou na gravação definitiva que Tom fez ao lado de Elis dois anos depois (no mitológico disco Elis & Tom), a primeira versão deste clássico só apareceu por iniciativa da imprensa independente do período – e no lado B daquele compacto, o novato apresentado era ninguém menos do que João Bosco, mostrando um de seus primeiros clássicos, “Agnus Sei”.

O projeto seguiu naquele mesmo ano quando, em sua segunda edição, um Caetano Veloso recém-chegado de Londres gravaria uma homenagem a Luiz Gonzaga (com “A Volta da Asa Branca”) trazendo no lado B uma composição de um novato cearense chamado Fagner. Mas a chegada triunfal de “Águas de Março” foi suficiente para incluir o jornal de resistência na história da música popular brasileira.

Tom Zé – Tom Zé

Mais um dos discos pós-tropicalistas que o compositor baiano gravou no início dos anos 1970, este trabalho foi infamemente batizado de “Se o Caso é Chorar”, pois a gravadora colocou o nome da música mais conhecida até então sobre a ilustração da capa em uma reedição na década seguinte.

Uma reedição recente, no entanto, resgatou o título original, que é apenas o nome do cantor e compositor, e que conta com músicas conhecidas de seu repertório, como “Dor e Dor”, “Senhor Cidadão” (que abre com o poeta paulista Augusto de Campos recitando seu “Cidade City Cité”), “Menina Amanhã de Manhã” e “A briga do edifício Itália com o Hilton Hotel”, além da faixa que depois batizaria o disco.

Embora não tenha a ousadia conceitual de sua obra-prima (“Estudando o Samba”, de 1975), traz o músico experimentando suas canções tortas, construindo letras e melodias a partir de células sonoras repetitivas, galvanizando seu estilo único de compor.

Toni Tornado – Toni Tornado

Um dos maiores nomes do funk brasileiro, o paulista Toni começou sua carreira dançando no programa de TV “Hoje é Dia de Rock”, adotando o pseudônimo de Tony Checker, em homenagem ao autor do hit “The Twist”, Chubby Checker e Little Richard.

Mas depois de passar cinco anos morando em Nova York, nos anos 1960 (onde conheceu Tim Maia), voltou para o Brasil em 1969 disposto a assumir os vocais de um grupo de soul music.

Começou tocando no conjunto de Ed Lincoln com o pseudônimo de Johnny Bradfort, fingindo ser estrangeiro, mas logo saiu em carreira solo, adotando o apelido que o tornou conhecido ao disputador a quinta edição do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro.

Em 1970, ao lado do Trio Ternura, venceu o primeiro lugar daquele festival ao apresentar a dramática música “BR-3”, que o tornou conhecido em todo o país.

Era o suficiente para que ele fosse contratado para lançar seu primeiro disco solo. Batizado apenas com seu nome é um dos primeiros álbuns de funk do Brasil, embora beba de fontes brasileiras e seja um disco muito calcado em baladas.

Mas isso não é um problema: cantando muito, Tony faz pedradas como “Torniente”, “Tornado”, “Aposta” e “Bochechuda”, combinar direitinho com delícias como “Sinceridade” e “Uma Ideia”. Outras faixas, como “Mané Beleza” (composta por Chico Anysio, com forte acento nordestino) e o blues “Não Grile a Minha Cuca” fazem a ponte entre estas duas metades do disco, mostrando que Toni não está para brincadeira, mesmo que em alguns momentos beba muito da fonte de James Brown.

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