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    Eliane Dias: “Quero dar voz às mulheres pretas porque nós somos a base”, diz empresária do Racionais MC’s

    CEO da produtora Boogie Naipe é uma das vozes potentes do feminismo negro. Advogada narra sua trajetória no quadro Vozes Pretas deste sábado (29) no programa Popverso

    Letícia Vidicada CNN

    em São Paulo

    Forte e guerreira são adjetivos quase obrigatórios quando se fala de uma mulher preta. Adjetivos que não apenas estereotipam como pesam para quem carrega.

    “Eu realmente me coloco neste lugar de mulher forte, guerreira. Não aconselho isso pra ninguém. É muito difícil. Eu tenho resposta para tudo e solução para tudo. Agora, eu estou querendo sair deste lugar”, revela a advogada Eliane Dias, CEO da produtora musical Boogie Naipe, entrevistada do quadro Vozes Pretas do Popverso deste sábado (29).

    Ao contrário do que a empresária transparece, Eliane Dias é uma mulher acolhedora, boa de papo e daquelas que arregaça as mangas e faz acontecer.

    “Hoje eu sou essa workaholic. Eu me divirto trabalhando, porque na infância eu me divertia trabalhando”, conta ao revelar que teve muita responsabilidade desde cedo. “Sabe aquela coisa da periferia de cuidar? Da irmã mais velha cuidar da irmã mais nova? Eu sempre recordo da minha infância trabalhando, fazendo alguma coisa”.

    E grande parte desta sua veia trabalhadora, ela herdou da sua mãe, que é a sua maior referência. “Ser feminista, independente, uma mulher preta que tem orgulho de ser mulher preta, de saber que eu posso ir e vir sozinha, isso tudo vem da minha mãe”, conta ela cheia de orgulho da matriarca.

    “Eu não tinha dinheiro. Eu só sabia que eu queria estudar e me tornar advogada e ser independente para eu ter dinheiro, pra eu viajar pra onde eu quisesse”, diz. E foi na busca por essa independência que Eliane Dias sentiu a força da sua voz pela primeira vez. Ser advogada foi uma escolha de criança após encontrar um livro da autora Carolina Maria de Jesus no lixo.

    “Eu o encontrei aos 9 anos (livro ‘Quarto de Despejo’). Eu não sabia ler ainda com essa idade. Falei pra Dona Maria que tomava conta de mim que queria entender as palavras e ela, que era incrível e maravilhosa, me disse – mesmo analfabeta – que: ‘Quem entendia das palavras eram os advogados’. Decidi ser advogada.”

    Referência no empreendedorismo feminino e feminismo negro

    Eliane Dias é uma voz potente quando o assunto é igualdade de gênero. Estrategista, como ela mesma se define, ainda hoje usa todas as suas expertises para ser respeitada e se fazer ouvida e validada – principalmente em ambientes com mais homens por onde ela costuma circular.

    Atualmente, ela é CEO da Boogie Naipe, produtora musical do grupo Racionais MC’s, do qual é empresária.

    Casada com Mano Brown, integrante do grupo Racionais MC’s – ou Pedro Paulo, como ela costuma chamar o marido – Eliane Dias ainda se sente desconfortável quando tentam diminui-la ou resumir toda sua trajetória apenas pelo fato de ser casada com Brown.

    “Não que ser mulher do Mano Brown seja uma coisa que me diminua, que me causa fadiga, que seja ruim. Mas eu sou uma mulher, eu sou um ser humano que trabalha, que estuda, que batalha, que é independente, e as pessoas tentam diminuir. E ainda hoje, tem vezes que eu canso de ficar falando que eu sou Eliane Dias.”

    Juntos, Eliane e Brown tiveram dois filhos e foi por amor a eles que ela passou a empresariar o grupo Racionais MC’s. A empresária revela que hesitou bastante quando recebeu o convite.

    “Eu não queria ser mais uma mulher que ia deixar a sua própria carreira, sua própria vida para cuidar da vida do companheiro. E aí alguém me disse que se eu não fizesse isso, a herança dos meus filhos iria parar na mão de qualquer pessoa. Então, eu decidi rápido.”

    Eliane Dias é uma voz potente quando o assunto é igualdade de gênero / Gabriel Cyrillo

    Um amor pelos filhos, Jorge e Domenica, que ela mesma define que é uma paixão que nunca passa e até brinca que não recomenda que ninguém tenha filhos. “É um amor infinito que dói o tempo todo. Você quer beijar o tempo todo, ama o tempo todo, quer estar junto o tempo todo”, conta. Jorge e Domenica são hoje sócios de Eliane nos negócios da família.

    “Ser mãe de filhos pretos é muito delicado. Enquanto um filho branco sai pra ir pra faculdade, sai pra se divertir. Meu filho preto saiu para a faculdade para ser ativista e eu tenho que rezar muito. É uma tensão o tempo todo”, revela a advogada que aprendeu desde muito cedo como as questões raciais pesariam em sua vida.

    Eliane conta que foi na escola onde teve a consciência de que ser preta é luta. Sua irmã, filha de um homem branco, tinha mais ajuda da professora na sala de aula do que ela, por exemplo, que tem a pele mais escura. “Eu lembro como se fosse hoje. Nesse momento, eu entendi que ser uma menina preta, eu ia sofrer ou eu ia ter caminhos fechados ou eu não ia ter facilidades.”

    Candomblecista, filha de Iansã com Oxalá, a empresária tem na espiritualidade uma força muito forte. “Eu lido com a minha espiritualidade, colocando ela em prática. O que tem que ser é, eu luto. Eu jamais vou desistir, achar que eu não sou essa pessoa confiante que eu não posso fazer. Não, eu posso fazer sim”, reforça a empresária que quer usar a sua potência para dar voz às mulheres pretas.

    Ser uma mulher preta num país que estruturalmente está ali preparado para dizer não para nós é muito louco. Eu quero, em primeiro lugar, dar voz para as mulheres pretas porque nós somos um alicerce ali, nós somos a base

    Eliane Dias

    E é nessa base que Eliane Dias se fortalece. Hoje, sua base é o Capão Redondo, extremo sul da capital paulista, bairro onde está a produtora Boogie Naipe. A escolha do local não foi por acaso.

    “Quando eu aluguei essa casa aqui foi uma estratégia. Eu queria que as pessoas que fossem trabalhar comigo entendessem o porquê eu sou assim, o porquê o Racionais MCs é assim. E para esses empresários entenderem, eles tinham que vir até aqui.”

    Além de representatividade, estar no Capão Redondo representa acolhimento. “Aqui é o meu espaço. Eu sei onde eu estou, eu sei pra onde eu vou, por que que eu vou, como é que eu funciono, eu sei como funciona aqui. A minha família está toda aqui”, ela diz.

    “Então pra que eu vou sair do lugar onde eu sou bem tratada para ir para um lugar para ser maltratada? Não vou dar meu dinheiro para ser maltratada de jeito maneira. Meu dinheiro tem que ser bem usado. Eu faço black money aqui, eu faço dinheiro circular na minha quebrada”, finaliza Eliane, com a alma e o sorriso de quem sabe muito bem o que quer.