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    Filme de Jean-Luc Godard foi censurado no Brasil em 1986

    Diversas cartas foram enviadas ao então presidente, José Sarney, alegando que o filme "Je Vous Salue, Marie" era um sacrilégio, que possuía cenas ofensivas para os católicos

    Imagem do filme "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard
    Imagem do filme "Je vous salue, Marie", de Jean-Luc Godard Reprodução/Je vous salue, Marie

    Isabella Fariada CNN

    em São Paulo

    Mesmo depois da Ditadura Militar, havia censura prévia no Brasil. Qualquer filme que fosse exibido no país, até 1988, deveria passar pela avaliação da chamada Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal.

    Em 1986, durante o governo de José Sarney, o filme “Je Vous Salue, Marie” (“Eu Vos Saúdo, Maria”, em português), de Jean-Luc Godard, passou pela mão dos censores, cuja decisão não foi consensual, mas, acabou por proibir o filme de circular no Brasil.

    A história da produção é simples e clássica: Marie (Myriem Roussel) é uma estudante que trabalha no posto de gasolina do pai e gosta de jogar basquete. Joseph (Therry Rode) é seu namorado e dirige táxis por Paris dos anos 80.

    Marie, então, recebe a notícia de um estranho (Philippe Lacoste) de que será mãe. Ele se chama Gabriel e é bruto, fuma, anda de táxi e diz o que quer sem rodeios.

    Ao saber da gravidez de Marie, Joseph a acusa de infidelidade, já que, por dois anos, não houve qualquer ato sexual entre o casal.

    É, de fato, um filme polêmico dentro da religião cristã. Há diversas cenas de nudez, longos monólogos sobre a relação do sexo com a natureza, além de uma sequência na qual um ginecologista atesta a virgindade de Marie.

    Após uma gravidez conturbada, Jesus, por fim, nasce, e se revela uma criança mimada e curiosa, principalmente em relação ao corpo da própria mãe.

    No Brasil, uma certa pressão popular conseguiu o que queria, portanto. Diversas cartas foram enviadas ao então presidente, José Sarney, alegando que o filme era um sacrilégio, que possuía cenas ofensivas para os católicos e que pintava uma imagem mundana de Nossa Senhora.

    A explicação para a censura foi dada através do porta-voz da Presidência para o jornal Estado de São Paulo. Segundo Fernando César Mesquita, o presidente, apesar de não ter visto o filme, por ser um homem “profundamente religioso […] atendeu a um apelo da Igreja. Ele vai à missa todos os domingos, lê sempre o Evangelho, e não iria contrariar o espírito cristão do povo brasileiro”.

    O governo também afirmou que levou em consideração as orientações do Papa João Paulo II e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), já que ambos disseram que o filme possuía “”temas fundamentais da fé cristã, deturpando e vilipendiando a figura sagrada da Virgem Maria”.

    Diante de tantas dificuldades, a curiosidade entre os espectadores já estava plantada. Algumas instituições, como a PUC de São Paulo e a USP, ainda tentaram exibir o filme na época, que foi confiscado.

    Porém, o longa seria “livre” dois anos depois. Com a Constituição brasileira de 1988, a Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal deixou de existir e a censura prévia no Brasil foi abolida.