Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    #CNNPop

    João Donato morre aos 88 anos no Rio de Janeiro

    Velório será realizado no Theatro Municipal do Rio, em horário a ser divulgado

    João Donato durante apresentação no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.
    João Donato durante apresentação no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Gerardo Lazzari (Olhos da Terra Fotografia)

    Léo Lopesda CNN

    em São Paulo

    O pianista, cantor e compositor João Donato morreu, na madrugada desta segunda-feira (17), aos 88 anos, no Rio de Janeiro.

    “Hoje o céu dos compositores amanheceu mais feliz: João Donato foi para lá tocar suas lindas melodias”, escreveu uma mensagem no perfil do músico no Instagram.

    “Agora, sua alegria e seus acordes permanecem eternos por todo o universo”, acrescentou.

    Seu velório será realizado no Theatro Municipal do Rio, em horário a ser divulgado.

    A Casa de Saúde São José, que fica na zona sul do Rio, informou em nota que o falecimento foi às 3h20 desta segunda. A causa da morte não foi divulgada.

    No final de junho, o cantor publicou uma foto com seu filho, Donatinho, “depois de 26 dias de molho no hospital”, mas não indicou a razão da internação.

    Donatinho publicou, nesta segunda, uma foto com João e a legenda: “A lei do amor é bem maior!”

    João iria se apresentar em São Paulo em setembro, no Coala Festival, em uma apresentação especial com o cantor Martinho da Vila.

    “Com profunda tristeza e pesar, lamentamos a perda de um dos grandes gênios musicais de todos os tempos. Obrigado por tudo, João”, publicou o perfil oficial do festival nas redes sociais.

    Recentemente, Donato também excursionou com o cantor Jards Macalé, com quem lançou em 2021 o disco “Síntese do Lance”, com dez músicas inéditas.

    O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) também soltou nota sobre a perda de Donato, ressaltando que ele foi “um dos importantes representantes da Música Popular Brasileira e da Bossa Nova”.

    Segundo escritório, o instrumentista deixa como legado musical mais de 442 composições e 718 gravações cadastradas na gestão coletiva da música no Brasil.

    Além disso, a música “A rã”, com Caetano Veloso, foi a canção de autoria de Donato mais regravada. “No ranking das mais tocadas nos últimos 10 anos no Brasil nos principais segmentos de execução pública, a liderança ficou com “A paz”, composição em parceria com Gilberto Gil”, complementam.

    A lei de direitos autorais determina que os herdeiros de João Donato e os autores parceiros, em caso de músicas feitas em parceria, continuarão a receber rendimentos das obras do artista por 70 anos.

    Homenagens

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lamentou a perda de “um de nossos maiores e mais criativos compositores”, a quem chamou de “um dos gênios da música brasileira”.

    “João Donato via música em tudo. Inovou, passou pelo samba, bossa nova, jazz, forró e na mistura de ritmos construiu algo único. Manteve-se criando e inovando até o fim. Que encontre a paz que tanto cantou. Sua música permanecerá conosco. Meus sentimentos aos familiares, amigos, músicos que nele se inspiraram e fãs no mundo todo”, escreveu Lula.

    A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também manifestou seu pesar pela morte de João.

    “A música popular está de luto. A morte de João Donato deixa o Brasil e o mundo tristes. Ele era um gênio e um músico profundamente identificado com o país. Meus sentimentos a Ivone Belém e família. As melodias de João estarão para sempre na alma do povo brasileiro”, publicou no Twitter.

    Nas redes sociais, artistas lamentaram a morte do pianista.

    “João Donato foi um dos seres humanos mais incríveis que conheci nessa passagem, um brasileiro sensacional… me chamava de Marcelinho e isso enchia meu coração. Vou sentir muito sua falta, meu amigo, descanse em paz”, escreveu o cantor Marcelo D2.

    O músico Wilson Simoninha lembrou Donato como “um dos grandes mestres da nossa música”: “Lembro com carinho da emoção de ter tocado com ele em um programa do Serginho Groisman e ter passado a tarde no camarim conversando e escutando suas histórias foi incrível. Meus sentimentos Donatinho e toda família. Seguiremos escutando seus acordes e suas canções.”

    Expoente da Bossa Nova

    Natural de Rio Branco, no Acre, João Donato de Oliveira mudou-se para o Rio de Janeiro aos 11 anos, em 1945.

    Foi na capital fluminense, tocando em festas de colégio e participando de jam sessions que João se aproximou do jazz, tocando na sede do Sinatra-Farney Fan Club e na casa do cantor carioca Dick Farney, quem conheceu quando ambos trabalharam no hotel Copacabana Palace.

    João Donato
    João Donato / Renan Perobelli

    Em 1951, começa a trocar o acordeom da infância pelo piano. Cinco anos depois, mudou-se para São Paulo, mesmo ano em que começou a tocar no grupo “Os Copacabanas” e gravou seu primeiro disco, o LP “Chá Dançante”, pela gravadora Odeon, com produção do maestro tijucano Antônio Carlos Jobim.

    “João Donato é um dos precursores da bossa nova, por sua atuação como pianista e compositor desde o início dos anos 1950. É moderno para a época, e seu piano já apresenta um toque diferente de tudo o que existe no momento”, relata a Enciclopédia Cultural do Itaú.

    No final dos anos 1950, trabalhou com a cantora Elizeth Cardoso, em seguida, viveu por três anos nos Estados Unidos, e também excursionou pela primeira vez tocando com João Gilberto.

    “Enquanto nos Estados Unidos, sua canção “Minha Saudade” (1955), parceria com João Gilberto, permeia o repertório das primeiras apresentação e festivais de bossa nova, estilo musical de fins da década de 1950”, descreve a Enciclopédia do Itaú.

    Fez trabalhos com artistas como Astrud Gilberto, Dorival Caymmi, e os americanos Nelson RIddle e Wes Montgomery.

    Após voltar ao Brasil, no início dos anos 1970, grava o disco “Quem é Quem”, onde o até então intérprete de música instrumental aparece cantando pela primeira vez.

    “Suas composições são instrumentais, ganhando letra a posteriori. “As minhas primeiras letras surgiram a partir desses temas instrumentais já gravados, que eu pensava que não iam ter letra nunca. Bananeira era Villa Grazia, o nome da pousadinha onde a gente ficou em Lucca, na Itália, acompanhando o João Gilberto numa temporada (…). Noventa e nove por cento das minhas músicas instrumentais trocaram de nome, por causa da letra” diz João Donato. Outro exemplo é a música “Índio Perdido”, que muda para “Lugar Comum” após receber a letra de Gilberto Gil (1942)”, destacou a Enciclopédia Cultural.

    Fez parcerias com Gilberto Gil, como “A paz”, “Bananeira” e “Lugar Comum”, com Caetano Veloso, como a famosa “A Rã” e “Surpresa”, com Chico Buarque fez “Cadê Você”, com Martinho da Vila, por exemplo, “Gaiolas Abertas” e “Daquele Amor Nem Me Fale” e, com Cazuza, “Doralinda”.

    “As composições de Donato possuem característica marcante: a primeira frase rítmica repete-se no decorrer da música, como em “A Rã”, “Até quem Sabe”, “Lugar Comum”, “Amazonas” e “Cadê Você”. Às vezes mantém a mesma melodia, alterando somente a harmonia, como é o caso da segunda parte da música “A Rã”. Não trabalha em cima da composição, mas dos arranjos”, completou a análise da Enciclopédia.

    Depois dos anos 1990, passou a lançar discos principalmente por gravadoras independentes. Ganhou o Grammy Latino de 2010 na categoria “Melhor Álbum de Latin Jazz” pelo disco “Sambolero”.

    Ele voltaria a ser indicado ao prêmio, na categoria de “Melhor Instrumental”, com o álbum “Donato Elétrico”, em 2016, considerado o 16º melhor álbum brasileiro do ano pela revista Rolling Stone Brasil.

    Morador do bairro da Urca, na zona sul da capital fluminense, Donato era casado desde 2001 com a jornalista Ivone Belem. Ele deixa os filhos Jodel, Joana e Donatinho.