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    Lenda da bossa nova, Alaíde Costa cantará no Carnegie Hall, em NY, 60 anos após ser esquecida em show histórico

    Sala de espetáculos recebeu show em 1962 que marcou fixação da bossa nova nos EUA; intérprete precursora do movimento, Alaíde não foi convidada para a ocasião há seis décadas

    A cantora Alaíde Costa.
    A cantora Alaíde Costa. Ênio César

    Léo Lopesda CNN São Paulo

    A cantora Alaíde Costa se apresentará, no próximo domingo (8), no Carnegie Hall, em Nova York, nos Estados Unidos.

    Ícone e ponta de lança da bossa nova, prestes a chegar aos 88 anos, a carioca cantará na sala de espetáculos, uma das mais renomadas do planeta, em uma forma de reparação histórica após mais de seis décadas.

    O convite para a participação de Alaíde aconteceu através da marca Johnnie Walker, em uma campanha criada pela agência AlmapBBDO.

    “É uma enorme satisfação finalmente poder levar meu canto ao palco que mostrou a nossa música para o mundo nos anos 1960. Agora vão mostrar Alaíde Costa!”, disse a cantora, em comunicado divulgado à imprensa.

    A bossa nova e o Carnegie Hall

    Neste domingo (8), acontece o espetáculo nomeado de “Bossa Nova: The Greatest Night”, com artistas brasileiros como Seu Jorge, Daniel Jobim (neto de Tom Jobim), Carlinhos Brown, além de participantes da bossa nova, como Roberto Menescal e Alaíde Costa.

    A cantora Alaíde Costa.
    A cantora Alaíde Costa. / Reprodução

    Há mais de 60 anos, dezenas de músicos brasileiros participaram de uma apresentação no Carnegie Hall que – apesar de caótica e muito criticada – virou marco da fixação da bossa nova em território americano.

    O show de 1962 incluiu protagonistas da bossa, como Tom Jobim, João Gilberto e Carlos Lyra, por exemplo, e até mesmo muitos nomes de artistas de outros estilos.

    Apesar de envolvida e interpretando canções no movimento desde seus primeiros passos, Alaíde Costa foi relegada.

    A apresentação em si foi muito criticada à época e, conforme analisa o jornalista Ruy Castro, apesar de ser vista como o show que “acabou de implantar” a bossa nova nos EUA, não foi fundamental para a expansão do movimento.

    “Em 1962, meses antes do Carnegie Hall, a bossa nova já chamara a atenção de muita gente boa. O flautista Herbie Mann viera ao Rio em abril e gravara um disco inteiro com Jobim, Baden Powell e o pessoal do Beco das Garrafas. Na mesma época, em Nova York, Miles Davis estava gravando “Corcovado”, mas o disco só seria lançado depois do estouro de Stan Getz e Charlie Byrd com “Desafinado”. Ou seja, em novembro, a bossa nova já estava pronta para explodir no Carnegie”, escreveu Castro, um dos maiores especialistas no tema.

    Em seu livro “Chega de Saudade”, ele retrata o episódio caótico que foi a organização e realização desse show. Em 21 de novembro de 1962, três mil pessoas lotaram o Carnegie Hall. No entanto, a maioria do público pouco ouviu do que se tocou.

    “Todos os contratempos com o som até vieram a calhar para esconder as inúmeras derrapadas e equívocos que artistas e técnicos cometeram durante o show, e que, depois, a imprensa brasileira explorou com sádica satisfação, ao se referir ao “fracasso da Bossa Nova” no Carnegie Hall”, relembrou Castro.

    A apresentação também foi massacrada na imprensa internacional. O New York Times, por exemplo, disse que o sistema de som reduziu os instrumentos brasileiros a uma “papa monótona”. Já a revista New Yorker chamou a bossa nova de “hotel music”, incolor e inodora e encerrou com a famosa frase “Bossa nova, go home!” (Vá para casa, bossa nova!, em tradução literal).

    Alaíde Costa: “Errata de 70 anos”

    A apresentação de Alaíde em Nova York é a segunda etapa de uma campanha, dividida em duas fases. Na primeira delas, no último domingo (1º), foi publicado em página dupla no jornal Folha de São Paulo um texto intitulado: “Errata de 70 anos”.

    “A bossa nova passou quase setenta anos sabendo de cor quem eram seus pais, mas nunca compartilhou a história de uma das suas mães: Alaíde Costa”, relata a publicação.


    A trajetória da cantora é retraçada no texto, como seu primeiro disco de bossa nova, bancado de seu próprio bolso, em 1961, produzido e arranjado por Baden Powell.

    Ao relembrar o show do Carnegie Hall de 1962, o texto escreve: “O que não deve ter lido é que Alaíde sequer foi informada, quem dirá convidada. Muitos dos que participaram desse show sequer faziam parte do movimento. Isso se repetiu algumas vezes. Alaíde foi deixada de fora de muitos dos grandes festivais de bossa nova, principalmente os que aconteciam no Rio de Janeiro. Em resumo, a bossa nova era a panelinha da qual Alaíde foi excluída.”

    Já na oitava década de vida, Alaíde passa agora, guardada as devidas particularidades, por um processo parecido pelo qual passou a cantora Elza Soares – quando, aos 85 anos, lançou seu primeiro álbum de inéditas, o aclamado “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), e conquistou uma nova geração de fãs.

    Nesse processo de “dar o devido valor”, Alaíde Costa lançou, no ano passado, seu primeiro disco de inéditas, “O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim”.

    “É o primeiro trabalho da cantora e compositora carioca cujo repertório foi todo pensado especificamente para ela. Não apenas para se vestir de sua voz tão singular. Mas também para se calçar de sua personalidade, em que doçura e força se equivalem e se complementam. Em alguma medida, o álbum vale como uma espécie de biografia musical da artista carioca e de seus 86 anos de caminhada – quase todos eles dedicados à música”, escreveu o jornalista Marcus Preto, um dos produtores do álbum.

    O disco faz parte de uma trilogia que a cantora deve lançar com a produção assinada, além de Preto, pelo rapper Emicida e com direção musical de Pupillo (Nação Zumbi).

    Para o segundo álbum, já foram lançados dois singles: “Moço” e “Ata-me”. Ela também está rodando o Brasil com três formatos de show.