Luedji Luna: “Se eu ganhar, será um carimbo de que a MPB está mudando”

Fenômeno da música brasileira, a cantora reflete sobre a importância de ter uma mulher negra no Grammy Latino, uma das maiores premiações do mundo

Luedji Luna cinco anos de carreira, dois álbuns e participação no Grammy Latino
Luedji Luna cinco anos de carreira, dois álbuns e participação no Grammy Latino Helen Salomão/Divulgação

Felipe Carvalhocolaboração para a CNN

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Luedji Luna plantou e colheu bons frutos mesmo quando todas as portas estavam fechadas para a música nos últimos tempos. Como costuma dizer, foram duas gravidezes em apenas um ano. No início de 2020, a cantora começou a produzir seu segundo disco enquanto gerava no ventre o único filho, Dayo, de seu casamento com o rapper Zudizilla.

O bebê nasceu em julho e já em outubro de 2020 ela “dava à luz” o álbum “Bom Mesmo é Estar Debaixo D’água”, produzido por ela e pelo guitarrista queniano Kato Change. Uma parceria que deu tão certo que o trabalho foi indicado ao Grammy Latino, na categoria “Melhor Álbum de Música Popular Brasileira”. A premiação acontece nesta quinta-feira (18), em uma cerimônia em Las Vegas.

Comandado pela atriz brasileira Carolina Dieckmann e pela cantora e compositora Kany García, vencedora do Grammy, o evento pode ter a presença de Luedji Luna em dose dupla: antes da entrega dos troféus, ela sobe ao palco com Kato para um pocket show.

“Eu não diria que [a indicação] foi uma surpresa porque esse segundo disco, por si só, já me trouxe muita pressão e gerou muita expectativa. Então, fiz um trabalho sabendo dessa responsabilidade, sobretudo quando você faz um primeiro de muito sucesso. Eu caprichei, dei o melhor de mim”, diz Luedji em conversa por Skype com a CNN – a cantora já está em Las Vegas.

“Lógico que fiquei extremamente feliz e radiante com a indicação ao prêmio. Esse ano, com o retorno, eu já fiz alguns shows, mas o Grammy foi a consolidação”, comemora.

Parte do álbum foi gravado em Nairóbi, capital do Quênia, enquanto a outra foi produzida em São Paulo, cidade que a soteropolitana escolheu para viver. Luedji nasceu na capital da Bahia, filha de pais funcionários públicos, e nunca teve uma referência musical dentro da família, a não ser um tio que tinha uma banda de reggae e o pai que tocava aos finais de semana com os amigos. Ela diz que, desde a infância, sentia a faísca da música flamejando dentro do peito e, na época em que fazia faculdade de Direito, decidiu que iria cantar.

“Só veio à minha cabeça ‘eu vou cantar. Não sei como vai ser ou como vou fazer, mas eu vou’”, reflete / Helen Salomão/Divulgação

“Eu tinha uma tristeza que eu não sabia qual era o nome, se era depressão ou melancolia. Tentava resolver com gozo, prazer, ia para shows e bebia, mas nada preenchia. Para curá-la, passei a fazer terapia, ioga, reiki e, na medida em que fui me curando, veio o chamado”, lembra.

“Só veio à minha cabeça ‘eu vou cantar. Não sei como vai ser ou como vou fazer, mas eu vou’. Foi um despertar mesmo. Associo muito a esses processos de autoconhecimento, olhava para dentro e meu espírito me conduziu, dizendo ‘olha, seu caminho é esse’. Depois, tudo aconteceu em cinco anos porque, de fato, era para acontecer”, acredita Luedji.

Diferentemente de outras mulheres cantoras da Bahia, que já fazem muito sucesso dentro do axé music, Luedji queria apostar na música popular brasileira e começou a se envolver com o jazz, MPB e musicalidades de origem africana, influências que compõem o atual álbum de trabalho.

Ela explica que esse disco é um recado sobre o amor na perspectiva das mulheres pretas, que têm esse sentimento negado em uma sociedade de normativa branca.

“O racismo destituiu a nossa humanidade nesse sentido também. Se você tem um corpo demonizado, coisificado e animalizado, esse corpo não é digno de amor. A proposta é reconstituir esse sentimento, trazê-lo para perto, contar as nossas histórias a partir do nosso olhar”, argumenta.

A cantora continua. “Ainda que clichê, é um tema que se politiza nesse disco. Meu trabalho tem composições minhas e de outras mulheres negras, com discursos e poéticas. Estamos em um país em que nossas vozes são apagadas. Não se espera de uma mulher negra saber, ter conhecimento e produzir escrita. Então este é um disco que rompe paradigmas em vários níveis. Ir para o Grammy com este trabalho específico é muito simbólico.”

Marcia Shot, cantora com 35 anos de carreira na Bahia, conhece bem o trabalho da conterrânea. Ela ovaciona a indicação de Luedji ao Grammy e afirma que a artista tem colhido o que semeou desde quando lançou o primeiro disco, “Um Corpo no Mundo”, que foi criado com uma riqueza de sentimentos e de profundidade.

“Ela é uma mulher negra, cheia de história e vivências próprias, com suas referências e, claro, com seu jeito único de cantar. A Bahia tem uma vastidão de artistas negras, cantoras, compositoras e músicos, que fizeram e fazem arte de forma linda e plena. Ver, ouvir e sentir Luedji nos coloca num lugar de alegria. Alegria por vermo-nos estampadas nas paradas, nas bocas das pessoas e isso é bom demais, pois precisamos ter representatividade e holofotes para essa vastidão de artistas”, salienta.

Representatividade feminina negra

Historicamente, a mulher negra brasileira sempre ocupou um lugar de diva dentro da música, com cantoras e intérpretes, principalmente no samba, como Leci Brandão, Beth Carvalho e dona Ivone Lara. Mas a MPB ainda é um lugar de disputa, segundo Luedji. A artista acredita que faz parte de uma geração que está mudando esse paradigma, sobretudo como compositora.

A dona do hit “Banho de Folhas” diz que as mulheres pretas estão se apropriando do próprio discurso e de todos os espaços possíveis dentro da música. Por esse motivo, ela explica que o segundo trabalho veio num momento especial em vários sentidos.

“Eu acho que se eu ganhar será um carimbo de que a música popular brasileira está mudando e contemplando outros corpos e discursos. Será algo muito bonito! A indicação já é enorme, mas se eu ganhar será um marco. Vamos martelar que essas mudanças que vêm acontecendo na internet, com novos nomes, estão fazendo a diferença e construindo uma nova história na música popular brasileira”, acredita.

“A mulher negra não é uma massa homogênea, temos individualidades e outros pontos que temos a somar” / Helen Salomão/Divulgação

Questionada sobre a representatividade feminina negra dentro do Grammy, Luedji prefere dizer que não faz música e não conduz a carreira com esse objetivo de representar as mulheres negras. Ela reafirma que este tema sempre foi importante para ela, mas recomenda que cada uma dessas mulheres olhe para dentro de si em busca das próprias qualidades e foque nos sonhos que têm.

A artista salienta que não teve grande referências dentro da MPB na música baiana e não via uma carreira como cantora como algo possível.

“Quando se pensa em representatividade, admito e compreendo que seja importante, mas é incompleta. A mulher negra não é uma massa homogênea, temos individualidades e outros pontos que temos a somar. Eu sou nordestina, magra, cisgênero, tive pai e mãe, estudei em colégio particular, enfim, muitos atravessamentos que fazem parte da minha música. O ideal, para mim, é que toda mulher preta tenha condições de falar por si mesma.”
Mesmo assim, Marcia Shot se emociona por saber que uma mulher preta e baiana pode ser a dona de um gramofone dourado. Ela diz que a Bahia tem uma riqueza, uma pluralidade musical que precisa ser conhecida, pois são muitas mulheres, intérpretes, compositoras, instrumentistas e sempre com tão pouca visibilidade.

“A internet e o digital trouxeram muitas possibilidades de projeção, mas também trouxeram desafios. Ser vista, ouvida e apreciada neste turbilhão não é tarefa fácil e Luedji chegou, conquistou – mulher, preta, mãe, cantora, compositora, empreendedora, ou seja, um reflexo das mulheres negras da Bahia e do Brasil”, comemora.

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