Mel Lisboa sobre thriller político: "Doce ilusão achar que temos controle"

À CNN Brasil, a atriz conta a experiência de viver jornalista em buscar da verdade na ditadura

Caroline Ferreira, da CNN Brasil
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Com direção de André Sturm, o thriller político "A Conspiração Condor" chega aos cinemas nesta quinta-feira (9). Muito além de uma obra do gênero, o filme é um acerto de contas com as lacunas da história brasileira.

No epicentro da trama, Mel Lisboa, 44, interpreta Silvana, uma jornalista que decide não ignorar o estranho alinhamento dos fatos: em 1976, no auge da ditadura militar, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart morrem com poucos meses de diferença.

 

À CNN Brasil, a atriz revela que o projeto foi, antes de tudo, um processo de autodescoberta. Embora conhecesse os fatos históricos dos livros escolares, a tese central do longa, a de que as mortes estariam conectadas em uma rede internacional de repressão, foi o que mais a instigou.

"Eu não sabia dos questionamentos que rondavam as mortes e nem dessa possibilidade da Frente Ampla. A Operação Condor em si, eu sabia, né? Mas essa tese que é levantada pelo filme, eu não sabia. Foi algo que me incentivou bastante a fazê-lo", explica.

A banalidade do mal e a ética do risco

Um dos pontos mais densos da narrativa envolve experimentos reais de controle social e obediência à autoridade, algo que transportou a protagonista para teorias filosóficas profundas.

"A história me fez lembrar da Hannah Arendt com a 'banalidade do mal'. Como que as pessoas, se estiverem sob uma autoridade, podem cometer atos atrozes porque estão sob um comando? Eu acho isso muito perturbador. A gente se pergunta: 'e se fosse comigo, será que eu faria uma coisa assim?'. Até que ponto vai a nossa ética?".

Diferentemente de outros personagens que habitam as sombras da ambiguidade política, Mel descreve Silvana como uma mulher de caráter linear, cuja bússola moral não vacila.

"Silvana tem uma ética única, não tem duas caras. Ela não é aquela personagem ambígua. Ela vai, independentemente do medo, da percepção de que está correndo riscos. Ela acha mais importante a busca pela verdade", define a atriz.

"Ela sabe que com isso pode alterar o destino político do país, e eu acho que esse é o potencial mais forte nela", acrescenta.

Da inocência à queima de arquivo

Na contramão de muitas protagonistas, Silvana não nasce heroína. Inclusive, a curva dramática da jornalista começa na desilusão cotidiana.

"Ela começa numa curva da inocência. Ela estava muito cansada do trabalho que fazia, desestimulada. E aí, de repente, se vê diante de um fato e de uma curiosidade. Aquilo faz com que ela se sinta viva, aquilo a move", diz a atriz.

Entretanto, o preço de toda essa vitalidade é o perigo real. "À medida que ela vai se aprofundando, começa a ter noção dos riscos aos quais está exposta. As cenas em que ela vê as testemunhas do 'acidente' serem mortas depois que ela foi atrás delas... aquilo é perturbador. Queima de arquivo. E a gente sabe que isso acontece", afirma.

O jornalismo investigativo na pós-mentira

Ao refletir sobre o papel do jornalismo investigativo, a protagonista traça um paralelo contundente entre a censura dos anos 1970 e a desinformação de 2026. Para ela, o controle hoje é mais sutil, porém igualmente perigoso.

"A gente se vê constantemente manipulado em prol de algum outro interesse. Hoje, a gente acha que tem controle porque tem o celular na mão, mas é uma doce ilusão. Você está sendo manipulado por algoritmos, por bolhas. Muita gente prefere ouvir uma mentira porque aquilo é mais confortável. Isso define o destino de uma nação."

Sem fugir de temas atuais, Mel cita também as recentes tensões políticas no país. "A gente acabou de sofrer uma tentativa de golpe e eu penso: 'caramba, não aprendemos nada?'. Por isso é importante fazer um filme desses, para que a gente possa refletir e não deixar que as pessoas se sintam no direito de tentar novamente".

De Thereza para Silvana: o peso de ser mulher na redação

Para os fãs da série "Coisa Mais Linda", da Netflix, o cenário de uma redação de época traz uma nostalgia inevitável. Lisboa, que deu vida à icônica Thereza, reconhece que a pesquisa anterior ajudou, mas ressalta as diferenças.

"O grande ponto em comum é a profissão e o contexto masculino. Se em 2026 a gente passa a vida provando que é capaz, imagina naquela época?", questiona.

Ela destaca ainda que a parceria de Silvana com a jornalista Marcela (Maria Manoella) no filme traz um respiro necessário à trama.

"Duas cabeças pensam melhor que uma. Tem essa união de uma jornalista respeitada, com contatos, e a outra com essa fome pela verdade. É um golpe importante do filme".

Para entrar no ritmo mais lento e denso de 1976, Mel lembra que os objetos de cena foram fundamentais.

"O figurino e a caracterização mudam o seu estado, o seu caminhar. As máquinas de escrever eram reais, saía a tinta mesmo. Tudo isso te ajuda a construir um outro ritmo que existia naquela época. Você não tinha internet, eram meses para conseguir uma informação", conclui.

Assista ao trailer:

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