Pop de luto: por que as grandes artistas desistiram de músicas alegres?

Ariana Grande, Olivia Rodrigo e Charli XCX lançaram canções que vão na contramão do clima de verão nos EUA

Scottie Andrew, da CNN Brasil
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O verão está quase chegando nos Estados Unidos, e estamos todos condenados.

É o que diz Charli XCX, que abandonou a festa em suas novas músicas e, em vez disso, voltou seu olhar para a morte e a destruição: “O mundo vai acabar, não há esperança para nada disso”, ela canta em “SS26”, seu single mais recente. Charli e as proeminentes divas do pop Olivia Rodrigo e Ariana Grande estão lançando algumas das músicas mais sombrias de suas carreiras bem a tempo do verão — a temporada tradicional de hinos de festa e batidas comemorativas.

Charli encara o fim do mundo de frente em seu recém-anunciado álbum “Music, Fashion, Film”, cuja capa traz uma foto em preto e branco de lendas vivas de seus respectivos campos: John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese. Com base em suas expressões carrancudas, o trio parece concordar com a afirmação que Charli faz em seu novo single: “nada vai nos salvar, nem a música, a moda ou o cinema”.

Se em “Brat” Charli queria “dançar a noite toda” em uma euforia suada, em suas novas músicas ela parece ter perdido a esperança. Em “Rock Music”, o primeiro single de seu novo álbum, Charli diz que acha que “a pista de dança está morta”. Em “SS26”, ela divide a diferença entre o tédio e a resignação diante do apocalipse iminente: “Estamos caminhando em uma passarela que vai direto para o inferno”.

Charli não está fingindo que os males do mundo podem ser curados com uma noite suada de dança entre amigos. Os EUA estão travando uma guerra no Irã. A economia está à beira do que parece ser um colapso constante. Noites escaldantes são apenas mais um sinal de que o clima do planeta está superaquecendo. Clássicos das pistas de dança não podem fazer muito a respeito disso.

Rodrigo, cujas músicas anteriores sobre o amor tendiam para o grunge e o triunfo, azedou em relação ao romance em seus novos singles de verão. O amor é uma doença e a luxúria vai te matar, ela anuncia em seu próximo álbum, “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love” (Você Parece Meio Triste para uma Garota Tão Apaixonada).

“Não importa mais como é a sensação do seu amor / Ele nunca será a cura”, ela canta.

E Grande, dona de agudos potentes, refrões grudentos e notas de apito estridentes, soa totalmente letárgica em “Hate That I Made You Love Me”. “São só notícias ruins”, ela cantarola em seu single mais melancólico em quase 15 anos de superestrelato pop.

Os fãs não sabem muito bem o que pensar dessa dissonância sombria. Muitos ouvintes que curtiram o som industrial e pronto para as pistas de “Brat” estão mais frios em relação à batida simplista e lenta e às letras elementares de “Rock Music”. Anthony Fantano, da série online viral Needle Drop e fã dedicado de Charli, chamou a música de “decepcionante”. Outro fã confesso disse sem rodeios que era “uma porcaria intragável”. O novo single de Grande é tão contido e vocalmente sem graça que a New York Magazine o considerou “um dos piores de sua carreira”.

Com a rejeição das pistas de dança, morre a esperança de que uma dessas mulheres produza a "música do verão" — aquele chiclete tradicionalmente animado e perfeito para festas na piscina. Há alguns verões, pode ter sido “Espresso”, “Not Like Us” ou “Hot to Go!”. Uma música sobre “vibe de incesto real”, como “Rock Music” de Charli, é mais difícil de vender. É possível, também, que os ouvintes não queiram mais um hino de verão superficial, que isso não represente honestamente o presente sombrio deles.

Enquanto as jovens superestrelas do pop abandonam a curtição para se entregarem à fossa, a crise existencial delas apresenta uma oportunidade para uma incansável artista de 67 anos. Madonna prometeu uma sequência de “Confessions on a Dance Floor”, sua odisseia das pistas de 2005, para o início de julho.

“A pista de dança não é apenas um lugar... é um limiar”, disse Madonna em uma postagem no Instagram para uma empresa de recompensas de cartão de crédito. “A espaço ritualístico onde o movimento... substitui a linguagem.”

Mas as outras grandes estrelas pop do momento não parecem interessadas em catarse neste verão. Elas não estão alimentando fantasias escapistas em suas novas músicas, mas sim se plantando na realidade junto com seus ouvintes, onde a energia é negativa e o fim parece inevitável.

Madonna já fez música em meio a várias calamidades que, na época, pareciam o fim do mundo — guerras, agitação política, colapso financeiro —, então os terrores de 2026 não parecem abalá-la.

“Se a sua pista de dança parece morta”, escreveu ela em outro post, “talvez você esteja tocando a música errada”.

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