“O Gambito da Rainha” provocou um pico no interesse por xadrez em novas gerações

Vendas e pesquisas pelo jogo antigo explodiram após o lançamento da série

A série o "Gambito da Rainha" causou interesse das novas gerações no xadrez
A série o "Gambito da Rainha" causou interesse das novas gerações no xadrez Foto: Netflix

Faith Karimi,

da CNN

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David Bradley passa a maioria de seus finais de semanas engajado em partidas de xadrez intensas com sua filha de 15 anos, Zoe. Eles encaram o tabuleiro por horas a fio e planejam seus próximos movimentos, consumidos pelo novo passatempo.

A rivalidade começou recentemente, depois que pai e filha canadenses começaram a assistir “O Gambito da Rainha”, uma minissérie da Netflix sobre uma menina prodígio do xadrez. Zoe nunca havia jogado xadrez antes, mas pegou o jeito rapidamente, disse Bradley.

“Ela é incansável. Jogamos desde a hora em que ela acorda – ao meio-dia, como muitos adolescentes – até a hora em que vai dormir, com alguns intervalos no meio”, ele disse. “Eu a imagino em seu quarto olhando para o teto e repensando nossos jogos”.

Bradley tem 58 anos e cresceu nutrindo suas habilidades no xadrez com seu avô, mas não jogava havia mais de 15 anos. Após assistir a jovem protagonista da série impressionar o mundo majoritariamente masculino do xadrez com suas jogadas brilhantes, ele quis encarar o jogo novamente – desta vez com sua filha.

Eles têm companhia. O xadrez se tornou mais popular neste ano, quando as pessoas procuravam novos hobbies para praticar em casa enquanto enfrentavam a pandemia do novo coronavírus. E então veio “O Gambito da Rainha”, e o interesse disparou. As vendas de tabuleiros de xadrez explodiram e antigos jogadores casuais como Bradley estão desenferrujando as habilidades.

Fenômeno cultural

“O Gambito da Rainha” é uma história fictícia sobre uma menina órfã de Kentucky, nos Estados Unidos, durante os anos 1960 que se torna (sem spoileirs aqui) uma campeã do xadrez enquanto ainda era adolescente. A personagem principal precoce, Beth Harmon, luta contra vícios em remédios e álcool – e alguns estereótipos machistas sobre suas habilidades no jogo – enquanto derrota um homem enxadrista famoso após o outro.

A série é baseada em um livro de Walter Tevis lançado em 1983 de mesmo título. Ela dá ao xadrez uma imagem de retro cool, levando a cada vez mais glamurosa Beth para torneios em Las Vegas, Cidade do México e Paris, enquanto também conquista os enxadristas entusiastas pelo retrato autêntico do jogo.

Nick Barton, diretor de desenvolvimento na plataforma Chess, disse que o programa tem sido um fenômeno cultural para os fãs do xadrez. Muitos espectadores se identificam com os temas de vício, perdas, conflito pessoal e transpor adversidades, ele afirma.

“Também é interessante que as cenas de partidas de xadrez foram as mais brilhantes e os retratos mais precisos do jogo em seu mais alto nível”, disse Barton.

Milhões de novos fãs acessaram o site da Chess para jogar e aprender sobre o jogo, dando ao site seu maior crescimento anual desde o lançamento em 2007, disse. Desde março, foram somados 12,2 milhões de novos membros, incluindo 3,2 milhões que se juntaram após o lançamento da minissérie no fim de outubro.

Um escape da pandemia

O xadrez vem ressurgindo nos últimos anos, com o atual campeão mundial Magnus Carlsen – um jovem norueguês que já foi também um prodígio – se tornando (quase) um ídolo internacional.

O jogo possui mais de mil anos e é reverenciado pela forma que seus elementos aparentemente simples – 32 peças em um tabuleiro com 64 quadrados – podem produzir estratégias infinitas de ataque e defesa. O objetivo do jogo é dar um cheque-mate no rei de seu oponente, cercando-o com peças que limitem seus movimentos.

O xadrez recompensa os jogadores que conseguem visualizar o tabuleiro de formas criativas e enxergar diversos movimentos adiante.

“Houve uma mudança cultural mundial na última década, na qual o aprimoramento de si mesmo e adquirir novas habilidades são mais valorizados que nunca”, disse Barton.”Foi possível ver isso no início da pandemia, quando as pessoas estavam aprendendo a assar pães ou uma nova língua, e o xadrez não ficou de fora.”

Em um ano caótico onde o mundo lá fora pode ser ameaçador, a estabilidade e intimidade de um jogo de xadrez podem prover um espaço aconchegante.

“O xadrez é um jogo de informação completa, de certezas e igualdade. É um jogo de socialização, e que constrói relacionamentos próximos”, afirma Barton. “Eu diria que em circunstâncias normais, é uma metáfora boa para a vida. Mas em um ano de incertezas e distanciamento social, parece que 2020 e xadrez online estão em lados opostos do espectro”.

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Tabuleiros de xadrez estão vendendo como água

Um número recorde de residências assistiu “O Gambito da Rainha” em seu primeiro mês de estreia.

O sucesso do programa como uma das séries limitadas mais populares da Netflix também levou a um interesse massivo em itens relacionados ao xadrez.

Nas três primeiras semanas após o lançamento, as vendas de tabuleiros de xadrez cresceram 87% nos Estados Unidos, e a venda de livros sobre o jogo aumentaram em 603%, de acordo com a empresa de pesquisa em marketing, NPD Group. Antes de 2020, as vendas de livros sobre xadrez e tabuleiros permaneceram estáveis ou até diminuíram por anos, disse Juli Lannett, que trabalha para a NPD.

As pesquisas no Google sobre xadrez explodiram de outubro até o mês passados. E sites de venda de artesanato, como o Etsy, assistiram a um aumento de 364% nas pesquisas sobre itens de xadrez em comparação com o mesmo período em 2019, disse a porta-voz Hannah Album.

Natalie Tague, de 23 anos, comprou um novo tabuleiro de xadrez após ver a série. A moradora de Lyndhurst, em Nova Jersey, jogava xadrez quando era mais nova, mas perdeu o interesse no jogo, até que assistiu “O Gambito da Rainha”. Agora ela joga com seu pai e amigos constantemente.

Um jogo de xadrez é consistente e respeitoso às regras, e provê estrutura em um momento onde não há nenhuma certeza, ela disse.

“Com tantas incertezas em sua vida, Beth usa o xadrez como sua constante”, disse Targue. “É algo em que posso me ancorar no dia a dia”.

A mensagem do programa ressoa em mulheres – e pais

Xadrez tradicionalmente é visto como uma atividade cerebral, um jogo majoritariamente praticado por homens.

A húngara Judit Polgar, considerada por muitos a melhor jogadora mulher e uma vez a mais jovem mestre do jogo da história, com 15 anos, acredita que a série do Netflix pode ajudar a mudar essa dinâmica.

“Pode aumentar a promoção do jogo para meninas imensamente”, disse Polgar no mês de novembro. “E eu espero que mais meninas…sejam apoiadas por seus pais, professores e treinadores, que se possuírem talento, podem alcançar seu potencial máximo. 

Ao aumentar o interesse das pessoas no xadrez, O Gambito da Rainha também deu aos pais e seus filhos uma nova atividade para compartilhar. As redes sociais estão cheias de postagens com histórias parecidas com a de Bradley – pais usando a série, e o xadrez, para conectar-se com suas filhas. 

Como pai de uma adolescente, Bradley afirma que tem dificuldades em encontrar atividades que eles possam aproveitar juntos. Mas a série e o xadrez se tornaram bons pontos de partidas para conversas maiores.

Apesar de ser uma iniciante, Zoe está indo muito bem. Ela ainda não derrotou o pai no xadrez, ele disse. Mas nessa semana, pela primeira vez, chegaram a um empate.

(Texto traduzido do inglês. Leia o original.)

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