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O medo tem voz feminina: autoras discutem representatividade no suspense

À CNN, Lisa Jewell e Jeneva Rose celebram atual destaque à mulheres no gênero, falam sobre importância do olhar feminino e evidenciam mercado que pode ainda ser permeado pelo machismo

Nicoly Bastos, da CNN Brasil
Pessoas estudando
Mercado publicitário pode ser, ainda, muito machista  • Alexis Brown/Unsplash
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Por muito tempo, o suspense e o terror foram percebidos como territórios majoritariamente masculinos -- tanto nas prateleiras quanto nas narrativas. Mas autoras como Lisa Jewell e Jeneva Rose vêm mudando o mapa do gênero ao trazer para a frente histórias que exploram o medo cotidiano, a intimidade emocional e as camadas psicológicas do que significa viver com inseguranças e ameaças.

Em entrevista exclusiva à CNN, Lisa Jewell e Jeneva Rose, celebram um atual destaque a mulheres no gênero, falam sobre como o olhar feminino está transformando o medo em arte com complexidade emocional, precisão psicológica e coragem criativa e evidenciam um mercado que pode ainda ser muito permeado pelo machismo.

Narradoras do medo

Conhecida por best-sellers como "Nada Disso É Verdade" e "A Família Perfeita", Lisa Jewell começou carreira escrevendo comédias românticas, até que percebeu que queria explorar o lado mais sombrio das relações humanas. “Eu comecei escrevendo romances e não tinha nenhuma ambição de escrever suspense até cerca de 2015”, conta ela. “Mas percebi que não queria mais histórias leves -- queria algo com mais profundidade e que me desafiasse criativamente.”

A transição veio naturalmente, quando passou a se sentir mais confiante como escritora e quando foi ganhando mais relevância no meio:

“Eu fui ficando um pouco mais sombria com os temas sobre os quais escrevia e então, cerca de dez livros atrás, escrevi o que se poderia chamar de meu primeiro thriller — e desde então não olhei mais para trás.”

Desde então, suas obras vêm sendo marcadas por personagens femininas fortes, muitas vezes imperfeitas, mas sempre humanas, como ressalta na entrevista. Segundo ela, é importante que existam mulheres com personalidades complexas nas obras.

Jeneva Rose, autora de "O Assassinato no Verão de 1999", também cresceu imersa no terror -- e traduziu esse fascínio em histórias onde o medo se mistura ao cotidiano.

"Sempre fui fascinada pelo que nos assusta. Cresci assistindo a filmes de terror e, com o tempo, isso se traduziu em leitura. Não me interesso só pelos monstros ou assassinos, mas também pelos medos do dia a dia. Escrever suspense e terror me permite explorar essas emoções de uma forma segura e catártica. Também uso minhas próprias experiências -- de luto, perda, traição, amor, fracasso -- e tudo isso molda como escrevo sobre o medo."

O olhar feminino sobre o medo

Durante décadas, os thrillers mais populares giravam em torno de tramas políticas, jurídicas e de espionagem, quase sempre protagonizadas e escritas por homens. Mas, segundo Jeneva Rose, as escritoras transformaram o gênero ao voltar o medo para si -- ao que vivem, pensam e enfrentam.

"Acho que as mulheres trazem uma precisão emocional e um realismo psicológico muito fortes. Há uma complexidade emocional profunda na forma como escrevemos o medo, porque não escrevemos apenas sobre o que está no escuro, mas sobre a antecipação do que pode estar lá. Nós sabemos o que é sentir perigo antes que qualquer outra pessoa perceba. Essa consciência emocional cria uma nova sensação de pavor -- silenciosa, inquietante e profundamente humana."

"Como mulheres, vivemos o medo de uma forma diferente. Andamos por uma rua à noite e vemos tudo de outro jeito. Talvez um homem não tema o que está no escuro, mas nós sim -- e antecipamos tudo ao nosso redor. Então, há uma riqueza de camadas que vem dessa perspectiva. Até porque, quando olhamos para o true crime, por exemplo, as mulheres são mais propensas a serem vítimas. Isso também molda a forma como escrevemos sobre o medo", complementa a escritora.

Lisa Jewell reforça que o suspense feminino atual se diferencia por olhar o crime não a partir da investigação, mas das consequências -- da intimidade e das feridas emocionais.

"Elas olham para o impacto do crime de um ponto de vista doméstico. Não é sobre o detetive durão descobrindo quem matou a garota, mas sobre o que acontece dentro das casas e como as tensões se acumulam lentamente."

Com mais de duas décadas de carreira, Lisa afirma que a maturidade literária lhe deu liberdade para ousar:

“A confiança foi o que mais mudou para mim. Ela me levou a explorar temas mais sombrios, correr riscos e mudar a cada livro.”

Jeneva, por sua vez, aponta que essa coragem de explorar o medo vem justamente da experiência feminina -- da intuição, da atenção aos detalhes e da consciência emocional.

"Durante muito tempo, acreditou-se que as mulheres não podiam escrever sobre certos assuntos, ou que escreveriam algo ‘mais suave’. Isso não veio de um lugar maldoso, mas de uma crença condicionada. Mas o que fazemos é o oposto disso. Sim, muitos dos nossos livros são domésticos, mas são complexos, falam sobre paranoia, traição e o colapso das relações. Há uma subestimação do olhar feminino, mas quando o trazemos para histórias de assassinato, confiança e medo, criamos algo muito interessante e importante para o gênero."

O mercado ainda precisa enxergar as mulheres

Apesar dos avanços, ambas reconhecem que a indústria literária ainda reflete desequilíbrios estruturais.

"Eu tenho a sensação de que se a obra tiver um título feminino, um nome feminino na capa, um homem provavelmente não irá querer ler, ou até mesmo muitas leitoras pensariam: 'Acho que isso não vai ser para mim'", diz Lisa Jewell.

"Elas se tornaram meio padronizadas na forma como são publicadas também o que, novamente, acho que é algo que pode afastar os leitores ou fazê-los pensar que não será inteligente ou profundo o suficiente para eles, então sim, ainda há um longo caminho a percorrer antes que um thriller com escritoras venda tanto quanto Dan Brown, por exemplo", seguiu a reflexão.

Jeneva Rose ressalta outros preconceitos que envolvem a escrita de mulheres.

"Mulheres são julgadas mais duramente. Há essa suposição de que os personagens que criamos são confessionais ou autobiográficos. Quando um homem escreve sobre obsessão ou violência, é visto como ousado; quando uma mulher faz isso, perguntam: ‘Você está bem?’ ou ‘Quem te magoou?’. Já vi isso em comentários e resenhas. É um padrão duplo frustrante, mas também o que me motiva. Nós, mulheres, contemos multidões: podemos ser carinhosas e brutais na página, amorosas e aterrorizantes na arte. Nossa imaginação é tão vasta quanto a dos homens — e nossos medos, igualmente universais", afirma a escritora.

"Há uma expectativa maior de que sejamos criativas, comunicativas, conectadas e ainda façamos tudo parecer fácil."

 O futuro do suspense

A nova geração de escritoras de suspense está expandindo o gênero com emoção, ambiguidade e autenticidade. Nas palavras de Jeneva:

"Podemos ser nutridoras e brutais na página, amorosas e aterrorizantes na arte. Nossas imaginações são tão vastas — e nossos medos, tão universais — quanto os de qualquer um.”

Já Lisa, resume o trabalho como deve ser. “Hoje, temos mais autoras e editoras apostando em histórias centradas em mulheres complexas, o que torna o gênero muito mais interessante. Eu só quero que meus personagens saltem da página, sejam bons ou maus, sombrios ou claros. Quero que saltem da página e ajudem a moldar a história.”

As autoras, por fim, ressaltam mulheres que fizeram e fazem a diferença no suspense.

"Gillian Flynn, que deu o pontapé no suspense doméstico, Ashley Winstead, May Cobb... todas elas abordam o gênero de forma diferente, mas compartilham uma ousadia em contar suas histórias. Existe uma verdadeira comunidade entre as mulheres do gênero -- não é competição, é colaboração. E isso me transformou como contadora de histórias", diz Rose.

"Eu adoro Lucinda Berry, Gillian McAllister, Alice Feeney. Ruth Ware é outra ótima escritora também. Há outros livros que você simplesmente não espera, surgem do nada, e você nunca ouviu falar do autor antes, mas aí pega o livro e começa a ler, e de repente, oito horas depois, você já terminou. E é isso que eu acho inspirador. Qualquer coisa que me faça parar de olhar para o meu celular", apresenta Jewell.

Conheça "Nada Disso é Verdade"

"Duas mulheres estão completando 45 anos e comemorando por coincidência no mesmo bar. Elas nasceram no mesmo dia e descobrem que também, no mesmo hospital, porém vivem vidas completamente diferentes. Se encontram por acaso, percebem a semelhança da comemoração, porém o que passam a viver não é mais ao acaso", diz a sinopse.

Conheça "O Assassinato no Verão de 1999"

"A história acompanha três irmãos distanciados que se reúnem após a morte da mãe e descobrem que seus pais esconderam um segredo macabro. As últimas palavras da mãe para a filha mais velha, Beth, são um aviso enigmático sobre o pai, que os levou a desenterrar a verdade", diz a sinopse.

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