Oito mitos sobre os Beatles derrubados – ou confirmados – pela série “Get Back”

Seriado conduzido pelo diretor de "Senhor dos Anéis" relê a história da maior banda de todos os tempos e desmente verdades tidas como definitivas sobre o grupo

É uma obra sensível, que além de rever o final dos Beatles com outra luz, ainda rompe mitos que sempre pairavam sobre a história da banda
É uma obra sensível, que além de rever o final dos Beatles com outra luz, ainda rompe mitos que sempre pairavam sobre a história da banda Reprodução/Get Back

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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“Get Back”, a série que Peter Jackson fez sobre os Beatles usando horas inéditas de material gravado em janeiro de 1969, exige uma reavaliação de um dos períodos mais conturbados da banda, normalmente associado ao seu fim.

Entre a gravação do especial e o final do grupo mais de um ano se passaram – tempo suficiente para que gravassem mais um disco -, mas historicamente este período, que originou o disco e o filme “Let it Be”, era considerado o ponto mais baixo da história da banda, quando eles não se suportavam mais.

O que “Get Back” mostrou foi o oposto disso. As rusgas existiam mas o grupo seguia produzindo coletivamente, criando pérolas e hits imbatíveis ao mesmo tempo em que se divertiam e mostravam como gostavam uns dos outros.

É uma obra sensível, que além de rever o final dos Beatles com outra luz, ainda rompe mitos que sempre pairavam sobre a história da banda. Quais?

 

Rixa? Yoko Ono às vezes nem prestava atenção no que o grupo estava fazendo / Reprodução/Get Back

1) Yoko Ono foi responsável pelo fim dos Beatles

Num dado momento do seriado, Paul McCartney reconhece que John Lennon nem pestanejaria caso tivesse de escolher entre ficar com os Beatles ou com Yoko Ono – e apesar de não transparecer nenhum rancor específico ligado à nova namorada de John, ele inclusive ironiza: “Imagine que daqui a 50 anos as pessoas falassem que os Beatles acabaram porque a Yoko sentou em um amplificador”.

O círculo interno dos Beatles era bem fechado e alguns dos principais nomes aparecem em “Get Back”: o assessor de imprensa Derek Taylor, o executivo da Apple Neil Aspinall, o roadie Mal Evans e o produtor George Martin são alguns dos nomes que sempre conviveram com o grupo.

Mas desde a morte do empresário Brian Epstein, em 1967, esse círculo começou a se tornar menos rígido e aos poucos novos nomes entrariam para esse time. E foi aí que John começou a trazer Yoko para as gravações.

Os outros três beatles não ficaram muito animados com aquela nova presença, mas como se vê em “Get Back”, aos poucos eles se acostumaram com ela a ponto de ela não ser um estorvo.

Pelo contrário, ela sentava ao lado de John tranquilíssima e às vezes nem prestava atenção no que o grupo estava fazendo. Em vários momentos, ela conversa com outras pessoas e até participa de uma jam session ao lado de John, Paul e Ringo, num dos vários momentos de descontração do seriado.

Yoko sempre foi vilanizada principalmente pelos jornalistas norte-americanos na época, que faziam piadas machistas e racistas sobre a namorada de John, e pelos fãs, que não suportavam a ideia de um dos Beatles ter terminado um casamento para ficar com alguém que parecia estar o usando como escada para o sucesso.

Yoko não precisava disso: já era uma artista publicada e reconhecida antes mesmo dos Beatles começarem a fazer sucesso e é notória a influência que ela teve em John a apresentá-lo para outras formas de expressão artística. Como se vê em “Get Back”, a tensão entre os Beatles era maior por causa de sua convivência como um grupo do que por conta da influência de qualquer outro agente externo.

John: às vezes parece absorto em relação a tudo que estava acontecendo / Reprodução/Get Back

2) John Lennon queria sair dos Beatles

Embora Lennon realmente não estivesse mais interessado naquela rotina com seus companheiros de banda, ele sabia que os Beatles eram seu ganha-pão e, pelo menos até o início de 1969, não havia cogitado sair do grupo que tinha fundado quinze anos antes, em Liverpool, na Inglaterra.

Acontece que naquele período John Lennon começou a usar heroína, o que aos poucos o tornou alheio ao resto da banda – e de qualquer outro assunto. Seu vício em heroína não é mencionado em “Get Back”, embora ele seja sempre o integrante da banda que chega mais tarde e às vezes parece absorto em relação a tudo que estava acontecendo.

Mas ele só cogita mesmo sair da banda às vésperas do lançamento de “Abbey Road”, no final de 1969, quando é demovido por Paul McCartney.

3) Os quatro não eram mais um grupo

Os Beatles pararam de tocar ao vivo em 1966, quando começaram a se dedicar a gravações em estúdio e muitas vezes nem precisavam da presença dos quatro para que as músicas acontecessem.

É neste período que faixas mais introspectivas do grupo foram gravadas com apenas um integrante da banda, como “Blackbird”, “Martha My Dear”, “Her Majesty”, “Mother Nature’s Son” de Paul McCartney, “Julia” de John Lennon, “The Inner Light” e “Within You Without You” de George Harrison com instrumentos indianos, e “Good Night”, em que Ringo Starr é acompanhado por cordas.

Mas mesmo em canções mais animadas, como “The Ballad of John & Yoko” (gravada por John e Paul) ou “Wild Honey Pie” (em que Paul toca todos os instrumentos), aos poucos eles entendiam que não precisavam uns dos outros para fazer música.

Tanto que quando voltam a gravar pensando em um show, justamente o período abordado pela série “Get Back”, eles levam um tempo para retomar a liga entre os quatro, embora logo retomem o ritmo.

O seriado mostra nitidamente como cada um deles interferia no processo do outro, inspirando passagens, detalhes instrumentais, cortes e andamentos. O momento em que começam a rascunhar a faixa “Get Back” talvez seja o mais iluminado de todos, quando, esperando John Lennon chegar, Paul McCartney mostra o começo de uma ideia para Ringo Starr e George Harrison.

Eles não se interessam tanto a princípio, mas logo percebem que Paul tinha algo ali – e George começa a acompanhá-lo na guitarra, enquanto Ringo imagina sua parte, acompanhando-o com palmas. E, finalmente, cantarolando o refrão.

Este momento único, uma das muitas vezes que vemos uma canção dos Beatles surgir do nada, mostra o quanto os quatro se conheciam, se aturavam e se colaboravam, mesmo não estando mais tão próximos uns dos outros quanto no tempo em que faziam shows. Eles ainda eram uma banda – e que banda!

É Paul quem mais insiste no projeto, que mais puxa novas canções e instiga a participação dos outros / Reproduçãp/Get Back

4) Paul McCartney era o dono da banda

Com a morte de Brian Epstein, o empresário que ajudou os Beatles a se tornar um fenômeno, em 1967, o grupo parecia ter perdido alguém que, mais do que um visionário do showbusiness, também fazia as vezes de figura paterna ou de irmão mais velho para o grupo, ajudando os quatro a definir os rumos que iriam tomar.

Sua partida foi um choque para a banda, mas desde antes de sua morte, Paul McCartney já queria se impor como líder da banda: a ideia de fazer um álbum conceitual como se os Beatles fossem um outro grupo (inclusive o batismo deste novo grupo), concretizada no álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, é dele.

Após a morte de Brian Epstein, a disputa entre John Lennon e Paul McCartney torna-se mais acirrada por necessidade de Paul se provar para John, que foi o fundador da banda.

A partir de 1967, ele passa a sugerir rumos que o grupo poderia seguir, mas nem sempre era ouvido. O tema da série documental – um especial para a TV que se tornaria um disco ao vivo – era uma ideia de Paul que aos poucos vai se desfazendo, como tantas outras que ele sugeriu.

Lennon ainda era visto pelos outros como o principal integrante da banda e isso pode ser percebido pela forma que ele se comporta – e como os outros o acompanham – no último show, no terraço da Apple.

Mas o pragmatismo profissional de Paul é evidente – e “Get Back” mostra isso em diversos momentos. É o baixista quem mais insiste no projeto, que mais puxa novas canções, que mais instiga a participação dos outros.

Mas vê-lo tocando “Strawberry Fields Forever”, uma das canções mais confessionais de John Lennon, é um claro indício de como Paul respeitava John a ponto de saber que se a banda era de alguém, era dos dois, não de apenas um deles.

A insatisfação de George era mais em relação a Paul McCartney devido à forma como ele impunha suas ideias para os outros / Reprodução/Get Back

5) George Harrison odiava Paul McCartney

Uma das cenas mais clássicas do documentário “Let it Be”, de 1970, mostra Harrison esbravejando contra Paul, dizendo que “eu toco o que você quiser e se você quiser eu não toco”. O clima insustentável do corte do filme original é dissipado na versão extensa, mostrada pela primeira vez em “Get Back” – a discussão realmente aconteceu, mas depois disso, eles seguiram gravando, mais um dia de trabalho.

Contudo, George Harrison não estava mais se sentindo à vontade nos Beatles. Sua cota de canções por disco era de apenas duas e ele vinha compondo bastante, precisando de mais espaço para atuar.

Não foi o primeiro beatle a deixar a banda – este foi Ringo, no ano anterior -, mas sua saída durante as gravações de “Let it Be” deixou uma cicatriz que não fechou direito.

A insatisfação de George era mais em relação a Paul McCartney devido à forma como ele impunha suas ideias para os outros – algo que também irritava Ringo Starr – e isso fica claro quando ouvimos a conversa entre John e Paul após George decidir voltar para a banda, registro em áudio que só foi possível porque o diretor Michael Lindsay-Hogg escondeu um microfone num vaso de plantas para pegar discussões acaloradas entre os Beatles.

Não é o que ouvimos: John e Paul discutem firme mas sem nunca pegar pesado e John faz Paul perceber o quanto ele incomoda os outros integrantes com seu estilo de fazer música.

A preocupação dos dois com George é a de dois irmãos mais velhos com o caçula. E por mais que George se irritasse com Paul, ele também nunca escondia sua admiração por ele, inclusive acatando várias sugestões do baixista.

Sem shows e com os Beatles dedicados ao estúdio, Ringo tinha pouco o que fazer / Reprodução/Get Back

6) Ringo Starr não estava nem aí para os Beatles

Ringo é o beatle que mais sofre com o fim dos shows, em 1966. Especificamente por não ser um compositor – embora tivesse sempre uma canção por disco, ela quase sempre era de John e de Paul ou de algum outro compositor que o grupo gostava.

Ringo só começou a compor em 1968, quando, no “Álbum Branco”, estreou a primeira de suas duas únicas músicas nos Beatles, “Don’t Pass Me By”.

Sem shows e com os Beatles dedicados ao estúdio, Ringo tinha pouco o que fazer. É clássica sua declaração sobre sua melhor lembrança das gravações de “Sgt. Pepper’s” foi o fato de ter aprendido a jogar xadrez, porque cada vez acrescentava elementos de percussão às canções dos outros três mais do que tocar bateria.

E a falta de traquejo de Paul McCartney para passar os trechos de bateria que havia imaginado para suas músicas (e Paul é um ótimo baterista, tanto que algumas canções dos Beatles contam com ele no instrumento) criava uma animosidade entre os dois.

Ele gostava de tocar com o grupo e isso é nítido em “Get Back”. Quando posto no papel de instrumentista em vez de criador – quando o grupo para de criar canções coletivamente -, Ringo aos poucos vai procurando o que fazer para além do grupo. Tanto que logo expande sua carreira para o cinema ainda quando era integrante da banda. O que ele não gostava era da rotina de estúdio sem que houvesse a possibilidade de tocar ao vivo.

O projeto “Get Back” foi encarado como um trabalho pelos quatro beatles / Reprodução/Get Back

7) O documentário mostra o fim do grupo

A primeira versão daquelas cenas, que originaram o filme “Let it Be”, lançado em 1970, foram marcadas como sendo o período em que os Beatles chegaram ao fim, principalmente por conta da edição das imagens capturadas pela equipe de Michael Lindsay-Hogg.

“Get Back” nos mostra inclusive que o diretor já chegou no estúdio com essa meta: percebendo a animosidade entre os quatro integrantes, ele queria entrar para a história como o sujeito que registrou o fim dos Beatles.

Ele tem inclusive uma discussão ridícula com Linda Eastman, que ainda não havia se casado com Paul, sobre o fato de ele ser mais fã dos Beatles do que ela.

O fato é que ele conseguiu o que queria ao lançar o fim após o anúncio do final da banda, algo que só aconteceu no primeiro semestre de 1970, mais de um ano depois das gravações que deram origem a “Get Back”.

“Let it Be” é um filme triste e desgastante e como vimos a partir de outras cenas que não entraram neste filme, distorce o clima entre os Beatles em janeiro de 1969 para dizer que foi ali que a banda terminou.

O término oficial acontece no dia 10 de abril de 1970, no dia seguinte após Paul McCartney distribuir cópias de seu primeiro disco solo para jornalistas, quebrando um acordo que tinha com os outros integrantes da banda.

Mas a última vez que o grupo se reuniu voluntariamente para falar sobre composições foi após o retorno da viagem à Índia, no final de maio de 1968, na casa de George Harrison, em Escher, subúrbio de Londres, para rascunhar o que se tornaria o Álbum Branco.

O projeto “Get Back” foi encarado como um trabalho pelos quatro, que já não tinham o ímpeto de mostrar músicas uns para os outros como até maio do ano passado. O período de gravação do “Álbum Branco” os afastou ainda mais até que Ringo deixasse a banda em setembro de 1968, para retornar uma semana depois.

Irônico é que Lindsay-Hogg grava o exato momento em que Paul percebe que os Beatles vão acabar – com seus olhos enchendo-se de lágrimas, quando, após a saída de George Harrison, John Lennon também não vai ao estúdio gravar. Mas essa imagem só surge no filme de Peter Jackson – e é um dos momentos mais emocionantes da série.

8) Os Beatles eram uma panelinha

Um dos motivos dos Beatles terem acabado era o fato de que eles começaram a ficar entediados uns com os outros, buscando referências em outras áreas ou outras pessoas.

Eram poucos que entravam no pequeno círculo dos Beatles: além de John, Paul, George e Ringo, só Mal, George, Derek, Neil e Brian tinham acesso àquela panela. E à medida em que a banda vai chegando ao fim, aquele círculo não era tão rígido e aos poucos vemos várias pessoas entrando e saindo da gravação de um disco dos Beatles, território sagrado há até alguns meses.

Além de Yoko, as presenças de Lindsay-Hogg e do engenheiro de som Glyn Johns são constantes – e é fácil perceber que ambos querem tirar sua casquinha da história da maior banda de todos os tempos.

Os dois foram trazidos a bordo por John Lennon, que havia gravado o especial de TV “Rock and Roll Circus”, dos Rolling Stones, e os puxou para sua ficha técnica.

Além de Hogg estar determinado a filmar o fim da banda, mesmo que ainda não fosse oficial, Johns estava claramente mostrando que ele mesmo poderia ser um beatle, vestindo-se sempre com roupas que competiam em atenção com as do grupo, enquanto todos os outros técnicos de som usavam terno e gravata.

É nítido o desconforto do produtor George Martin com a presença de Johns, embora ele haja sempre de forma profissional.

“Get Bac”k mostra o vai-e-vem de pessoas que torna a turma dos Beatles gigantesca, que vão desde executivos da Apple (Peter Brown e Dennis O’Dell, ambos citados em duas músicas de Lennon, “The Ballad of John & Yoko” e “You Know My Name (Look Up the Number)”), técnicos de som às outras namoradas dos Beatles a seu candidato a futuro empresário, Allen Klein, que também havia sido puxado dos Stones por John Lennon.

Sem tanta rigidez no trato íntimo, o grupo aos poucos foi perdendo o interesse no próprio trabalho – mas isso levaria algum tempo ainda. Felizmente, a tempo de produzir mais uma obra-prima, o disco-epitáfio “Abbey Road”.

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