Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    Oscar 2022: nunca uma mulher ganhou a estatueta por direção de fotografia

    Com "Ataque dos Cães", "Spencer" e "A Filha Perdida", a cerimônia deste ano pode ser o ponto de virada para as mulheres nesta categoria

    Apenas 6% dos 250 filmes de maior bilheteria nos EUA no ano passado tiveram uma diretora de fotografia
    Apenas 6% dos 250 filmes de maior bilheteria nos EUA no ano passado tiveram uma diretora de fotografia Divulgação

    Thomas Pageda CNN

    Ouvir notícia

    A direção de fotografia é a última fronteira para as mulheres no Oscar. Após 93 anos, e deixando de lado as premiações por atuação divididas por gênero, essa é a única categoria na qual uma mulher nunca ganhou uma estatueta.

    Ao ouvir essa estatística, Ari Wegner, a diretora de fotografia por trás do favorito “Ataque dos Cães”, riu, como se soubesse o que estava por vir. “Espero que isso mude em breve”, disse Wegner por vídeochamada, antes de rapidamente acrescentar: “Não sei quem será”.

    Apenas 6% dos 250 filmes de maior bilheteria nos EUA no ano passado tiveram uma diretora de fotografia, de acordo com um relatório anual produzido pelo Centro de Estudos Femininos em Televisão e Cinema da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia.

    Até hoje, apenas uma mulher foi indicada ao Oscar: Rachel Morrison, por “Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi”, filme de Dee Rees, em 2017. Além disso, uma mulher nunca foi indicada ao BAFTA por melhor direção de fotografia.

    Tudo isso pode mudar em breve, com uma série de filmes com mulheres por trás das câmeras disputando a premiação. Wegner já ganhou prêmios de organizações como as associações de críticos de cinema de Los Angeles e Nova York, e Claire Mathon (“Spencer”) e Hélène Louvart (“A Filha Perdida”) também já foram aclamadas.

    Com a temporada de premiações de 2022 chegando, a CNN conversou com essas três diretoras de fotografia, que compartilharam um pouco de sua experiência ao levar seus filmes para as telas do cinema – e muito mais.

    Ari Wegner (esquerda) e Jane Campion (direita) durante a produção de “Ataque dos Cães” / Netflix

    Tem algo muito mais assustador no som dos passos de uma pessoa numa escada do que no de alguém puxando uma arma

    Ari Wegner, diretora de fotografia

    Wegner ganhou proeminência com filmes independentes como “Lady Macbeth”, “Vestido Maldito” e “Zola” antes de sua colaboração com Jane Campion em “Ataque dos Cães”, o maior projeto de sua carreira até agora.

    A adaptação de Campion do romance de Thomas Savage – ambientado na década de 1920 e que conta a história de irmãos cowboys e as repercussões quando um deles se casa com uma jovem viúva – estava longe de ser simples (e isso foi antes da Covid-19 impor um hiato de quatro meses à produção, em 2020).

    A história se passa em Montana, noroeste dos Estados Unidos, mas hoje em dia o local tem muito mais construções para representar o terreno acidentado e vasto da história. Campion então pensou em Otago, na Nova Zelândia, sua terra natal, o que fez com que Wegner tivesse de captar sua beleza e esconder sua identidade ao mesmo tempo. “Lá existem algumas paisagens incrivelmente impressionantes, mas que são muito icônicas”, disse a diretora de fotografia.

    A locação foi um dos muitos fatores considerados durante uma longa pré-produção. “Jane e eu adoramos planejar”, comentou Wegner. Durante um mês, as duas leram o roteiro juntas, trabalhando em uma grande lista de cenas: Wegner com seus “pequenos rascunhos” e Campion com suas “lindas” ilustrações, contou a diretora de fotografia.

    Qualquer um que tenha visto o filme sabe como é crucial a revelação de informações aos poucos e, portanto, estabelecer precisamente o que, quando e quanto mostrar a cada momento foi fundamental. O resultado, segundo Wegner, é que “praticamente tudo o que você vê teve origem em uma cena que desenhamos”.

    Embora o romance e o filme tenham sido frequentemente descritos como um “novo western”, Wegner disse que o gênero estava longe do que ela e a diretora queriam. “Há cowboys, vacas, extensas planícies e ranchos, mas de certa forma a semelhança acaba por aí”, explicou.

    Wegner e Campion disseram que “não havia interesse em armas. Não achamos que são atraentes ou que acrescentam qualquer coisa”. A violência psicológica é maior que a violência física, e o personagem Phil Burbank, interpretado por Benedict Cumberbatch, é seu principal expoente.

    Phil, o cruel irmão do afável George (Jesse Plemons), atormenta sua nova cunhada Rose (Kirsten Dunst) e seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee) por razões pouco compreendidas. Wegner filmou a casa dos Burbank no estilo de um filme de terror, querendo mostrar que “tem algo muito mais assustador no som dos passos de uma pessoa numa escada, de uma cadeira sendo afastada, do que no de alguém puxando uma arma”. Ela consegue fazer isso, e ainda um pouco mais.

    Kodi Smit-McPhee e Benedict Cumberbatch em “Ataque dos Cães” / Kirsty Griffin/Netflix

    O planejamento rigoroso deu lugar a uma abordagem mais espontânea ao filmar Phil em sua privacidade, quando não estava sendo observado, a um mundo de distância de sua persona pública. Para tanto, Wegner recorreu à câmera de mão para filmar Cumberbatch, que ficou no personagem enquanto estava no set.

    “Era eu e Phil – porque Benedict não estava realmente presente”, afirmou Wegner. “Isso exigiu um pouco de negociação, porque você está numa sala com alguém que não é fácil e que provavelmente está com muita coisa na cabeça. Mas essa era a energia ali”.

    “Você precisa estar emocionalmente envolvido para antecipar onde a câmera pode ficar, ou apenas ter paciência para sentar, ouvir e assistir sem se mexer”, acrescentou.

    O subtexto queer do filme emerge nessas cenas: rachaduras aparecem na fachada de Phil, e emoções reprimidas se espalham pelo rosto de Cumberbatch. “Testemunhar a dança entre Ari e Ben naqueles momentos foi de tirar o fôlego”, relembrou Campion por e-mail. “Acredito que o elenco confiou plenamente na sensibilidade e talento dela”.

    A diretora sabia que queria uma mulher para o projeto. “Sei que é mais difícil para as mulheres terem uma chance como DOP (diretor de fotografia, na sigla em inglês), mesmo quando têm muito talento”, comentou Campion. Com um elenco dominado por homens, ela buscou “um equilíbrio entre as energias feminina e masculina no set de filmagem”.

    As oportunidades por trás das lentes estão se abrindo para as mulheres? Wegner descreveu a indústria cinematográfica como “um navio muito lento”. “Mesmo que as pessoas queiram que ela mude rapidamente, leva bastante tempo para as pessoas ganharem experiência e serem treinadas”, explicou.

    “Eu realmente espero que em algum momento da minha vida não precisemos ter uma lista de pessoas da equipe com nomes anexos ou o gênero escrito do lado”, continuou Wegner. “Será como algumas outras indústrias, em que você não precisa especificar o gênero de alguém, porque qualquer um pode fazer aquele trabalho”.

    “No futuro, espero que essa conversa não exista mais, mas temos muito trabalho a fazer antes de chegarmos a esse ponto”, acrescentou.

    Kristen Stewart como princesa Diana em 'Spencer'
    Kristen Stewart como princesa Diana em “Spencer” / Foto: Divulgação/Neon

    É mais do que intimidade. É quase interioridade

    Claire Mathon, sobre filmar Kristen Stewart

     

    A diretora de fotografia francesa Claire Mathon esteve por trás das câmeras em dois filmes aclamados em 2021: “Spencer”, do diretor chileno Pablo Larrain, e “Petite Maman”, de sua compatriota Celine Sciamma. Este último não foi selecionado pela França para competir no Oscar (embora estivesse presente nas listas de final de ano dos críticos de cinema), mas seu trabalho majestoso no atordoante e surpreendente “Spencer” representa sua melhor chance de uma indicação ao Oscar até hoje.

    Larrain criou um relato fictício da princesa Diana (Kristen Stewart) tentando passar o Natal com a família real, enquanto seu casamento está em frangalhos. Em termos de tom, o longa se aproxima muito mais de filmes como “O Iluminado”, e se afasta das representações mais convencionais da realeza, como “The Crown”.

    A Sandringham House, lar das festividades reais, torna-se o castelo do qual a princesa tem de escapar – e neste caso é o príncipe que tenta mantê-la lá. “Larrain disse desde o início que é um conto de fadas virado de cabeça para baixo. É a princesa que faz a escolha de não ser mais uma princesa”, explicou Mathon em entrevista em novembro passado. “É mais uma desconstrução do que a história em si”.

    A inspiração em Stanley Kubrick foi além de “O Iluminado”, disse a diretora de fotografia. Mathon e Larrain assistiram às adaptações americanas de “Barry Lyndon” de William Thackeray e “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess enquanto se preparavam para as filmagens.

    É possível vislumbrar a influência de Kubrick nos jantares formais iluminados pelo brilho da luz de velas e no movimento da câmera seguindo Diana pelos intermináveis corredores da propriedade, enquanto ela busca uma saída de seus limites físicos e emocionais.

    Mathon filmou em 16mm, e o granulado traz energia e crepitação mesmo durante os poucos momentos parados do filme. A construção de cena e espaço de Larrain “está muito longe do naturalismo”, disse a diretora de fotografia. “É um filme muito coreografado, acho eu.”

    Por mais coreografado que seja, o filme nunca parece estar marcado pelos movimentos. Isso se deve à atuação de Mathon e Stewart, diretora de fotografia e atriz trabalhando juntas, como se fossem uma só. “Foi ideia de Pablo, essa proximidade muito, muito estreita”, contou Mathon. “É mais do que intimidade. É quase interioridade”.

    Algumas cenas foram improvisadas, outras não, explicou. O método se aproxima da arte imitando a vida, visto como os paparazzi perseguiram a verdadeira Diana, de câmera na mão.

    “Eu nunca fiquei tão perto de uma atriz com uma câmera. Fiquei até com medo de tocá-la”, disse Mathon. “Mas acho que a interpretação dela brincou com a câmera… É um dos assuntos do filme: a relação (de Diana) entre se esconder e se trancar, e ao mesmo tempo estar constantemente sendo vista”.

    O uso subversivo das lentes da câmera foi um movimento que valeu a pena. “No fim das contas, estar perto de Diana é algo sincero e, em última análise, muito simples”, disse Mathon.

    Quando a atuação é boa, é muito mais fácil filmar bem

    Helene Louvart

    Hélène Louvart tinha mais de 100 créditos a seu nome antes de aceitar o trabalho em “A Filha Perdida”, adaptação de Maggie Gyllenhaal do romance de mesmo nome de Elena Ferrante.

    A diretora de fotografia francesa conhecia a obra de Ferrante, tendo inclusive filmado episódios de “A Amiga Genial”, adaptação da HBO de seus romances napolitanos. Gyllenhaal viu a série e alguns dos outros filmes de Louvart, e gostou de como ela filmou os atores, contou a diretora de fotografia. “Ela queria ter uma espécie de liberdade, usar a intuição e ser inventiva”, explicou Louvart.

    A estreia de Gyllenhaal como diretora transita entre dois períodos da vida de Leda, uma acadêmica cujas férias são atrapalhadas por uma família norte-americana. Quando a mais jovem integrante da família desaparece e Leda (Olivia Colman) ajuda a encontrá-la, ela forma um vínculo com a mãe da criança, Nina (Dakota Johnson), o que invoca lembranças de Leda como uma jovem mãe (Jessie Buckley) presa entre seus próprios filhos e sua carreira em ascensão.

    A Covid-19 transformou radicalmente o filme. Originalmente ambientado em Nova Jersey, nos EUA, a produção mudou-se para a Grécia e permitiu que o Mediterrâneo se infiltrasse na história. Os planos de filmar em Super 16mm foram descartados devido a problemas logísticos, e o digital acabou sendo a opção.

    Louvart disse que a observação dos ensaios meticulosos de Gyllenhaal fez com que, nos 28 dias de filmagem, “soubéssemos perfeitamente o que queríamos em cada cena”.

    “Queríamos manter a simplicidade e estar perto da personagem”, explicou, acrescentando que Gyllenhaal queria que o público sentisse que está com as duas Ledas.

    O espetáculo de “A Filha Perdida” está nas performances, e as composições de Louvart dão foco especial aos rostos. Entendemos o mundo através das caraterísticas de Colman e Buckley: cada irritação, cada decepção, cada vitória, pequena ou grande.

    Da esquerda para a direita: Jessie Buckley como a jovem Leda e Peter Sarsgaard como o Professor Hardy ao lado de Louvart no set de filmagem / Netflix

    A lente de Louvart tem o trabalho sutil de captar semelhanças e dissonâncias entre as performances de Colman e Buckley, unindo-as em um quadro díptico finamente trabalhado, de uma mulher que teve a ousadia de querer mais para si mesma do que a sociedade estava disposta a dar.

    “A maneira como Gyllenhaal dirige essas personagens é incrível. Aprendi muito só ao observá-la dirigindo Olivia e Jessie”, afirmou Louvart.

    “Quando a atuação é boa, é muito mais fácil filmar bem”, acrescentou. “Às vezes você só tem de estar lá”.

    A diretora de fotografia já tem uma lista de diretores com quem estabeleceu relações de longo prazo. Depois dessa primeira incursão, será que ela se vê trabalhando com Gyllenhaal novamente?

    “Eu fiquei muito impressionada com o trabalho dela”, disse Louvart. “O cinema é uma língua universal. Eu a entendia, ela me entendia. Com certeza vamos continuar”.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

    versão original

    Mais Recentes da CNN