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    Presa grávida e música sobre menstruação censurada: Ditadura mirou Rita Lee

    Artista teve músicas modificadas por causa de ação de censores

    Carolina Fariasda CNN

    São Paulo

     

    Rita Lee, que morreu na noite de segunda-feira (8) em São Paulo aos 75 anos, foi uma das artistas mais censuradas durante a ditadura militar brasileira, período entre 1964 e 1985, e também chegou a ser presa durante o regime. Era 1976 e ela estava grávida do primeiro filho, Beto Lee. Na época, o Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) legou que ela estava com drogas em casa.

    A artista relembrou o episódio em “Rita Lee: uma autobiografia”, lançada em 2016. Ela contou que a própria polícia espalhou a notícia de sua prisão.

    “Me botaram sentada frente ao delegado e sobre a mesa dele uma pilha de cannabis já dixavadinha, pronta para enrolar. Erva de ótima qualidade, aliás. ‘A senhora tem algo a dizer sobre isto aqui que meus homens encontraram na sua residência?’. ‘Isso não é meu, seu delegado. Estou grávida e no momento não uso drogas. Nem Coca-Cola, pro senhor ter uma ideia. Eu vi quando seus homens colocaram isso na minha casa, pode perguntar para minha madrinha que também estava lá”, escreveu a artista sobre o episódio.

    Na ocasião, segundo o livro, ela recebeu a visita de Elis Regina (1945 – 1982), que ficou sabendo de sua prisão e foi até o local.

    “Elis não representava uma person of interest da ditadura, ao contrário, era reconhecida como a rainha do Olimpo musical e nenhum generaleco se atreveria a mexer com ela. Ficou lá de plantão até eu ser medicada e o sangramento estancado. Ainda mandou vir comidinha de um restaurante porque me achou magrela demais para uma grávida”, contou Rita sobre o episódio.

    Ciclo menstrual censurado

    Das dezenas de trechos e músicas de Rita Lee censurados durante a Ditadura, uma delas foi “As duas faces de Eva”, de 1981. De acordo com documentos do Arquivo Nacional, os censores acharam impróprio o trecho: “Mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra”.

    “Poderá também referir-se ao ciclo menstrual da mulher, o que suscitará indagações precoces em torno do assunto”, disseram os censores.

    De acordo com o Arquivo, a gravadora de Rita na época, a Sigla, recorreu da decisão. A defesa argumentou que “a existência do ciclo menstrual não é mais motivo de vergonha ou medo”.

    “Lembrando ainda da grande quantidade de peças publicitárias, ‘nem sempre de bom gosto’, dedicadas à venda de absorventes internos veiculadas pela televisão, revistas e jornais. Se a ninguém ocorre proibir a propaganda de absorvente ‘aderente à calcinha’ ou que ‘permite todos os movimentos’, ou “rigorosamente invisível’ [um desses, mostrando a foto de uma linda mulher montada em uma bicicleta, com um sumaríssimo short], por que vedar-se a menção da causa dessa propaganda, que é o sangramento mensal?”, argumentou a defesa.

    A música, que depois se tornou uma das mais famosas da artista, também contém a frase icônica: “Por isso não provoque, é cor de rosa choque”.

    Em entrevista ao jornal “O Estado de S Paulo”, Rita falou sobre a censura que sofreu e que fazia letras com o “que lhe dava na telha”.

    Outra canção censurada em parte foi “Banho de Espuma”, que se chamaria “Afrodite”. Com as edições feitas para ser liberada pelos censores, a música ficou com novo título e foi lançada no LP “Saúde”, de 1981.

    “Nunca pensei que o que fiz durante 50 anos fosse o que se chama feminismo: eu ligava o foda-se e entrava decidida no mundinho considerado masculino, cantando sobre o que me desse na telha; de menstruação a menopausa, de trepada a orgasmo. Fora o resto”, disse a artista na ocasião.

    A cantora morreu aos 75 anos, em São Paulo.  A notícia foi confirmada, na manhã desta terça-feira (9), em publicação nas redes sociais oficiais da cantora e de seu marido, Roberto de Carvalho.

    “Comunicamos o falecimento de Rita Lee, em sua residência, em São Paulo, capital, no fim da noite de ontem, cercada de todo o amor de sua família, como sempre desejou”, escreve a nota.

    O velório acontecerá em cerimônia aberta ao público, no Planetário do Parque Ibirapuera, nesta quarta-feira (10), das 10h às 17h.

    “De acordo com a vontade de Rita, seu corpo será cremado. A cerimônia será particular. Nesse momento de profunda tristeza, a família agradece o carinho e o amor de todos”, concluiu o comunicado.