Quarentena pode ter efeito psicológico para jogadores de futebol

Especialistas dizem que profissionais devem mudar mentalidade e tratar a situação atual mais como um desafio a superar do que como um desastre

Aimee Lewis, da CNN
06 de abril de 2020 às 09:59 | Atualizado 06 de abril de 2020 às 10:00
Com campeonato suspenso, jogadores do Bayern de Munique fazem treino virtual
Com a liga alemã suspensa por causa do coronavírus, jogadores do Bayern de Munique participam de treino por meio de videoconferência
Foto: Reprodução - 3.abr.2020/ Reuters

À medida que a pandemia do novo coronavírus se espalha pelo mundo, os videoclipes de jogadores de futebol famosos treinando em casa se espalharam pelas mídias sociais. A vida dessas as pessoas, frequentemente consideradas sobre-humanas, também foi paralisada pelo COVID-19, que não discrimina entre ricos e pobres, famosos e anônimos. Como o resto do mundo, o futuro deles também é incerto.

Ninguém pode dizer com certeza quando a normalidade retornará. Ninguém sabe quando milhares de pessoas se reunirão novamente nos estádios e, alegremente, comemorarão um gol, um chute ou uma defesa espetacular. Enquanto isso, os jogadores devem ficar em casa e trabalhar em casa.

Mas como os jogadores de futebol conseguirão manter a forma, tanto mental quanto fisicamente? Afinal, são pessoas que nunca parecem estar sozinhas, treinando com colegas de equipe, realizando feitos mágicos em todo o mundo, com quase todos os seus movimentos analisados e registrados.

O treinador do Brighton & Hove Albion, Graham Potter, admitiu na semana passada que "um ou dois" de seus jogadores não estavam dormindo bem, pois se preocupam com essa situação sem precedentes.

Craig Duncan, um estrategista de desempenho humano que atualmente trabalha com jogadores profissionais de futebol da Austrália, disse à CNN: "O adiamento de competições, o cancelamento de treinamento e, em muitos casos, o isolamento de jogadores, pode causar um custo psicológico”.

"Os jogadores de futebol têm uma rotina diária, semanal e de temporada rigorosa. As horas para dormir, comer e treinar são determinadas por esse cronograma, portanto, nesta fase, ocorrem mudanças óbvias. A conexão diária em um ambiente de equipe também é vital, como em qualquer ambiente de trabalho."

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Nos EUA, a suspensão da Major League Soccer (MLS) foi prorrogada até maio e o início da Liga Nacional de Futebol Feminino foi adiado. As ligas da América do Sul foram interrompidas, assim como na Europa, à medida os governos tentam reduzir a disseminação do vírus.

O adiamento da Euro 2020, campeonato de seleções realizado de 4 em 4 anos, até 2021 abriu os meses do verão [no hemisfério norte] para terminar as ligas na Europa caso elas ultrapassem suas datas finais originais, o que parece cada vez mais provável.

Mas várias perguntas permanecem sem resposta. As temporadas serão reiniciadas em abril, maio, junho ou julho? E se as ligas não puderem ser retomadas? Quais serão as implicações financeiras? Se a temporada for concluída no segundo semestre, o que acontecerá com os jogadores cujos contratos terminariam em junho?

O doutor Duncan escreveu programas de treinamento para jogadores em quarentena e os monitora por meio de um aplicativo que, ele diz, ajuda a identificar se há "problemas fisiológicos ou psicológicos significativos".

"Esta é uma situação muito difícil. A única coisa que podemos fazer é focar no que dá para controlar e todo o resto ocorrerá de alguma forma que atualmente ainda é desconhecida", diz.

Focar no retorno ao campo não é a melhor forma de lidar com uma crise que não tem previsão de fim. Isso só aumentará a ansiedade, disse à CNN Peter Olusoga, professor de psicologia da Universidade Sheffield Hallam.

Teste de COVID-19 no estádio do Borussia Dortmund, na Alemanha
Estádio do Borussia Dortmund, na Alemanha, recebeu estação para testes de COVID-19
Foto: Leon Kuegeler - 4.abr.2020/ Reuters

"Há uma tendência natural de focar no futuro, no que está por vir e quando algo sem precedentes acontece, isso aumenta ainda mais", diz ele.

"Haverá muitos pensamentos sobre o fato de não ser o que eles estão acostumados. Eu vou poder treinar? Vou ser capaz de permanecer em forma e motivado? Todas são preocupações legítimas, mas novamente, é pensar no futuro e não no que está acontecendo”.

"No esporte, você precisa ter objetivos, coisas que deseja alcançar, mas o que realmente devem fazer é manter o foco no momento presente. Se você se concentrar demais nos resultados, não estará atento ao que é importante agora – a sessão de treinamento que você está fazendo, as pequenas coisas que você pode fazer para melhorar", completou o professor..

Mudar a mentalidade, tratar a situação atual mais como um desafio a superar do que como um desastre é importante, diz Olusoga. Ver esta crise como uma oportunidade para fortalecer fraquezas também ajudará.

"Eles já têm essas habilidades. É quase como se machucar. É o caso de usar algumas dessas forças e habilidades de uma maneira diferente", diz ele.

Antes que o novo coronavírus parasse a sociedade, alguns jogadores estavam prestes a ganhar campeonatos, outros esperavam assinar novos contratos, outros estavam em uma briga para evitar o rebaixamento de seus clubes.

Alguns desses jogadores de futebol são multimilionários de renome mundial; outros vivem modestamente e aspiram à grandeza. Nem todo mundo é igual. Mas como todo o resto do planeta, os jogadores de futebol estão aprendendo a se adaptar a uma nova maneira de viver.