Um ano depois, o emocionante discurso de Marta na Copa do Mundo ainda ressoa


Jeff York Da CNN
24 de junho de 2020 às 15:28 | Atualizado 24 de junho de 2020 às 18:16

 

Marta futebol

Marta foi a primeira jogadora do futebol feminino a ganhar uma homenagem no Maracanã, em janeiro de 2019; depois na derrota na Copa, em julho, ela desabafou sobre falta de apoio

Foto: Reprodução/Reuters

"O futebol feminino depende de você para sobreviver." Com lágrimas nos olhos, a brasileira Marta, sem dúvida a maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos, defendeu não apenas seu país, mas o mundo inteiro após a derrota das oitavas-de-final do Brasil para a França na Copa do Mundo Feminina de 2019. 

“Não vai ter uma Formiga para sempre, não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Cristiane", acrescentou ela, citando outras jogadoras experientes do Brasil que estão chegando ao fim de suas carreiras. 

Marta, eleita seis vezes melhor jogadora do mundo da FIFA, e a maior artilheira das finais da Copa do Mundo – tanto entre homens como mulheres, com 17 gols – nunca conquistou o troféu da Copa do Mundo ou recebeu uma medalha de ouro no pescoço em Jogos Olímpicos. 

Quando o apito soou ao final da prorrogação na derrota por 2 a 1 para a França, anfitriã do torneio, eliminando-as da Copa do Mundo, as jogadoras do Brasil caíram em campo chorando. Marta prestou atenção.

Em entrevista à CNN, com auxílio de uma intérprete, Marta disse: "Eu não planejei o discurso. Vi minhas companheiras de time chorando. Foram grandes emoções. Senti a necessidade de compartilhar uma mensagem que mostrasse para elas e para as jovens atletas o caminho a seguir”. 

Olhando diretamente para a câmera, Marta prosseguiu com seu discurso no gramado do Stade Océane no ano passado: “estamos pedindo apoio; chore no começo pra sorrir no fim”. 

Refletindo sobre seu discurso, Marta disse à CNN Sport: “Toda vez que posso, tento fazer a diferença. Quero mostrar a todos, meninos e meninas, não importa o sexo, que é possível. E eu faço isso com amor. Eu tenho que ser uma líder dentro e fora do campo. Minha vida é movida por isso. Assumo essa responsabilidade de coração e com dedicação. É uma grande responsabilidade”. 

Amanda Kestelman, jornalista da TV Globo, viu os desafios que a equipe enfrentou não apenas na França, mas durante gerações. 

“Acho que todos no Brasil ficaram muito emocionados. Não usamos o enorme talento de Marta para tornar o jogo das mulheres tão grande no Brasil quanto deveria. Eu costumava chamá-las de força da natureza, porque elas ganhavam muito com poucos recursos”, disse Kestelman à CNN Sport. "Elas chegaram longe com pouco, mas não podem ficar para sempre. Precisamos olhar para o futuro.” 

Kestleman acrescentou: “O discurso de Marta foi o que todos viram, porque foi transmitido para todo o mundo, mas conversando com essas mulheres após o jogo, elas tiveram o mesmo sentimento. Elas conversaram conosco, falando: 'por favor, clubes, federação, não se esqueçam de nós. Não se lembrem de nós apenas na Olimpíada, na Copa do Mundo’". 

Disparidade financeira 
Marta, que joga pelo Orlando Pride na NWSL, a liga de futebol feminino dos Estados Unidos, diz que o esporte precisa de muito mais ajuda no Brasil. 

“O futebol masculino ainda é a religião no Brasil. A gente nasce vestindo uma camisa de time masculina. Quando você nasce, seu pai escolhe esse time para você. Mas agora as pessoas estão começando a apoiar o futebol feminino. E, claro, também há a diferença financeira”. 

Essa diferença financeira não é pouca coisa. O Brasil carece de uma liga nacional feminina substancial, ao invés de contar só com uma competição no estilo de torneios, e a maioria dos clubes femininos é apoiada por equipes masculinas maiores e mais lucrativas. Agora, com a expansão da?Covid-19 devastando o país, o futuro do jogo feminino está muito mais em dúvida. 

“Essa pandemia está trazendo incertezas financeiras, principalmente para os clubes sem equipe masculina de apoio, porque não temos certeza do que o futuro nos reserva”, lamentou Marta. 

A jornalista brasileira concorda que a situação está se tornando uma questão financeira séria, considerando que os clubes brasileiros não jogam uma partida, do masculino ou feminino, desde o início de março devido à pandemia, e não há fim à vista. 

Apesar das preocupações, Marta acrescentou: “Acredito que a cada ano a exposição do futebol feminino no Brasil esteja melhorando”. 

Melhorias demandam tempo e dinheiro. Segundo Kestelman, a disparidade de financiamento da Confederação Brasileira de Futebol, ou CBF, entre as equipes masculina e feminina é enorme. 

Um relatório recente do Globo Esporte descobriu que a CBF concedeu uma linha de crédito de R$ 3,7 milhões para apoiar os clubes femininos em duas divisões durante a pandemia. Em comparação, quase R$ 100 milhões foram emprestados aos clubes masculinos apenas na primeira divisão. 

“Falta investimento, com certeza. E isso não é apenas um problema no Brasil; estamos falando de um problema em toda a América do Sul”, observou Kestelman. 

“A Argentina chegou à sua primeira Copa do Mundo em mais de uma década no ano passado. Na Argentina, Colômbia e no Chile há esforços para que o futebol feminino aconteça". 

A Colômbia está na corrida para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2023 e saberá seu destino quando o país escolhido for anunciado na quinta-feira (25). 

Legado duradouro 
Se a última imagem que vimos de Marta no palco da Copa do Mundo foi a que implorava às jovens de seu país para se dedicarem ao avanço do jogo das mulheres, então seria um momento final adequado para um ícone global do esporte. 

Quando questionada sobre o que ela quer deixar como legado, Marta respondeu: “Quero que pensem em mim como uma atleta que inspirou outras pessoas, que melhorou nosso esporte. Não apenas no Brasil, quero dizer isso para o mundo inteiro, porque temos o poder de mudar isso.” 

“Não quero que eles me vejam como Marta, a jogadora de futebol, a que marcou mais gols nas Copas do Mundo, a que venceu o título de melhor jogadora do mundo muitas vezes. Quero que me vejam como uma atleta que fez melhorias em nosso esporte”. 

(Amanda Davies, da CNN, contribuiu para esta reportagem. Leia o texto original em inglês.)