Atletas brasileiros relatam depressão e alteração de renda durante pandemia

Estudo aprovado pela Fiocruz detectou que 80% dos atletas entrevistados têm sintomas de depressão, ansiedade, insônia ou estresse 

Mylena Guedes e Thayana Araujo, da CNN, no Rio de Janeiro

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O impacto psicológico, social e financeiro da pandemia de Covid-19 em atletas brasileiros está sendo estudado por pesquisadores e, até o momento, 80% dos entrevistados já declararam sintomas de depressão, ansiedade, insônia ou estresse. 

O projeto, aprovado pelo Comitê de Ética da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), recrutou cerca de 600 atletas brasileiros, entre 18 e 45 anos, de diferentes modalidades, como vôlei, handebol, rugby e basquete. A maioria deles mora na região Sudeste do país.  

Durante a quarentena, dos 578 esportistas que já responderam ao questionário online, 88,7% relatam sentir estresse, 72,7% têm insônia, 46,6% ansiedade e 27,2% se sentem depressivos. 

Ainda por causa da pandemia, mais da metade dos atletas (64,5%) tiveram alguma alteração na renda mensal e 13% deles tiveram o contrato alterado ou suspenso. No período, também houve relatos de perda de patrocínios, que levaram à readaptação dos treinos, obrigando atletas a treinar em locais inadequados, sem a presença de treinadores. Diante dessa realidade, quase 20% dos esportistas relataram lesões musculoesqueléticas, que também podem afetar as articulações e os tendões. 

Em entrevista à CNN, a pesquisadora do estudo Jamila Perini, da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo) e do Instituto de Traumatologia e Ortopedia (Into) prevê que até agosto o estudo seja publicado em uma revista científica. A pesquisa recebe apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj).  

Jamila relatou também que os atletas que fumam apresentaram 14 vezes mais chance de testar positivo para o novo coronavírus.  

“Esse resultado foi uma surpresa, também porque, em um estudo anterior em que as pessoas precisam se identificar, os atletas ficavam mais receosos em dizer que fumavam. Já nesta pesquisa, como o nome fica em sigilo, eles ficarem mais tranquilos em admitir que fumam, muito deles recreativamente”, disse.  

Testagem dos atletas 

Outros resultados de um primeiro trabalho feito com 414 esportistas no período de agosto a novembro de 2020, mostra que menos da metade dos atletas entrevistados na época fizeram teste para Covid-19. Segundo a pesquisa, publicada no periódico Biology of Sport, o baixo índice ocorre porque muitos entrevistados são de baixa renda, ficaram sem patrocínio na pandemia e não tinham plano particular.  

Entre os que fizeram a testagem, 8,5% tiveram a doença, sendo 11% deles assintomáticos. Além disso, mais de um quarto dos atletas com teste negativo ou não testado afirmaram que tiveram mais de três sintomas característicos do novo coronavírus.  

“Os números reforçam a importância do diagnóstico. A testagem contra o vírus deveria ser uma prática comum nos clubes brasileiros, até porque muitos atletas são assintomáticos”, afirma a pesquisadora do projeto.

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