‘Represento tudo o que o Talibã não quer que uma mulher seja’, diz jogadora de futebol afegã

Quando Nadia Nadim tinha 11 anos, seu pai foi assassinado pelo Talibã, e ela foi forçada a deixar seu país natal. Neste ano, jogadora viu seus maiores medos se tornarem realidade novamente

Nadia Nadim
Nadia Nadim Instagram/Nadia Nadim/Reprodução

Jack Bantockda CNNBecky AndersonZeena Saifi

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Nadia Nadim se lembra do momento em que se apaixonou por futebol. Ela estava na Dinamarca quando viu algumas meninas chutando bola num campo, livres e soltas.

“Pela primeira vez vi que meninas realmente jogavam futebol nas escolas. Me apaixonei na hora”, disse a estrela do futebol de 33 anos a Becky Anderson, da CNN. “Desde então, nunca mais larguei a bola”.

Ao longo de sua bem-sucedida carreira de 16 anos, Nadim teve muitas conquistas e representa a seleção feminina de futebol da Dinamarca desde 2009.

Em junho, ela assinou um contrato com o Racing Louisville FC, da liga norte-americana de futebol feminino (NWSL), após dois anos no Paris Saint-Germain – onde ela contribuiu para o primeiro título da equipe no campeonato francês, finalmente quebrando a hegemonia de 14 anos do Lyon.

“Vencemos o campeonato pela primeira vez na história do clube e foi fantástico. Provavelmente uma das nossas maiores conquistas. Assim, era hora de seguir em frente e encontrar novos desafios”, disse Nadia.

Mas o passado de Nadim antes de suas realizações no futebol é carregado de conflitos.

Quando tinha 11 anos, seu pai foi assassinado pelo Talibã, e ela foi forçada a deixar seu país natal, o Afeganistão, junto com sua mãe e quatro irmãs.

Elas fugiram para o Paquistão, antes de se estabelecerem em um campo de refugiados na Dinamarca.

“Minha mãe vendeu tudo o que tinha. Conhecemos um traficante de pessoas que nos levou para o Paquistão. Do Paquistão, com passaportes falsos, viajamos primeiro para a Itália, e depois de caminhão para a Dinamarca”, contou.

“Sempre digo que foi provavelmente o destino, porque o campo de refugiados em que fiquei na Dinamarca ficava ao lado desses incríveis campos de futebol e de um clube”.

Uma história que se repete

Apesar de sua jornada angustiante, Nadia considera que teve sorte de escapar do domínio do Talibã quando era jovem.

“Estávamos provavelmente entre as mais afortunadas”, ponderou.

Imagens dos últimos aviões militares dos EUA deixando o Afeganistão e do Talibã assumindo o poder em Cabul em agosto acionaram “memórias vivas” para Nadim.

“Antes do Talibã, tínhamos uma vida boa, um ambiente seguro. Minha mãe e meu pai deram a melhor vida possível para nós”, afirmou. “Todo aquele tempo foi uma vida com muito medo, de apenas tentar sobreviver”.

Conforme a história se repete, ela disse que fica “triste” e “muito confusa”.

“No começo, eu não entendia muito bem o que estava acontecendo. Parecia um déjà vu. Nunca achei que voltaríamos a isso”, lamentou.

“Eu não conseguia entender. Foi perturbador ver como eles estão ganhando mais poder, e que agora eles estão realmente comandando o país”.

“Isso me deixa transtornada, me deixa com raiva. Não acho que eles mereçam. Não acho que um grupo terrorista deva ter tanto poder”.

‘É tão perturbador’

Nadim viu recentemente sua própria história ser recontada nas viagens que muitas atletas afegãs tiveram de fazer, tendo que sair de seu próprio país para encontrar refúgio em outro lugar.

Haley Carter, ex-auxiliar técnica da seleção nacional de futebol feminino do Afeganistão, ajudou a organizar uma coalizão de emergência com Khalida Popal, a ex-capitã do time, para transportar por via aérea 86 atletas afegãs, funcionários e familiares para fora do país em agosto.

“Conheço a seleção nacional de futebol feminino, a maioria saiu”, disse Nadim sobre a operação. “Fico feliz que elas saíram, porque se eles [o Talibã] descobrirem que essas

meninas estão fazendo algo que os talibãs condenam tanto, suas vidas estarão em perigo”.

Em uma reviravolta semelhante, 41 refugiados afegãos, incluindo 25 membros da equipe feminina de ciclismo do Afeganistão, chegaram aos Emirados Árabes Unidos na segunda-feira (6), onde estão tendo os documentos processados antes de viajar para o Canadá – uma jornada que fizeram por medo do tratamento que poderiam receber do Talibã se permanecessem no país.

A ansiedade que sentem por serem atletas mulheres em um Afeganistão governado pelo Talibã não é sem razão.

No início deste mês, Ahmadullah Wasiq – vice-chefe da comissão cultural do Talibã – disse ao canal de notícias SBS News da Austrália que mulheres afegãs não deveriam jogar críquete e outros esportes nos quais ficariam “expostas”.

“No críquete, elas podem ficar em situações em que o rosto e corpo não estarão cobertos. O Islã não permite que as mulheres sejam vistas assim”, disse Wasiq à SBS News.

“Não faz mal a ninguém. Você só está jogando, está apenas se divertindo. Na verdade, você está tentando melhorar sua saúde, tentando aprender. Por que isso é uma coisa ruim?”, questionou Nadim quando perguntada sobre a posição do Talibã a respeito de mulheres que praticam esportes.

“Eu não entendo. Não faz o menor sentido pra mim. E esse é o tipo de pessoas que têm o poder de governar um país. O que isso diz sobre o país? E para onde vai o futuro do país? […] é tão perturbador”.

Uma ameaça aos direitos das mulheres

Nadim sabe que, para cada mulher afegã que foi evacuada do país com sucesso, muitas ainda estão presas.

Quando o Talibã assumiu o comando de 1996 a 2001, as mulheres foram proibidas de estudar e trabalhar. Depois que o grupo foi destituído em 2001, elas puderam frequentar universidades e ter empregos.

Agora que o Talibã retorna ao poder, os críticos — incluindo Nadim — têm dúvidas sobre se o governo permanecerá fiel a suas alegações de inaugurar um regime moderno que “inclui” as mulheres.

Nenhuma mulher foi nomeada como parte do governo interino do Talibã na terça-feira (7), indicando que o Afeganistão agora se junta a uma dúzia de outros países onde não há mulheres ocupando cargos de alto escalão no governo.

“Tenho medo que sejam as mesmas regras que eles [o Talibã] vão trazer de volta, embora estejam dizendo algo diferente. Isso é perturbador para mim”.

“Quando olho para o futuro das mulheres e meninas afegãs, para o meu futuro, a educação é algo que deveria ser um direito humano. Todos deveriam poder ir à escola, tentar melhorar de vida. Por isso não entendo […] os valores e a forma como eles funcionam.

“Isso é o mínimo. Poder ir à escola, ter voz, dizer o que se quer. E acho que isso é algo que foi tirado delas”, acrescentou Nadia.

Nadim concorda com a ex-capitã do futebol afegão Khalida Popal e sua compatriota olímpica, Friba Rezayee, que conversaram com a CNN Sport em agosto sobre como a ascensão do Talibã ao poder sinaliza uma ameaça aos direitos das mulheres no país.

“Minha mensagem para cada […] indivíduo e para organizações e governos é que não se esqueçam das mulheres do Afeganistão, elas não fizeram nada de errado e não devem ser esquecidas, elas precisam de apoio, elas precisam de proteção”, disse Popal.

“Nós vamos conseguir. No mínimo, nos tornaremos um grupo de resistência. Vamos lutar por nossos direitos, não importa o que aconteça”, disse Rezayee.

“Se você não tem permissão para tocar ou ouvir música, como acha que os esportes vão ter algum espaço? E, novamente, isso é o que eu não entendo. Qual o sentido disso? Para mim, não tem nada a ver com religião”, comentou Nadim.

“É só um bando de homens das cavernas tentando controlar as pessoas pelo medo. E sua maneira de impor o medo é simplesmente fazendo com que ninguém tenha uma vida. Assim, no futuro não vejo nenhum esporte no Afeganistão, seja masculino ou feminino, infelizmente”.

Uma luz no fim do túnel

Apesar de sua previsão, Nadim está decidida a ser um exemplo para as jovens mulheres no Afeganistão.

“Por mais difíceis que sejam os tempos, nunca se deve perder a esperança. Você sempre tenta sentir ou pensar que algo vai mudar, e que você é capaz de mudar alguma coisa com mentalidade e atitude positiva”, refletiu.

“Porém, agora preciso dizer o seguinte: isso não está dando certo, porque, para mim, mesmo quando tento imaginar o futuro, não vejo nenhuma luz. Parece tudo muito sombrio”.

“A única maneira de vê-las tendo um futuro, em termos de ter permissão para fazer coisas básicas, de ter direitos humanos básicos, é se o Talibã realmente se flexibilizar por conta da pressão da comunidade internacional, ou se forem retirados do poder de alguma forma”.

“Na verdade, sou a imagem de tudo o que o Talibã não quer que as mulheres sejam”, acrescentou Nadim.

“Quer dizer, eu uso minha fala. Eu uso minha voz. Eu quero igualdade. Eu quero os mesmos direitos que os homens têm”.

“Eu me expresso no campo e fora do campo. Acho que esses são alguns dos valores que eles [o Talibã] não queriam que as mulheres tivessem”.

Se seu recorde de gols for algum sinal, Nadia Nadim não joga para perder.

Com 30 e poucos anos, muitas jogadoras de futebol seriam perdoadas se estivessem pensando em diminuir o ritmo.

Mas, apesar de tudo o que passou e realizou, Nadim está firmemente olhando para o futuro.

“Tenho apenas 33 anos, mas sinto que já vivi sete, oito vidas. E sinto que isso me moldou, me deu esse caráter, essa força que tenho hoje”, afirmou.

“Não quero que ninguém passe pelas mesmas coisas que eu passei, sinceramente. Nem mesmo meus inimigos. Mas, por outro lado, isso tudo foi o que aconteceu na minha vida, e acho que tirei o melhor proveito disso”.

“Também acho que estou longe de me aposentar. Tenho tantas ambições, tantos objetivos. E acho que tenho muita motivação também. Tive uma segunda chance na vida, e não vou desperdiçá-la”.

(Texto traduzido. Leia aqui o original em inglês.)

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