Fórmula 1 completa 50 anos desde a última mulher a pilotar
Neste fim de semana, completa-se meio século desde que uma mulher disputou pela última vez uma corrida do Campeonato Mundial de Fórmula 1

Alexia Danielsson tinha 14 anos quando pilotou um carro de Fórmula 1 pela primeira vez: um Williams de 2007 modificado, pertencente a um amigo da família.
Agora, aos 17 anos, ela disputa a Fórmula 4 da Europa Central, categoria que tem entre suas adversárias a finlandesa Ella Häkkinen, de 15 anos, filha de Mika Häkkinen, bicampeão mundial de F1 aposentado e piloto apoiado pela McLaren. A sueca espera, um dia, ocupar de verdade um lugar no grid de largada de um Grande Prêmio.
“Não acho que nada seja impossível. Você só precisa realmente correr atrás. Quanto tempo vai levar? Não faço ideia”, disse Danielsson à Reuters. Atualmente, ela ocupa a 26ª posição entre 49 pilotos na classificação.
A jovem é uma das muitas que perseguem um sonho que pouquíssimas pessoas conseguem realizar. E, nos últimos 50 anos, apenas homens conseguiram chegar até o fim desse caminho.
Neste fim de semana, completa-se meio século desde que uma mulher disputou pela última vez uma corrida do Campeonato Mundial de Fórmula 1 — e a espera parece longe de terminar. Em 2024, o CEO da F1, Stefano Domenicali, disse que não via isso acontecendo nos cinco anos seguintes.
Busca por mudanças
Danielsson, cujo pai, Alx, venceu a World Series by Renault em 2006, já é uma piloto de elite — uma das selecionadas pelo More Than Equal, iniciativa criada em 2022 pelo ex-piloto de F1 David Coulthard e pelo bilionário tcheco Karel Komárek.
O objetivo inicial do programa global sem fins lucrativos era “identificar, desenvolver e apoiar a primeira campeã mundial de Fórmula 1”.
“Não somos uma equipe de corrida, não temos carros brilhantes com adesivos brilhantes, não somos uma categoria. O que fazemos é formar pilotos, e é assim que nos encaixamos no ecossistema”, disse à Reuters o CEO Tom Stanton.
Não há dúvidas sobre o comprometimento das selecionadas, nem sobre a consciência de como será difícil o caminho escolhido, em meio à explosão de popularidade do automobilismo. Elas não são fãs deslumbradas que chegaram ao esporte atraídas pelo sucesso da série documental da Netflix “Drive to Survive”.
Danielsson começou no kart aos seis anos e migrou para os carros aos 13. Outras pilotos deixaram suas casas e algumas até se mudaram para outros continentes, assim como fizeram alguns dos atuais pilotos da F1 em idade semelhante, para avançar na carreira.
Stanton afirmou que, quando o More Than Equal iniciou o programa de desenvolvimento de pilotos, os envolvidos já sabiam que tinham uma montanha a escalar. Dois anos depois, ela parece mais com o Everest — mas, pelo menos, o acampamento-base está claramente estabelecido.
A F1 Academy, categoria feminina apoiada pela Fórmula 1 que substituiu efetivamente a antiga W Series e mantém uma parceria com o More Than Equal, também ampliou a visibilidade das pilotos ao realizar corridas durante alguns fins de semana de Grandes Prêmios, como parte da programação de apoio.
A britânica Abbi Pulling venceu a F1 Academy em 2024 e também triunfou em uma corrida da F4 britânica. Neste ano, ela também já venceu provas do campeonato GB3. A francesa Doriane Pin, campeã da categoria no ano passado, posteriormente testou um carro de F1 da Mercedes.
“Estamos começando a ver mais mulheres pilotando por aí”, disse Stanton.
“Elas também estão tendo desempenhos melhores. Acho que, à medida que as pilotos começam a aparecer de forma mais consistente nas primeiras posições, mais pessoas vão notar. E isso é uma bênção e uma maldição, porque então surge uma expectativa.”
Plataforma para identificar novos talentos
O More Than Equal criou a FutureLap, uma plataforma que analisa dados de campeonatos de kart e de categorias de base de monopostos para identificar talentos emergentes, homens e mulheres, que de outra forma poderiam ter dificuldade para chamar atenção.
O programa também iniciou um estudo com a Universidade de Portsmouth para ampliar o conhecimento sobre ergonomia feminina na Fórmula 4.
“O que estamos vendo é que há mais pilotos mulheres surgindo”, disse Stanton. “E não é que elas não estivessem lá. É que não conseguíamos identificá-las porque os resultados não indicam o gênero. Andrea, no Reino Unido, é um nome feminino. Na Itália, é masculino.”
O primeiro grupo de seis pilotos selecionadas pelo More Than Equal foi escolhido entre 1.000 candidatas. A segunda turma, com oito integrantes, saiu de um grupo de 1.500 inscritas.
“A ambição continua sendo ver a primeira mulher vencer o Campeonato de F1, mas acho que também devemos reconhecer que há uma série de pioneirismos ao longo do caminho que têm a mesma importância”, disse Stanton.
“Não estou dizendo que a primeira campeã mundial de F1 seria um acontecimento absolutamente meteórico. Mas, de certa forma, a primeira mulher a ocupar um lugar no grid teria importância equivalente, porque legitimaria a ideia de que o automobilismo pode ser um esporte misto.
“Acho que o que estamos fazendo é único. Também acredito que será necessário um esforço coletivo para criar essa oportunidade. Será uma combinação do nosso trabalho com o das equipes e de outros sistemas de apoio, e todos teremos de trabalhar em conjunto para fazer isso acontecer.”


